Late to the Party: “Médica, Bonita e Solteira”

O livro “Sex and the Single Girl” é considerado um precursor da onda feminista dos anos 1960. Era nada mais que um guia de auto-ajuda para a mulher solteira, criando regras de estilo da vida pré-casamento (uma clara inspiração para “Sex and the City”) e era tirado das experiências da autora Helen Gurley Brown antes de se casar. Brown era uma empresária, mulher do tipo que estava surgindo na época, que começava a própria vida sozinha e depois pensava na vida em casal. Acabou se tornando editora da Cosmopolitan.

A adaptação cinematográfica lançada alguns anos depois, que aqui se chamou “Médica, Bonita e Solteira” (sem sexo) tem o charme daquelas boas comédias seiscentistas, disfarçando um machismo que não deveria aparecer justamente neste projeto.

A protagonista do filme se chama Helen Gurley Brown (!) que também publicou um livro chamado “Sex and the Single Girl”, só que na ficção a personagem é uma psicóloga extremamente insegura – não bate em nada com o perfil de quem escreveria o livro que ela escreveu, não é verdade? Seu rival é o editor assumidamente safado de uma revista assumidamente safada chamada “Stop” (pare o feminismo?) que quer desmascarar a autora. Por quê? O que ela fez de errado? Ok, uma mulher publicando um guia para outras mulheres curtirem a solteirice, como os homens sempre fizeram, é motivo o suficiente para um machista criar antipatia, mas isso nunca é explicado de fato. O jornalista cafajeste finge ser um amigo e vai para o consultório da psicanalista – veja só! – tentar provar que ela na verdade é virgem.

Ai.

O filme é clara inspiração para aquele “Abaixo o Amor”, que tinha uma história bastante parecida e foi lançado uns anos atrás com Renée Zellweger e Ewan McGregor fazendo papéis similares. O clima é o mesmo, aquele charme, aquela leveza, aquele ritmo e graça que aparentemente só eram possíveis em filmes com Technicolor. Não se faz mais esse tipo de comédia romântica quase-musical como se fazia. Mas tamanha graciosidade não ajuda um filme sem graça e bem bobo.

Nada contra piadas com psicanálise, mas precisava Helen ser uma tão ruim? É normal os pacientes colocarem o analista no papel de uma figura romântica e paternal, logo Helen… Dá em cima do paciente para curá-lo? Oi?! E que história é essa de que ela tem que ser virgem para escrever um livro sobre solteirice? Nem em piada isso teria sentido.

O bom dos anos 60 é que, mesmo que o filme seja ruim, ao menos a direção de arte é sempre interessante.

O casal principal da história é vivido por Natalie Wood (que tinha medo d’água, mas sempre fazia filme onde se afogava), sem graça de dar dó, e Tony Curtis, que é engraçado até quando não tenta. Mas está longe da sua competência típica de “Quanto Mais Quente Melhor”. Como coadjuvantes temos Henry Fonda, pai da Barbarella, Mel Ferrer, então marido de Audrey Hepburn, e Lauren Bacall, que tem as melhores falas e descarrega seu sarcasmo com facilidade.

O filme todo é uma bagunça e termina caótico. O clímax envolve seis personagens perseguindo uns aos outros em três carros em direção ao aeroporto, trocando de veículos e de parceiros e de acusações, em uma tentativa frustrada de emular o estilo Blake Edwards. E no final todos os casais vão para o aeroporto fazer uma viagem romântica.

Em “Sex and the Single Girl”, mulher nenhuma termina solteira.

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