A Link to the Past: “Titanic”

Existe uma ligação interessante entre o filme “Titanic” e o verdadeiro naufrágio que o inspirou. Um evento histórico e o outro fenômeno cultural, ambos refletem o conflito entre o romantismo e a ingenuidade perante a razão e lógica. Enquanto que o RMS Titanic era um produto da Belle Époque, o idealizado navio que não poderia afundar, eis que afundou e a lógica lembrou que coisas ruins acontecem; já o filme de James Cameron é um produto dos anos 1990, com a humanidade no auge de seu cinismo e racionalidade pessimista, que foi tomada em tempestade por um filme romântico, simples e absurdamente funcional.

Assim como o Titanic não deveria afundar, mas afundou, o “Titanic” fechou o ciclo e transformou em sucesso improvável um filme ingênuo.

Relançado agora em 3D (uma conversão excelente, diga-se de passagem) pela primeira vez desde que saiu dos cinemas em 1998, talvez toda uma nova geração que era jovem demais à época não se lembre do sucesso de “Titanic”. Mas fenômeno adolescente é pouco demais para o que foi o último filme a produzir filas que davam voltas em quarteirões – por que na época ainda existia cinema de rua! Leonardo DiCaprio foi catapultado ao Robert Pattinson da vez, mas “Crepúspulo” gostaria de ter um terço da repercussão que “Titanic” ou de sua bilheteria. Convenhamos, até “Avatar”, agora o novo líder nessa questão, não fez tanto barulho.

Muita coisa deu certo no resultado final da produção e é apenas essa a razão de seu sucesso. Não, “Titanic” não é o melhor filme de todos os tempos, sequer o melhor dos anos 90 ou mesmo o melhor do diretor James Cameron! Mas funciona muito bem e funciona por que Cameron sempre soube escrever histórias funcionais. O romance é óbvio, mas convence (a química entre DiCaprio e Kate Winslet ajuda muito). A produção é impecável – e não envelheceu quase nada por que não há overdose de CGI. A trilha sonora é James Horner no auge; “My Heart Will Go On” tem tanta chance de sair da memória de nossos ouvidos quanto “Moonriver” ou “Over the Rainbow”. E, claro, todo o espetáculo da grande tragédia ao final, que consegue empolgar (pelo visual) e emocionar (pelo lado humano). Hoje a moda é ver coisas serem explodidas por robôs ou super-heróis, mas houve uma época em que bastava um desastre real para dar conta do recado.

A versão anos 90 para a cena de beijo de "E o Vento Levou..."

E apesar de especialistas de plantão terem previsto que o filme seria um colossal fiasco (por conta do orçamento estratosférico até para os padrões atuais, 250 milhões de dólares), “Titanic” evidentemente se tornou o sucesso que é claro que ele deveria ter sido. E como todo grande sucesso, vieram os críticos. Um filme bom não pode fazer sucesso simplesmente por ser bom? Não. Os cínicos precisavam de uma razão! E como o sucesso era calcado na qualidade, tentaram então encontrar má qualidade na obra. Evidentemente que “Titanic” tem seus problemas (James Cameron não é um excelente roteirista), mas por vezes chegava ao absurdo de argumentos como “os dois poderiam ficar boiando na porta”, tentando desvalorizar o final triste que, justamente, era uma das causas do carinho das pessoas pela história – o povo gosta de chorar no cinema, no final das contas. A tal cena não é furo de roteiro nem desafio de lógica algum, mas para os críticos é como se fosse isso! Vimos claramente que a porta não aguenta os dois (eles sobem e ela vira, ora bolas!), mas alguns gostam de procurar algo para racionalizar uma cena meramente emocional. E é a partir desse tremendo recalque que eu vejo a verdadeira força da história do filme. É como se os tais críticos falhassem em entender que “Titanic” não é um produto de uma era cheia de cinismo. Ele se passa em 1912 e se os personagens são simples, os diálogos bobos e a história sem grandes divagações, isso reflete um período onde de fato as coisas eram assim!

Estamos tão acostumados com nosso atual momento (seja o final do século XX ou início do XXI) que parece que esquecemos que não, não foi assim sempre. Quanto o RMS Titanic foi lançado ao mar, a humanidade vivia o auge da sua arrogância como raça suprema pela racionalidade. Essa arrogância toda era apenas uma máscara para a ingenuidade, por que de fato as pessoas da época acreditavam que existia um navio que era inafundável. “Nem Deus pode afundar o Titanic”, era um clichê da época. O Titanic era feito de ferro, produzido por homens normais e tinha inúmeros defeitos, portanto é lógico que ele poderia afundar! Mas as pessoas não acreditam que um, err, “titânico” trabalho da tecnologia humana poderia ser desafiado por elementos naturais – ou simplesmente por Deus mesmo. Foi o que houve: não só o Titanic afundou como foi logo em sua primeira viagem e matando quase um terço das pessoas abordo.

Entrou para a história como um dos maiores desastres e nunca mais saiu do nosso inconsciente. E foi um naufrágio indescritível, como o próprio filme mostra muito bem. Não bastava o Titanic não ter aparecido no horizonte de Nova York como prometido, ainda trouxe para os Estados Unidos mais de 700 pessoas completamente traumatizadas com uma experiência, sem dúvida, horrorosa.  A manchete do New York Times do dia 16 de Abril com certeza deve ter sido recebida com enorme espanto: “Titanic afunda quatro horas após colidir com iceberg”.  A partir daí, foi ladeira abaixo: a Grande Guerra, crise econômica de 1929, a 2ª Guerra Mundial, a bomba atômica de Hiroshima-Nagasaki, a ameaça nuclear, a Guerra Fria, assassinato e suicídio de presidentes, golpes de estado em inúmeros países, a epidemia da AIDS, acidente em Chernobyl, guerras no Oriente Médio… Pois é, apesar de todos os avanços que tivemos (científicos e sociais, principalmente), é inegável que o século XX foi marcado por muitas notícias ruins. E o naufrágio do Titanic foi o primeiro deles, o primeiro grande susto. Não é de surpreender que tenhamos envelhecido nesses 100 anos em seres bastante cínicos e pessimistas.

Primeira página do "The New York Times" relatando a tragédia.

O filme “Titanic”, portanto, reflete muito bem esse clima que somos jovens demais para lembrar (não custa dizer, todos os sobreviventes do RMS Titanic já estão mortos). A humanidade era outra, o espírito era outro e aquele terrível desastre foi o primeiro passo rumo a décadas de muitas outras tragédias e conflitos. Mas quem sabe o ciclo venha a terminar, neste centenário do naufrágio. Como o filme mostra em sua bela cena final – seria sonho ou morte, o que importa? – chega um momento em que a absolvição aparece e podemos nos reunir, sem dor. Mais de 1.500 pessoas morreram um século atrás e suas histórias jamais foram esquecidas. Acontece que, muito tempo depois, um filme bastante ingênuo nos lembrou que o mundo mudou e devemos deixar essa tragédia ficar de fato no passado (a simbologia da Rose jogando o diamante no mar).

“E Deus limpou as lágrimas de seus olhos; a não haveria mais morte; e não haveria mais dor; o mundo antigo havia deixado de existir”, são palavras que um padre diz em cena do filme. O mundo realmente mudou. Quando o RMS Titanic chegou ao fundo do mar, nascia o século XX.

A última foto tirada do RMS Titanic, rumo ao seu destino metafórico.

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