A Link to the Past: “Homem-Aranha” completa uma década

Lançado em 03 de Maio de 2002 nos Estados Unidos, o primeiro filme “Homem-Aranha” foi um importante marco para esse gênero, as adaptações de quadrinhos, que hoje em dia dominam Hollywood com a mesma força dos westerns ou musicais do passado. Agora, dez anos depois, com um vindouro reboot pronto para recomeçar as aventuras do mais popular herói da Marvel nos cinemas, será que é tempo de considerarmos este “Homem-Aranha” um clássico? Ou apenas uma vinho que virou vinagre?

Verdade seja dita, se fosse para dividir o gênero de adaptações de quadrinhos, certo seria um antes ou depois de “X-Men – O Filme”, a muito bem sucedida versão de Bryan Singer para os mutantes da Marvel nos cinemas. Entre Superman nos anos 70 ou filmes do Batman nos anos 90, o gênero nunca vingou como, bem, gênero. Eram apenas adaptações, tão mal vistas pelo público e crítica durante esse tempo quanto as famigeradas adaptações de videogames hoje em dia. Mas em 2000 tudo mudou, quando o primeiro filme X-Men mostrou que dos quadrinhos existia espaço para obras bem feitas, séria, com história e apelo visual. Entretanto, foi com “Homem-Aranha” que isso deixou de ser um “é possível” para um plano de negócios por toda de Hollywood. O Batman começou, o Superman retornou, e Homem de Ferro, Demolidor e Thor tiveram suas chances. Sem “Homem-Aranha” quebrando recordes inesperados (114 milhões de dólares em um final de semana nos Estados Unidos, o primeiro filme a alcançar a marca da centena de milhão em três dias de exibição) e alcançando fenomenais 820 milhões de dólares nas bilheterias mundias, será que a Paramount teria tido tanta vontade assim de bancar uma tal reunião de “Os Vingadores”?

Mas o filme não fez tanto sucesso na base do puro hype, como acontece com muita frequência hoje em dia. À época, a regra era esperar o pior de uma adaptação dessas. Mesmo tendo “X-Men” como antecessor, o grande público ainda não estava lá (o primeiro X-Men fez pouco mais de 300 milhões de dólares mundialmente, um valor respeitável, mas nenhuma unanimidade). “Homem-Aranha” nadou contra a maré e conquistou a grande massa, que sempre gosta de curtir um bom cinema pipoca, divertido e com humor. Características indiscutíveis nessa obra. Se há algo que o filme sabe muito bem que tem é um senso de ridículo, que caiu como uma luva em uma adaptação de uma história absurda que só poderia surgir mesmo de mídia conhecida originalmente por comic books.

“Eu não sei por que sou duende nem verde, fiquei malvado e resolvi me fantasiar!”

Não há muito que se falar da história, que segue o padrão básico de filmes de super-heróis estabelecido por “Batman” de Tim Burton em 1989: surge o herói, introduz-se o vilão da vez, os dois duelam por motivo algum e no clímax ambos lutam simplesmente por que se odeiam. As coisas começaram a mudar com “Batman Begins” de Christopher Nolan, que em 2005 colocou a fórmula James Bond no gênero (o vilão precisa ter um plano para a ameaça ter sentido e o herói tem que fazer parte desse plano para a narrativa ficar mais atraente). Mas, até então, a versão bê-á-bá dava conta do recado. Peter Park é mordido por uma aranha, adquire poderes aracnídeos, surge o Duende Verde, os dois lutam, vem o clímax na ponte, fim de papo. Mais previsível impossível! Só que dava certo, por que a óbvia jornada era marcada por boas cenas.

Não dá para discutir com ao menos uma delas: o já icônico quadro do Homem-Aranha beijando sua amada Mary Jane de cabeça para baixo, no meio da chuva. A cena já recebeu paródias o suficiente para se infiltrar de vez no subconsciente popular. E me lembro da recepção nos boca-a-boca ter sido bem positiva. As pessoas comentavam e sabem-se lá quantos casais não tentaram emulá-la, nem que fosse deitados na cama mesmo? De resto, nenhuma cena de ação marca. O duelo climático, na ponte, é muito bom, e eu gosto da introdução do Duende Verde durante um ataque na Times Square, por ser bem montada. Ainda assim, nenhuma cena que tenha recebido constante menção desde então, como a luta contra o Dr. Octopus em cima de um trem na sequência de 2004. Talvez a ação de “Homem-Aranha” não seja lá tão marcante mesmo (e, vale dizer, os efeitos especiais envelheceram mal), mas o filme de uma forma geral mantêm sua atenção.

Referência pop garantida por, pelo menos, uns dez anos.

Ajuda também o trio criativo principal por trás disso tudo: os atores Tobey Maguire, Kirsten Dunst e o diretor Sam Raimi. Maguire e Dunst dão vida aos personagens com facilidade e tem ótima química, fundamental em qualquer história onde um casal romântico seja o centro da narrativa. Maguire com certeza não é um bom Peter Parker, por que seu personagem é menos nerd do que o dos quadrinhos e acaba sendo apenas um antissocial com sérios problemas de timidez. Mas como um antissocial com sérios problemas de timidez, ele está fenomenal! Ou seja, seu Parker não é tão fiel ao original, mas funciona. Idem para a Mary Jane de Kirsten Dunst, que sem dúvida não tem o charme ou sex appeal da personagem boazuda dos quadrinhos. Agora, que ela dá vida a uma personagem apaixonante, isso é fato! Sim, esta Mary Jane é mais “garota fofa” do que “mulherão” como concebida originalmente, mas cai no mesmo argumento para o Peter de Maguire: funciona na história muito bem.

Interessante ver onde foi a carreira desses dois atores após o sucesso alcançado com uma trilogia blockbuster: basicamente, lugar nenhum. Maguire estrelou um ou outro filme de destaque, mas acho que sumiu tem uns bons anos já. E Kirsten Dunst atuou em uma penca de filmes de destaque (“Maria Antonieta” foi bastante hypeado, por exemplo) e ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes de 2011 por “Melancolia”, mas sua carreira não decolou a ponta dela mostrar ao que veio de fato. Ah, e tem também James Franco, o Harry Osborn do filme, que parece ter feito mais filmes recentemente, mas depois daquela apresentação do Oscar 2011, sei não… Alguém ainda aposta nele?

Sim, a Mary Jane dos quadrinhos tem um apelo um pouco mais machista. Mas só “um pouco”!

Por último, importante falar de Sam Raimi. Com um background de cineasta de terror de baixo orçamento, quem diria que ele tinha algo para mostrar em uma adaptação dos quadrinhos? Pois teve! Seu “Homem-Aranha” não tem de fato a inventividade autoral que ele só conseguiu mostrar em “Homem-Aranha 2”, mas ainda tem sua assinatura. Certas colagens visuais (como Peter Parker desenhando a roupa do herói) ou fusões criativas já mostram uma edição levemente alternativa para o padrão comercial. Certos filmes de super-heróis recentes não arriscam tanto, talvez por que não tinha um Sam Raimi por trás para tentar isso.

Depois do fiasco colossal de “Homem-Aranha 3” (não comercialmente, mas convenhamos que o filme é patético sobre qualquer outro ponto de vista), Raimi voltou às origens com o divertidíssimo “Arraste-me para o Inferno” em 2009. Depois de desistir de “Homem-Aranha 4” – que virou “O Espetacular Homem-Aranha” e deixou de ser sequência – o diretor está trabalhando em “Oz: The Great and Powerful” para o ano que vem. Sabe-se lá o que pode sair de um prelúdio de “O Mágico de Oz” (!!), mas quem sabe seja uma bela oportunidade de Raimi mostrar outros talentos.

Dez anos se passaram e de lá para cá terminamos a trilogia, tivemos mais quatro filmes estrelados por X-Men, o Superman voltou e já sumiu, a Marvel foi do Homem de Ferro aos Vingadores e passando por tudo no meio e, claro, o Batman de Christopher Nolan mostrando que é possível fazer uma arte diferente adaptando outra arte. Foram muitas adaptações de quadrinhos em apenas dez anos que acabam tornando “Homem-Aranha” mais velho do que parece… Somado ao fato unânime de “Homem-Aranha 2” ser um filme melhor, parece que o original tinha tudo para entrar no esquecimento. Creio que isso não acontecerá. O filme tem defeitos, como o visual do Duende Verde à lá Power Rangers – apesar do Willem Dafoe se esforçar muito para caracterizar o personagem. E talvez o resultado final não seja digno de virar um clássico. Acontece que “Homem-Aranha” marcou em seu ano e abriu as portas para um incrivelmente popular gênero que ainda tem muita lenha para gastar. E se conquistou isso, foi por méritos. Não é o melhor exemplo da criatividade da arte cinematográfica, mas ainda permanece um divertido blockbuster para qualquer público.

Ah, vai? Isso era o máximo em 2002!

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