Review: “Na Estrada” de Walter Salles

Começo logo dizendo que nunca li “On the Road”, clássico da literatura norte-americana de Jack Kerouac que até hoje é considerado a obra-prima da geração beat. Fui assistir ao filme completamente ignorante de suas referências tão fortes (não deve ser fácil adaptar uma obra considerada o marco central de todo um movimento artístico) e fui atraído para “Na Estrada” por talvez mostrar um pouco do surgimento do primeiro grupo de contracultura da história.

Sal Paradise (na verdade, o próprio Jack Kerouac) é um jovem artista atrás de qualquer coisa para fazer na metade final dos anos 1940. O pós-guerra não deve ter sido fácil para os jovens que não lutaram na Europa e provavelmente eram subjulgados pela geração anterior de sobreviventes. Seu amigo Carlo Marx (Allen Ginsberg) lhe apresenta para o excêntrico Dean Moriarty (Neal Cassady), um exagerado bon vivant sem laços, família ou raiz, atrás de qualquer experiência pela gratuidade de viver (convenhamos, viver meio que é gratuito mesmo). Junto com Marylou (Luanne Henderson), uma hippie adiantada, os amigos viajam pelo largo território norte-americano, de Nova York à Califórnia, passando por Denver e voltando para Louisiana. Sem rumo, apenas conhecendo novas pessoas estranhas.

Há algo de interessante nessa cultura de “ir até o oeste” no povo americano, sem dúvida incentivada pelo próprio percurso de colonização do continente lá para o século XVI. Existem outros países territorialmente enormes como os EUA (o Brasil, oras!), mas há algo na cultura deles de idealizar o “desbravar do oeste” como uma grandiosa aventura. Uma jornada simbólica, tão exemplificado nos inúmeros exemplos de road movies que eles volta e meio produzem. “Na Estrada” se encaixa nesse perfil, apesar de sua narrativa ser um pouco mais perdida. Road movies geralmente envolvem um destino, como clímax da jornada cheia de encontros. Paradise e Moriarty tem uma interessante jornada, mas anticlimática. Não chegam a lugar algum, de uma certa forma bem simplista.

Claro, Kerouac veio a escrever um dos livros norte-americanos mais importantes do século XX, mas aí estamos tratando de eventos históricos, de impacto cultural. E o filme? Como roteiro, “Na Estrada” é um vai e vem tedioso e longo, com personagens interessantes pouco explorados, carregado na força de mostrar o primeiro grande movimento juvenil que veio a inspirar inúmeros outros. Os hippies, os punks, os grunges, toda juventude que se rebelou contra a “cultura estabelecida”, só o fez por que antes os beats navegaram nessas águas nunca antes navegadas; impulsionados por uma primeira metade de século incrivelmente insegura, na beira do abismo ao alvorecer da outra metade. Curiosidade por natureza, movimentos de contracultura são sempre produtos de uma época. Hippie fora dos anos 60? Grunge pós-anos 90? Sério? O mundo vai em frente por que eles tentaram algo novo, mas passada a onda, vira momento passado. “Na Estrada” retrata com fidelidade um período que nunca vai voltar, e nem deveria.

O filme é dirigido por Walter Salles, que de road movie tem expertise após “Central do Brasil” e “Diários da Motocicleta”. A boa direção é evidente, mas Salles sozinho não consegue carregar um roteiro tão vazio de sentimentos. Eu não duvido que o livro “On the Road” seja um maremoto de sensações, mas o filme não sente nada. Apenas mostra. É praticamente documental.

No elenco principal temos Sam Riley como Sal Paradise, basicamente reproduzindo o Jack Dawson de Leonardo DiCaprio em “Titanic”. Garrett Hedlund (de “Tron: O Legado”) é o vivaz Moriarty, a atuação mais interessante do filme. Kristen Stewart foge do seu irritante ar blasée de “Crepúsculo” para interpretar uma adolescente para lá de tarada, algo bem longe da sua imagem habitual. Bom vê-la tentando algo! O resto do elenco estrelado de coadjuvantes – a maioria com não mais do que duas cenas – inclui Viggo Mortensen (Aragorn ou Freud), Kirsten Dunst (Mary Jane), Amy Adams (a nova Lois Lane), Terrence Howard, Steve Buscemi, Tom Sturridge, Alice Braga e Elisabeth Moss. Ufa!

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