“Bonequinha de Luxo”, 50 anos depois

Um dos filmes mais famosos na história de Hollywood, “Bonequinha de Luxo” raramente é de fato lembrado como um clássico. Sim, é um filme reconhecido, um nome no lugar comum, e a imagem de Audrey Hepburn em seu “pretinho básico” segurando uma piteira é icônica. Mas ele não é colocado no mesmo patamar de “Casablanca”, “O Poderoso Chefão” ou “O Mágico de Oz” como clássico hollywoodiano. E acho isso um erro! Sem querer comparar filmes por qualidade, hoje se celebram os 50 anos de um dos filmes mais queridos dos anos 1960 e que firmou a imagem de uma grande estrela de Hollywood no subconsciente popular.

Só que existe uma razão para este clássico ser lembrado tanto tempo depois.

“Bonequinha de Luxo” talvez não seja visto como um dos melhores filmes da história norte-americana por que sua imagem acabou superando sua qualidade. Audrey Hepburn é, ao lado de Marilyn Monroe, a mais famosa atriz produzida nos estúdios de Hollywood. Com o diferencial de ter sido indicada ao Oscar cinco vezes! E sempre que se lembra de Audrey, lembra-se de “Bonequinha de Luxo”. Portanto o filme tem a dura tarefa de superar a fama de sua grande estrela. Mas, curiosamente, isso nunca atrapalhou “Quanto Mais Quente Melhor”, não é verdade? Não quero aqui devagar o motivo deste filme ser pouco reverenciado. Quero apenas lembrar por que ele deveria ser.

“Bonequinha de Luxo” é inspirado em um conto de Truman Capote pré-“A Sangue Frio”. Neste caso, a obra supera o mestre. Ou Audrey supera Capote? Pouco importa. Não é seu melhor texto, mas é seu mais famoso, e graças ao filme. Quando este foi lançado, em 05 de Outubro de 1961, os anos sessenta ainda eram, bem, anos cinqüenta. A década mais turbulenta e famosa do século passado não tinha nem começado! Os Beatles não existiam, Kennedy não havia sido assassinado, Martin Luther King não tinha tido nenhum sonho. Muita coisa aconteceu nos anos seguintes, mas os anos sessenta pré-62 ainda tinham aquele ar de inocência, uma suavidade juvenil. E existe forma melhor para descrever “Bonequinha de Luxo”?

Eu adoro a tradução brasileira do original “Breakfast at Tiffany’s”. Perde-se a simbologia, ganha-se em charme. É um filme sobre uma prostituta, mas essa prostituta é Audrey Hepburn! O resultado seria completamente diferente se Monroe estivesse no papel. Hepburn, no auge de toda a sua insegurança, era a mulher mais frágil e charmosa que Hollywood já viu, e por isso todos a amavam. Não é que ela fosse bonita ou inteligente ou sensual. Ela era frágil, demonstrava isso sem pudores, ao mesmo tempo que tentava ser forte. Caiu como uma luva no papel de Holly Golightly. A prostituta estilosa de origem caipira que queria ser de Nova York, mas era do Texas.

Entra então a simbologia do “Breakfast at Tiffany’s”. Erro que acha que o título deve-se apenas à clássica cena introdutória. “Café-da-manha na Tiffany” não é apenas uma passagem, mas uma ideologia. Que Holly muito bem apresenta durante todo o filme. “Se eu pudesse encontrar um lugar real que me fizesse sentir como na Tiffany”, diz a personagem, “então eu compraria móveis e daria um nome ao gato”. Holly Golightly sonha com um lugar que a fizesse se sentir tão bem como ela se sente em uma joalheria! Eis o ponto principal do filme: a história de uma garota que já começa o dia sonhando. Holly só quer ser feliz – tão simples! – mas existe algum lugar para ela tão bom quanto sua Tiffany? Não que ela saiba. Não que ela queira saber.

Esta dúvida, esta ambigüidade da personagem, é expressa com maestria em sua melhor cena, quando Holly canta casualmente na janela de seu apartamento. A música em questão foi feita para o filme, “Moonriver”, do compositor Henry Mancini. Audrey Hepburn, sem talento vocal nenhum, atuou para cantar. Seu talento se uniu ao de Mancini para trazer uma das mais belas cenas da história do cinema:

A música define o filme, e a personagem, de forma tão simples que é difícil imaginar “Bonequinha de Luxo” sem “Moonriver”. Holly Golightly canta e imagina o dia que algum companheiro (“my huckleberry friend”) irá tirar ela desta vida sem ritmo, seguindo a correnteza do tal do Moonriver. Enquanto vive no delírio de uma vida fantasiosa – charmosa e divertida, mas fantasiosa – no fundo Holly quer ser salva por alguém. Não conseguindo berrar por socorro, ela canta na janela.

A mensagem do filme, e da personagem, ecoa com tanta facilidade graças a Audrey Hepburn. Uma pena que as pessoas vejam sua atuação aqui apenas como fofa, ou graciosa, ou charmosa. Sim, Audrey é fofinha até atuando como bêbada, mas sua atuação é tão competente que é um tanto ofensivo que as pessoas lembrem apenas da roupa que ela usa. Audrey dá charme para uma prostituta, mas o real valor de seu trabalho está em como ela conseguiu retratar a insegurança de Holly. Sendo uma mulher incrivelmente insegura, a atriz usava isso a seu favor nas suas performances. Todo mundo se apaixona por Audrey Hepburn por que ela pede por isso – temendo não ser aceita, ela encantava. Diferente de uma Marilyn Monroe, a eterna moça frágil, Hepburn transformava sua fraqueza em força. E em personagens que pediam por isso, seu esforço se traduzia em uma performance muito mais forte do que talvez ela mesma percebia.

Sua Holly Golightly, incrivelmente feminina, era um poço de insegurança e solidão. Ela queria ser salva por alguém, mas não sabia por quem e nem como pedir. Cambaleava de festa em festa, de amores em amores, esperando que o acaso lhe apresentasse uma oportunidade. Como Holly queria ser salva de uma vida que ela mesma pregava como divertidíssima, Audrey transformou esta contradição em fraqueza e sensibilidade. No fundo estamos falando de uma personagem que nada mais é do que a representação de toda mulher insegura. Seja dos anos 60, de qualquer época, qualquer mulher pode se identificar com Holly. Percebendo isso, Audrey Hepburn ajudou um já acertadíssimo roteiro a transformar em real um conceito duradouro.

O maior acerto do filme é em não julgar. Mulher insegura poderia ser um fantástico mote machista (ainda estamos falando do início dos anos 60) sobre como toda garota precisa de um rapaz para salvá-la. Sim, um homem salva Holly Golightly no final, mas é essa a mensagem? Não, “Bonequinha de Luxo” não é uma comédia romântica sobre o amor curando uma prostituta – deixe esse conceito piegas para “Uma Linda Mulher”. Estamos falando de um filme adulto, de uma pessoa que não se entrega ao amor simplesmente por que não consegue. Tem medo, insegurança, incerteza… Se o final feliz entrega que tudo dá certo, o filme ainda assim seria o mesmo se no final Holly Golightly viajasse para o Brasil para se casar com o fazendeiro rico. Mas estamos em Hollywood e final feliz é um pré-requisito.

Apesar de ser uma história de uma mulher, “Bonequinha de Luxo” é contado do ponto de vista de um homem – tão inseguro quanto Holly – o que dá uma profundidade maior ao roteiro.  Não é um filme sobre uma mulher insegura, e sim sobre uma pessoa insegura. Talvez “Bonequinha de Luxo” tenha se tornado um símbolo da alma feminina, mas não há nada ali que não se aplique a ambos os sexos. Ao nos contar tão bem um drama simplesmente humana, Holly Golightly deixou sua marca no cinema norte-americano. Muito além apenas do vestidinho preto e penteado estiloso. Eis uma história que ainda ecoa, cinqüenta anos depois.

Se fosse apenas o charme das cinco da manhã na 5ª Avenida, não seria possível analisar “Bonequinha de Luxo” além da primeira cena.

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Uma resposta para “Bonequinha de Luxo”, 50 anos depois

  1. Maria Deyvianne disse:

    adorei tudo q vc falou, gosto mt desse filme, já o vi nem lembro quantas vezes e sempre q assisto descubro um detalhe q se passou desapercebido! ótimo filme, quem não viu, realmente precisa vê-lo e com certeza se tornará um clássico, como se tornou para mim!

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