Post-Hype: “Mafia II”

O cinema, principalmente Hollywoodiano, tem uma grande tradição com os filmes de máfia. Não apenas pelo incrível sucesso de “O Poderoso Chefão” nos anos 1970 (que é sempre lembrado como um dos melhores filmes de todos os tempos), mas nas décadas de 30 e 40 tivemos muitos filmes sobre o tema. Também pudera, era da época. Independente de onde começou e por onde passou, fato é que o gênero mafioso é muito popular, com muitos clássicos, inspirou também a televisão (“Família Sopranos”) e, claro, chegaria algum dia aos videogames.

O primeiro “Mafia” não poderia ter um nome mais explicativo. É um jogo sobre a máfia, pronto. Seguindo o esquema open world expandido por “Grand Theft Auto III” um ano antes, o primeiro “Mafia” é um clássico do gênero. Não tão livre e menos sandbox do que muitos jogos do estilo, era um jogo mais focado na história, portanto mais linear e climático. O tema da máfia rende boas histórias, talvez por sua clara relação com dramas familiares (a máfia é uma família), por isso deste foco também em um videogame.

Até a seqüência foi um longo intervalo. Algo raro nesta indústria, vale lembrar! O primeiro foi lançado em 2002, enquanto que “Mafia II” apenas deu o ar de sua graça em 2010. Nesses oito anos mas nesse tempo muita coisa mudou no gênero, muitas novidades, portanto a evolução de um episódio para o outro não seria apenas um novo passo narrativo. “Mafia II” teria que compensar muito, mas após oito anos de hype e expectativa, teria ele conseguido?


O primeiro jogo se passa nos anos 1930, na cidade fictícia de Lost Heaven, contando a história de Tommy Angelo e seu envolvimento com a máfia da família Salieri no auge da Lei Seca americana. A história termina com Angelo entregando tudo que sabia sobre seu patrão em um julgamento, para anos mais tarde ser assassinado em vingança. “O mundo não é regido por leis escritas em papéis, mas sim por pessoas”. A seqüência se passa na também fictícia Empire Bay e conta a história de Vito Scaletta e seu amigo Joe Barbaro, inicialmente no pós-2ª Guerra e mais tarde avançando para o início dos anos 50. Cidade nova, personagens diferentes com pouca relação com o jogo anterior, onde acaba “Mafia” e começa “Máfia II”? Na citação de Tommy Angelo, que é relembrada em ocasiões. É uma história sobre as pessoas que regem o mundo independente das leis.

Vito e Joe são bons protagonistas (você controla apenas Vito no modo principal) e a história é muito bem amarrada e escrita, com boas reviravoltas e missões surpreendentes. O problema do roteiro é o excesso de personagens. E, lembrando que todos são da máfia italiana, acredite que você irá se confundir entre Clementes, Gurinos e Scarpas. São todos chefões de famílias para qual a dupla trabalha, mas nenhum com uma linha de trabalho específico, o que na história em si torna-se apenas “mais um chefão”. Vito e Joe são os importantes e os únicos personagens que desenvolvem. Assim como Tommy Angelo, eles querem mais da vida e seguem por um caminho que pode lhes proporcionar isso, mas com conseqüências. A história de Scaletta e Angelo se cruza nos anos 50 em uma revelação interessante. E o final do jogo, infelizmente um pouco em aberto demais, não deixa de ser chocante. Assim como no episódio anterior, trabalhar para a máfia trás duras conseqüências.

Apesar da inspiração em “Grand Theft Auto”, “Mafia II” segue o esquema do seu antecessor e é muito linear. Você pode explorar a cidade livremente, mas ela não é cheia de missões secundárias e a história não toma o rumo que você definir. É tudo muito bem roteirizado, em favor da história. Pode parecer um sacrifício, mas não é. O jogo funciona linearmente tão bem quanto “Uncharted” ou qualquer outro título de ação. O problema é ter uma cidade para explorar entre missões, só que a cidade acaba sendo pouco útil, fora para melhorar seu carro ou comprar novas armas. Uma pena, pois o mapa é muito bem feito e completo. Existe um enorme parque à lá Central Park, mas nenhuma missão se passa nele. Existe todo um bairro suburbano, mas nada acontece ali. Como a história acaba focando apenas naquilo que tem a contar, certas áreas do mapa são completamente inúteis – a não ser que você conte os capítulos adicionais via download, que usam outros cenários.

Se a cidade é sub-utilizada, uma pena, mas as missões são variadas e acompanham bem a história. É tiroteio em abatedouro, invasão de restaurante da Chinatown, explodir uma reunião da família rival no alto de um hotel no centro. Muita coisa acontece em “Mafia II” e, se o cenário da cidade em si serve apenas de fundo para as seqüências de perseguições, isso não restringe o que acontece nos capítulos de forma alguma. Há muita variedade neste enredo, mesmo que a maioria das cenas geralmente se encerre com algum tiroteio.

A primeira parte se passa durante os anos 1940.

Além da história bem amarrada que cria boas seqüências de ação, o principal trunfo de “Mafia II” sem dúvida é a produção de época. A cidade de Empire Bay é tão viva e realista quanto a Liberty City de “Grand Theft Auto IV”, com o diferencial de remeter fielmente a épocas do passado. As roupas dos pedestres, os carros, o estilo arquitetônico, as lojas nas ruas, as propagandas pregadas em postes, paredes ou outdoors… É tudo tão completo e atencioso que é impossível não se sentir viajando no tempo, vivendo aqueles anos. O jogo começa no pós-Guerra, apropriadamente durante um inverno, uma pena que são apenas poucos capítulos. O clima de réquiem da Era do Jazz é capitado de forma melancólica, uma despedida em andamento, acompanhando um Vito Scaletta que volta mais sóbrio de batalhas da Europa. Quando a história pula para o início dos 1950, é como se um jogo novo surgisse, embalado junto com o advento do rock – e o avanço de Joe e Vito em sua carreira criminosa. Tudo ganha mais vida, movimento. Seja em uma cidade mais agitada pelo verão, ou por uma juventude greaser, ou pelos carros mais possantes, ou principalmente pela agitadíssima trilha sonora das rádios. Nada contra os anos 40, mas “Mafia II” ganha outros ares quando uma perseguição de carro é embalada por “Long Tall Sally”.

Esta altíssima produção não apenas deixa o jogo mais completo esteticamente – ele já é belíssimo por si só, fosse ambientado na época que fosse. Como já dito, o foco aqui é a história, na linearidade, e não na liberdade. Há um enredo a ser contado e para trazer o jogador ainda mais para dentro dele, o jogo capricha na imersão. Gráficos, música, visual, estilo, personagens… Tudo é tão bem feito que é impossível não sentir a espetacular sensação de fazer parte daquele tempo. Boas histórias de máfia nos trazem reflexão sobre família ou criminalidade, mas o esforço de “Mafia II” vai além. Uma história bem contada sobre esse universo, o cinema ou a televisão tem de sobra – e contam histórias melhores mesmo. Mas fazer você se sentindo parte disso? É isso que torna, como um videogame, “Mafia II” tão especial.

A segunda parte durante os anos 1950.

O jogo foi lançado um ano atrás e não perdeu nem um pouco do seu charme. Atualmente disponível para PC, PlayStation 3 e Xbox 360, “Mafia II” já recebeu uma versão Director’s Cut que inclui os três episódios adicionais vendidos via download. São mais focados na ação e não tem muita história, portanto são dispensáveis. Os dois primeiros, “The Betrayal of Jimmy” e “Jimmy’s Vendetta” são fracos, repetitivos e com missões simples. “Joe’s Adventures” conta um pouco da história do ponto de vista de Joe Barbaro e é o melhor episódio adicional, ainda assim que não seja grandes coisas também.

Independente dos extras, eis um excelente jogo que merece ser conferido – de preferência em um PC poderoso que aguente os detalhadíssimos gráficos. Após o hype de lançamento está claro que “Mafia II” é tão memorável quanto seu antecessor.

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