Late to the Party: “Adeus, Amor”

Uma paródia da febre adolescente que Elvis Presley causou no final dos anos 1950, “Bye Bye Birdie” foi um musical muito popular vencedor do prêmio Tony. Quando chegou a Hollywood, em 1963, talvez já estivesse atrasado demais? “Adeus, Amor” brinca que a época em que Elvis foi para o exército, mas quando o filme chegou aos cinemas ele já tinha voltado e sua história havia passado do auge (as novas adolescentes iriam preferir os Beatles). Portanto não estranhe se nunca tiver ouvido falar desse antigo musical, um caso raro de produto antiquado à própria época…

O filme não é um festival de problemas, mas mostra-se incrivelmente preso à premissa de comédia de situação. Conrad Birdie é a exageradíssima versão de Elvis, que usa collants dourados sem ter nem um pingo do charme do original, e ele foi mandado para o exército americano. Antes disso, uma produtora consegue colocá-lo no “Ed Sullivan Show“ para se “despedir das adolescentes” dando o beijo em uma delas, ao vivo. A sortuda pseudo-sorteada é Kim McPhee, interpretada pelo vindouro furacão Ann-Margret. E essa é toda a história do filme, que se introduz em dez minutos, enrola por uma hora e meia com musicais que não tem nada a ver com a sinopse, e encerra no tal programa de televisão.

“Adeus, Amor” evidentemente é famoso por ter lançado Ann-Margret ao estrelato e aqui ela recebe todas as atenções! Os créditos sequer começam e, em uma raridade à época, já aparece nossa nova estrela, cantando a música título, apenas na frente de um fundo azul, sem sequer a necessidade de transformar em chroma key. Ann-Margret talvez seja a primeira estrela de Hollywood a ter se tornado estrela em 30 segundos. Não demora nada para lhe convencer. Seu carinha de menina, trejeitos de adulta, charme para cantar e seduzir segurando as saias, ao som de um infernal “byeeeeee byeeeeeee birrrrdieeeeeee” é algo digno de estudo. Se nos anos 60 pensaram que ela era a nova Marilyn Monroe, não é de se estranhar!

No ano seguinte Ann-Margret explodiu de vez sua carreira em “Viva Las Vegas”, ao lado do Elvis de verdade.

Os protagonistas da história, mesmo, são Dick Van Dyke (em sua estreia no cinema e antes do “The Dick Van Dyke Show”) e Janet Leigh, no auge do seu sucesso entre “Psicose” e “Sob o Domínio do Mal”. Os dois fazem bem seu papel, mas suas sequências musicais são incrivelmente pouco interessantes, então você talvez não vai ouvir falar muito do impacto desse filme na carreira dos dois. Nem do cara que interpretou o tal Conrad Birdie, tão ruim que nem me dei ao trabalho de ver seu nome no IMDb. Verdade é que “Adeus, Amor” é um filme da Ann-Margret e todo o filme está resumido naqueles trinta segundos que ela canta na frente de um fundo azul.

Mas é fácil entender a fama deste que não é, nem de longe, um clássico do cinema. Além de ter criado uma estrela e uma memorável introdução musical (que é mais marcante que todo o resto da obra), lembra por que musicais começaram a dar errado, a meu ver. O gênero de maior sucesso após a popularização do cinema falado durante os anos 1930 e 1940, quando os anos 60 chegaram o nicho hollywoodiano musical consagrou-se artisticamente com obras-primas como “Amor, Sublime Amor”, “My Fair Lady” e “A Noviça Rebelde”. Mas quando saiu o último vencedor do Oscar no gênero (o charmoso “Oliver!”, de 1969) houve um verdadeiro hiato até o seguinte, “Chicago” de 2002. Não que durante esse tempo todo não tenham sido lançados musicais de sucesso (“Grease – Nos Tempos da Brilhantina” é um dos mais cultuados de todos os tempos), mas isso demonstra uma queda ao menos na idealização e repercussão de um musical hollywoodiano. E isso aconteceu por que filmes como “Adeus, Amor” começaram a se tornar comuns demais.

“Adeus, Amor” é um musical da Broadway, mas como musical de Hollywood ele é apenas por que quer ser. Sua história não carrega um filme inteiro (no máximo cenas divertidas envolvendo adolescentes histéricas com seu ídolo Birdie) e todo o miolo da narrativa envolve números forçados, que acontecem por acontecer, afinal este é um musical é os personagens tem que cantar e dançar! Claro que é um clichê do gênero como as pessoas começam a cantarolar do nada, mas quando o número é interessante e carrega a trama em frente, funciona. Quando Eliza Doolittle começa a cantar “the rain in Spain stays mainly in the plains” repetidamente, dançando feliz da vida no escritório do Professor Higgins, ninguém estranha o momento. Faz sentido, mesmo que “na vida real” ninguém ficaria cantando em prosa daquela forma! Já em um musical mal feito, repare com as sequências musicais tem um ar de artificialidade. Elas não carregam a história, elas simplesmente acontecem. “Adeus, Amor”, como blockbuster musical, é um sintoma de uma doença que se alastrava por Hollywood.

Ir atrás de musicais medíocres nos anos 1960 não é difícil, ainda mais em uma época onde ídolos da música estavam brincando de atuar de vez em quando. O próprio Elvis Presley fez inúmeros e nenhum deles é realmente bom. Ou até os Beatles, que protagonizaram os inovadores “Os Reis do Iê Iê Iê” e “Help!”. De qualquer forma, produzindo bons filmes ou não, Hollywood já estava exagerando e talvez isso explique o fato das pessoas terem enjoado de musicais nos anos 1970. Nas décadas seguintes, os exemplares se tornaram cada vez mais raros.

Já havia acontecido o mesmo com faroetes e acabaram desandando com musicais. Mais tarde, Hollywood conseguiu nos enjoar de filmes de terror ou seus inúmeros remakes orientais. Hoje, a vítima da vez parece ser as adaptações dos quadrinhos. É parte do ciclo industrial e não deve causar estranheza para ninguém. Mas é bom voltar no tempo e entender o que aconteceu. “Adeus, Amor” não é o filme que estragou os musicais. Apenas não fez nada para ajudar também.

(Ann-Margret discorda, evidentemente)

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