A Link to the Past: “O Vingador do Futuro”

Lançado em 1990 no auge da carreira do ícone do cinema de ação Arnold Schwarzenegger, “O Vingador do Futuro” vai receber em breve um remake estrelado pelo não-ícone do cinema de ação fora do auge de sua carreira Colin Farrell. Aproveito o momento para revisitar o cultuado filme de ficção e perceber uma máxima que é sempre válida para classificar uma obra como clássica: quando seus elementos marcantes simplesmente não envelhecem. E para um produto da era dos efeitos especiais, é um milagre o quão forte “O Vingador do Futuro” consegue se manter.

Aaaaaaaaahhhhhhhh-nold!

O roteiro original é inspirado no conto “We Can Remember It For You Wholesale”, do mestre da ficção científica Philip K. Dick. A história pega apenas o elemento dos implantes de memória e cria uma história completamente diferente, onde o protagonista Douglas Quaid descobre ser um agente com missão em Marte envolvendo um grande segredo e que teve sua memória substituída por uma vida onde ele é um trabalhador na Terra casado com uma linda mulher. Quando a memória reprimida de Quaid o leva à empresa de implante de sonhos Rekall, o que é realidade e sonho começa a ficar bagunçado na cabeça do herói.

O roteiro tem reviravoltas o suficiente para as coisas começarem a perder o sentido depois um tempo. Mas a bagunça é praticamente proposital, em uma história sobre implante de sonhos e a confusão entre o real e o imaginário. O final do filme (um fade to white) por muitos é interpretado como prova de que tudo foi um sonho. Estaria Quaid acordando? Ou sofrendo a lobotomia que um personagem avisa em determinado momento? O filme nunca dá margem para certezas, mas a opção do sonho é, francamente, a mais aceitável. Quando o herói vai para a Rekall, descobre-se que seu desejo é a idealização do herói que conquista a garota, mata o vilão e salva o planeta. Exatamente o que acontece! Acho muito interessante o fato da esposa de Quaid se revelar uma ameaça e tentar matá-lo. É típico da psique masculina tratar o casamento como algo que impossibilita o homem de tornar uma versão idealizada (heroica) dele mesmo. Logo, o inconsciente de Quaid transforma sua bela esposa numa agente cruel e traiçoeira.

Hoje em dia as pessoas podem fazer referências ao filme “A Origem” de Christopher Nolan (outro roteiro envolvendo sonhos com final em aberto), mas “O Vingador do Futuro” tem méritos por simplesmente não precisar disso. Quem assistir ao filme e não perceber a dualidade, não está perdendo nada. A história de ação é interessante, com um ritmo muito bem marcado, com reviravoltas e situações que nunca dão espaço para lentidão. Não chega a ser um filme videoclíptico como acontece muito hoje em dia (se o roteiro dá margem para interpretação, é por que ele é bem amarrado), mas a condução de todas as situações é de uma agilidade impressionante. O filme é dirigido por Paul Verhoeven, recém-saído de “RoboCop” – outra produção sua que receberá um remake – e que mais tarde iria dirigir “Instinto Selvagem” e “Tropas Estrelares”. Infelizmente Verhoeven não conseguiu manter sua mão firme e tem estado apagado de produções interessantes, desde o fiasco de “Showgirls” e “O Homem Sem Sombra”. Mas seu incrível talento como diretor é evidente, tendo criado algumas das imagens cinematográficas mais marcantes do início dos anos 1990.

“O Vingador do Futuro” é, claro, um filme cheio de efeitos especiais. Foi lançado em uma época onde a chamada CGI (Computação Gráfica) ainda estava dando seus primeiros passos, portanto seu visual revolucionário é uma mistura de efeitos de computador com efeitos práticos. Uma de suas cenas mais marcantes é quando Quaid passa por um espelho de Raio-X e a plateia o vê em esqueleto, antes de pular em direção ao vidro. São apenas alguns segundos, mas muito bem feitos e que deixaram a plateia boquiaberta com as novas possibilidades que surgiam no ramo da computação gráfica. Mas o filme também tem muitos momentos impressionantes com maquetes, montagens e, principalmente, animatrônicos. A maquiagem dos mutantes é ótima (como esquecer a prostituta de três seios?) e alguns deles possuem detalhes (como Kuato) com robôs e fantoches super-realistas. Mas claro, não posso esquecer da mais marcante e famosa cena do filme, uma genial mistura de efeitos práticos e de computador: o momento em que Quaid, fantasiado de mulher, retira uma máscara que se abre em pedaços, surpreendendo a todos – principalmente a plateia! – com a impressionante revelação visual.

Outro ponto sempre lembrado no filme é a presença de Arnold Schwarzenegger. “Ah-nold” nunca vai ser lembrado pelo seu talento para atuar (ou sequer para falar inglês sem sotaque), mas sua presença nos filmes é sempre um destaque. Um carisma incrível que ajudou muitas produções de ação dos anos 80 e 90 a ganharem uns pontos a mais, simplesmente por ter Schwarzenegger como protagonista. “O Exterminador do Futuro”, “O Predador”, “Conan, o Bárbaro”, “Comando para Matar”, “True Lies” e, claro, “O Vingador do Futuro” formam uma excelente carreira em filmes. Nunca vai existir um herói de ação como Arnold Schwarzenegger. E vou até evitar ironizar com o louco que achou que dava para substituí-lo por Colin Farrell…

No elenco também temos uma Sharon Stone pré-fama, pré-cruzada de pernas histórica. Sua participação é curta (“Considere isto um divórcio”, clássico), mas dá para ver de onde o diretor Verhoeven viu sua Catherine Tramell para “Instinto Selvagem” dois anos mais tarde.

Afinal, são pernas bem famosas…

Aproveite a vindoura estreia do desnecessário remake para revisitar este clássico blockbuster de ação e ficção científica. Você irá se surpreender como ele ainda se mantêm atual em termos técnicos e narrativos – tornando evidente, portanto, a desnecessidade em refilmá-lo. Filme que não envelhece não precisa ficar novo.

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