Post-Hype: Oscar 2011

Geralmente a premiação da Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood se divide entre dois filmes. Toda exceção tem sua regra, mas sempre existe um grande favorito e, na maioria das vezes, um filme secundário, com chances de levar. O mesmo aconteceu no Oscar 2011, que tinha “A Rede Social” de David Fincher como o favorito, mas foi a zebra “O Discurso do Rei” de Tom Hooper que acabou saindo o grande vencedor. Muitos meses depois, com os cinéfilos já se preparando para o Oscar 2012 e com a mente livre da pressão do hype… Será que venceu o melhor filme?

Pôster oficial do Oscar 2011.

Acho que o consenso geral, pela minha lembrança da reação da imprensa e da internet, foi que “A Rede Social” foi injustiçado. O filme estreou em festivais americanos, nessa mesma época do ano, e foi extremamente elogiado. A ponto do exagero! Certos críticos o compararam com “Cidadão Kane”. Nem um filme melhor que “Cidadão Kane” merece ser comparado com “Cidadão Kane”. Estamos falando de uma parte da Pedra Rosetta do cinema. Só compare um filme a Kane se você quiser que ele fracasse e, nesse ponto, “A Rede Social” é um fiasco. Como novo “Cidadão Kane”, ele não passa de uma piada.

Mas é ou não é um excepcional filme? David Fincher provou faz tempo que tem talento, com espetaculares filmes como “Seven”, “Clube da Luta” e “Zodíaco”. Ele com certeza não é o novo Orson Welles, como talvez a estúpida mídia americana queira, mas é um dos melhores diretores da atualidade. Tem estilo e pontualidade, uma raridade. É fácil fazer um filme diferente – os festivais estão sempre cheios deles – mas Fincher consegue contar sua história, com a sua marca, sem se perder na futilidade do estilo gratuito. Vide “A Rede Social”, um filme ágil, com diálogos brilhantes (vindos de Aaron Sorkin, da premiada série “The West Wing”) muito bem conduzidos, e uma narrativa peculiar, mas marcante. Há algo de diferente em “A Rede Social”, mas ninguém fica perdido nele. Ok, os atores falam rápido demais, mas ei, não estamos assistindo novela, estamos?

“Eu criei o Facebook, duvido você encontrar alguém melhor para ganhar um Oscar!”

Já “O Discurso do Rei”, que também estreou em festivais, teve sua coroação mais tardia. Não surgiu favorito e não levou praticamente todos os prêmios da imprensa. É como se a mídia americana tivesse feito uma reunião e definido “’A Rede Social’ tem que ganhar o Oscar”, mas ei que chegou “O Discurso do Rei” na última curva e acabou abocanhando muitos prêmios da indústria. Pois é, a imprensa idolatrou “A Rede Social” como a nova vinda do messias Kane, mas quem trabalha com cinema ignorou o hype e elegeu outro favorito.

Há algo de absurdamente oscarizável em “O Discurso do Rei”: você chora no final. Os eleitores da Academia adoram uma catarse e há uma forte na história do príncipe gago que vira rei por acaso e conduz uma nação à guerra. É o que todo filme deseja ser, a história de alguém em dificuldades que vence o destino e se torna um herói. É a história dos EUA – do ponto de vista dos americanos, ao menos! “O Discurso do Rei” é competentemente dirigido, mas na verdade é estupendamente conduzido pelas atuações de Colin Firth e Geoffrey Rush. É uma história de amizade que derrota a adversidade. Olhando pelo prisma do maniqueísmo, é um filme do bom vencendo o mal.

“Que tal o rei da Inglaterra, ô muleke?!” OWNED!

Antes do Oscar, já influenciado pelo hype “’A Rede Social’ vs ‘O Discurso do Rei’”, e tendo assistindo ambos filmes, a minha opinião era que o filme de Tom Hooper merecia mais o Oscar do que o de David Fincher. Mas ser merecedor de Oscar é diferente de ser melhor, não? Agora, após ter assistido os dois novamente, percebo que “A Rede Social” mostra-se uma melhor opção. É um filme que dá para assistir novamente e ainda se encantar com a boa história. “O Discurso do Rei”, apesar de ser um belo filme, me pareceu um pouco menos interessante na reprise. A atuação de Colin Firth não vai envelhecer, mas toda a direção do filme me pareceu tão… Boba. Poderíamos estar assistindo “Babe – O Porquinho Atrapalhado” e a jornada do porco para provar que é um bom cão pastor, e ninguém repararia a diferença na narrativa… Na verdade, ainda prefiro “Babe”, por ser mais legal torcer para um porco do que para um rei.

“O Discurso do Rei” conseguiu convencer os eleitores da Academia que sua história é bonita, mas não sei se ele irá conseguir convencer o tempo que é um filme memorável. Eis um trunfo que “A Rede Social” tem do seu lado. Se há algo que é óbvio ao se analisar filmes antigos é que uma história bem contada preserva-se melhor do que apenas uma boa história.

Outro detalhe que percebi em “A Rede Social” que não me chamou a atenção originalmente foi sua trilha sonora, composta por Trent Reznor e Atticus Ross. A trilha encaixa-se na narrativa de uma forma impressionante. Apesar disso, ainda penso que a premiação de Melhor Trilha Sonora para “A Rede Social” não foi merecida. Comparado com o que Alexandre Desplat fez em “O Discurso do Rei”, eis a verdadeira zebra do todo o Oscar 2011. O trabalho de Reznor e Ross é diferente e interessante, mas bem menos marcante do que o de Desplat ou mesmo de Hans Zimmer em “A Origem”.


Uma grande cena brilhantemente pontuada pela música.

Agora é ver o que nos prepara o Oscar 2012. Ainda é cedo para vermos algum favorito ou alguma potencial zebra e, principalmente, prever um possível injustiçado. Sabe-se que nem sempre a Academia premia o melhor filme do ano, e sim o filme mais apropriado a ganhar. Estou preparado para a história se repetir ano que vem novamente.

Anúncios
Esse post foi publicado em Oscar, Post-Hype e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Comente aqui...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s