Late to the Party: A saga “Harry Potter”

Quando eu ouvi pela primeira vez sobre a existência de “Harry Potter” foi lá para idos do ano 2000. Fiquei sabendo do sucesso da série de livros, que ainda estava no quarto volume, e resolvi ler o primeiro deles.  Acabei não conseguindo me interessar e abandonei a leitura. Quando saiu o primeiro filme no ano seguinte, meu interesse era zero – apesar dele também ter feito sucesso. Inicialmente por pura rebeldia, não fiz questão de me interar na franquia, mas quando comecei a perceber que a crítica estava elogiando cada vez mais os filmes, meu interesse nasceu.

"A Pedra Filosofal"

Foi necessário o lançamento de todos os livros e filmes para eu finalmente dar uma chance a franquia “Harry Potter”. Sem saco para tentar novamente na literatura, assisti a aventura cinematográfica dividida em 8 episódios para de vez criar uma opinião formada sobre esta idolatrada saga. Sim, “Harry Potter” pode não ter a durabilidade de James Bond nem o impacto cultural de “Star Wars”, mas foi um fenômeno que durou dez anos no cinema e seu valor é inegável.

Mas se dependesse dos três primeiros filmes, esse valor não seria lá assim tão… especial! Já falo logo: se dependesse somente das primeiras três partes, se “Harry Potter” não tivesse o sucesso espetacular de uma série de livros antes, a franquia cinematográfica não iria para a frente. As pessoas reclamam muito de “Star Wars – Episódio I”, mas a trilogia inicial do bruxo não passa desse maltratado filme de George Lucas multiplicado três vezes. E sem Darth Maul. Nem duelos de sabre-de-luz ou Natalie Portman.

"A Câmara Secreta"

“A Pedra Filosofal” é o mais fraco de todos. Que bom, já começa errado, né? O filme funciona bem em introduzir o universo, muito bem criado por J. K. Rowling. Nesse aspecto, sim, o resultado final encanta. Mas com mais de 2h30 de duração, é muita introdução. “Star Wars” demorou menos para chegar em Tatooine… Nada acontece nesta primeira parte, temos apenas a introdução deste mundo novo, dos personagens principais, de Hogwarts e… Um confronto fraco com um vilão bocó no final. Nada acontece o tempo inteiro.

“A Câmara Secreta” melhora um pouco, mas não muito. Novamente, outro filme longo sobre Harry Potter passeando por Hogwarts, brincando com magia (inúmeros momentos Jar Jar Binks), sem nenhuma jornada acontecendo, apenas as “aventuras” de um garoto na escola. Zzzz… Existe um mistério bobo, desenvolvido sem graça, que resulta em outra cena final com um vilão bocó. Cadê Darth Maul quando a gente precisa, né? Esses dois filmes, extremamente medíocres, foram dirigidos por Chris Columbus (que fez inúmeros clássicos da Sessão da Tarde dos anos 90, como “Esqueceram de Mim”), que conseguiu introduzir o mundo de Rowling e não criar nada com ele. Ao menos a música tema de John Williams é bem legal.

"O Prisioneiro de Azkaban"

E eis que chega “O Prisoneiro de Azkaban”, um dos favoritos por muito dos fãs. Por quê? Por causa do visual um pouco mais sombrio? Estavam os fãs de Harry Potter tão carentes de emoção e profundidade que uma fotografia com tonalidade cinza de repente virou roteiro maduro? Novamente, um filme longo demais onde nada acontece. Temos novas magias, um novo mistério ximfrim, um lobisomem pouco ameaçador e um mergulho raso no passado da jornada de Potter. A história se desenvolve um pouco melhor e a direção de Afonso Cuarón é boa, mas novamente o filme não mostra nada que marque. Absolutamente nada! Nem aquela cena um pouco criativa envolvendo “viagem no tempo”, digamos assim… É um momento “ó que legal” que você esquece quando o filme acaba.

As coisas melhoram muito em “O Cálice de Fogo”, esse sim de fato um filme que terminou e me deu vontade de logo ver a seqüência. Mas preciso elaborar um pouco sobre essa lenga-lenga da série “Harry Potter” em começar. Talvez funcione nos livros, não duvido que seja muito legal acompanhar ano a ano escolar do bruxinho, mas em cinema precisamos de um pouco mais… A saga “Harry Potter” transforma três episódios de um seriado teen em três filmes longos demais, não apresenta nada na história, só menciona o vilão principal, não coloca o protagonista em conflito algum com coisa alguma, e era para a gente se entreter? Me desculpa, mas não colou! A coisa começa a ficar interessante no quarto filme, mas convenhamos, já estamos no QUARTO filme! Ainda comparando com “Star Wars”, quando chegamos ao final do “Episódio II” já temos Anakin Skywalker lidando com a morte da mãe, se casando escondido, cedendo ao lado negro da Força e o começo do golpe de estado por parte do vilão central (que já estava em cena desde o primeiro ato do “Episódio I”) além de umas três grandes cenas de guerra. “Harry Potter” perde muito tempo introduzindo Harry Potter e entediando quem não já tem interesse prévio no personagem…

"O Cálice de Fogo"

Mas eis que vem “O Cálice de Fogo”, de fato um episódio legal. O início ainda é bobo, mas o tal do Torneio Tribruxo já é algum evento um pouco maior do que tudo que acontece nas três aventuras anteriores somadas! O filme cresce muito naquela divertidíssima cena de baile, que mostra que os personagens cresceram, e já coloca o trio principal em alguns conflitos. Baboseiras? Ok, mas diverte e humaniza os três. Os grandes desafios do Torneio são interessantes e, se a trama em si não é lá grandes coisas, ao menos os conflitos por conta dessas aventuras aumenta a tensão. E quando Lorde Voldemort finalmente aparece, em carne, a coisa vira de jeito. Ele é um bom vilão (tem um estilo meio Darth Sidious, o Imperador de “Star Wars”) e de cara já tenta matar o Harry Potter! Oba, é assim que se faz, acabou a lenga-lenga! Harry escapa, lógico, mas sofre as conseqüências disso com a morte de um colega e termina o quarto ano de sua jornada em maus lençóis. Hermione está com medo das mudanças, mas aí que está o crescimento da série como narrativa: mudanças vão vir, não necessariamente serão boas, mas faz parte. Harry percebe disso e mostra para a gente que cresceu, e muito, neste filme.

"A Ordem da Fênix"

O quinto filme, “A Ordem da Fênix”, é um misto de evolução e retrocesso para a série. Seu principal problema remete aos três primeiros episódios, pois não há uma trama central interessante o suficiente. Existe certo apelo na “reforma escolar” influenciada pela vilã rosa vivida por Imelda Staunton (em uma atuação divertidíssima e, de longe, a personagem nova mais interessante deste ano). Mas mesmo com uma ou outra cena bem feita, a ameaça fica relegada ao enredo central da série e daí sai o ponto positivo do filme: continuar levando a saga para frente, desenvolvendo Harry Potter como personagem e Voldemort ainda mais ameaçador. O clímax, de longe o com mais ação da série até então – o primeiro que realmente é climático! – deixa novamente a impressão que os anos em Hogwarts estão ficando cada vez mais interessantes. Mesmo que o resto do filme, em si, seja um pouco mais lento que o anterior…

O sexto ano foi um passo para trás, por voltar ao status quo da franquia de “um ano na vida estudantil de Harry Potter”. “O Enigma do Príncipe” sequer perde muito tempo com o tal enigma do príncipe… Quem é o príncipe mestiço é um mistério que aparece no início do filme, se perde completamente enquanto o trio de heróis se envolve em suas sub-tramas amorosas, aí volta no final com uma revelação forçada, que não explica nada e pouco interfere no que a história representa em si. “O Enigma do Príncipe” tem algo de “O Prisioneiro de Azkaban”, tendo propósito na série e preparando para eventos maiores, mas como roteiro único é muito chato. E, claro, no final um personagem importante morre (algo que se torna uma tradição desde o quarto ano), mas o impacto da morte de Dumbledore me decepcionou, pois não teve a mesma carga dramática que a de Cedric Diggory ou Sirius Black. E, considerando a importância do diretor de Hogwarts na trama central da saga, isso acabou me surpreendendo.

"O Enigma do Príncipe"

E eis que chegamos em “As Relíquias da Morte”, que foi dividido em duas partes por que a Warner percebeu que os fãs não iriam se incomodar de dar mais um bilhão de dólares para os cofres do estúdio. A “Parte 1” é um tremendo fiasco, pois começa levemente interessante, com cenas ameaçadoras da trupe de vilões não dando tempo para os heróis sequer respirarem, mas logo cai em uma longa e chata exposição exacerbada de Harry e Hermione “peregrinando pelo deserto”, ignorando por completo todos os coadjuvantes da saga. São duas horas desperdiçadas com pouca coisa acontecendo e nem mesmo o clímax (novamente com a morte de um personagem, o inexpressivo Dobby) nos deixa na expectativa. Nada acontece, apenas vemos a trama se desenvolver lentamente, preparando para um final e sem sequer nos deixar empolgados com a possibilidade disso! O filme, de forma alguma, mostra que foi uma decisão lógica a divisão de “As Relíquias da Morte” em duas partes, considerando que o roteirista Steve Globes conseguiu muito bem adaptar os longos livros em 2 horas de projeção até então e aqui derrapou em tratar um prelúdio que poderia muito bem ser cortado, no mínimo, pela metade.

A “Parte 2” engana melhor a divisão, pois estamos falando de um longo clímax que com certeza tem mais eventos e ação juntos que todos os outros sete episódios da série – a meu ver isso é menos um elogio a este filme e mais uma crítica a todos os outros. Mas isso não muda o fato de que dava para a Warner produzir um excepcional episódio final ultrapassando as 3 horas de duração (funcionava com “O Senhor dos Anéis”) sem perder tempo com aquela “Parte 1” chata demais. De qualquer forma, como clímax esta “Parte 2” funciona muito bem, por ser um filme de ação muito bem editado. Como final para a série que, em parte, eu me decepcionei. Bons personagens tiveram uma conclusão pouco digna (Severo Snape merecia mais, considerando a importância dele em toda a saga). Na verdade apenas o próprio Harry Potter conseguiu ter uma conclusão digna de tantos anos de dedicação. Mas considerando que, no final das contas, o nome da série é “Harry Potter”, está tudo bem! Se em um contexto geral esses dois “A Relíquias da Morte” não foram tão impactantes como poderiam ter sido, ao menos finalizaram sete anos de aventura de uma forma digna.

"As Relíquias da Morte"

No final das contas, oito filmes depois e quase dez anos de dedicação por parte dos fãs, pode-se dizer que a franquia Harry Potter mostrou a que veio: entreteu-os. Acho que o impacto cultural vai sempre se dar muito mais no ramo da literatura do que no cinema, mesmo que os estúdios Warner Bros. e seus produtores tenham se esforçado ao máximo em manter sempre um bom padrão de qualidade nas aventuras cinematográficas. O esforço da autora J. K. Rowling em contar uma boa história do duelo entre o bem e o mal acabou traduzindo-se muito bem nas telas. Se “Harry Potter” não inovou a linguagem cinematográfica como “Star Wars”, com certeza deve ter divertido um pouco os fãs que já se apaixonaram por Hogwarts já em prosa.

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