A ditadura da ignorância cultural

Começo este artigo citando o humorista Marcelo Tas, que disse em seu twitter : “Delegado Protógenes quer proibir filme do ursinho. Entidade afro quer proibir Monteiro Lobato. E burrice, pode proibir?” A história toda começou quando o deputado federal pelo PC do B (e ex-delegado) Protógenes Queiroz explanou em seu twitter oficial sua indignação com o filme “Ted”, do diretor Seth McFarlane: “Assisti c/o pequeno Juan o filme ‘Ted’ uma cena de apologia as drogas: o ursinho Ted e seu dono consumindo drogas. MJ deve explicações!”. Começou daí uma tentativa do deputado em proibir a veiculação do filme.

Filme classificado como impróprio para menores de 16 anos e para o qual o deputado levou seu filho de 11 anos para assistir. Por que tinha um ursinho de pelúcia no cartaz. Ei, um ursinho mijando em um mictório, mas uma cena fofa dessas só pode vir de um filme infantil, né?

Essa história não envolve defender o filme “Ted”. Não o assisti e nem pretendo assistir. Achei o trailer e todas as propagandas veiculadas muito sem graça, me parece ser um filme previsível e de comédia escatológica que não faz meu tipo. E também não gosto do trabalho do autor Seth McFarlane, seu humor não me agrada. Entretanto, existe um abismo de diferença entre “eu não gosto de tal filme” e “vamos ressuscitar o AI-5” que parece que o tal de Protógenes é tão fã. Muitos artistas e jornalistas foram perseguidos, torturados e morreram nas décadas da ditadura militar para dar à nossa geração o direito à liberdade de expressão. E é isso que o deputado quer abolir. Em matéria ao Estadão, ele disse a respeito da classificação etária: “Não poderia ser liberado nem para 16 nem para 18 anos. Esse filme não pode ser liberado para idade nenhuma. Não deve ser veiculado em cinemas.”

De seu túmulo, Luís Antônio da Gama e Silva soltou gargalhadas de orgulho.

Será?

Eu não quero ver “Ted”. Sozinho ou acompanhado de um menor de idade. Sabe o que eu faço com isso? Não vou assistir ao filme! Simples, né? Pois é. É contra isso que o deputado quer institucionalizar: o direito ao humano de escolher o que fazer da sua vida, o livre arbítrio dado por ninguém menos do que Deus. Protógenes, aparentemente, acha que sua opinião é superior a Dele.  Em matéria do jornal O Globo, ele diz: “Sou a favor da liberdade de expressão, mas desde que sejam obedecidos determinados critérios da capacidade de entendimento do indivíduo. Como um pré-adolescente consegue entender que aquilo vai ser um risco?” Como um pré-adolescente consegue entender aquilo? Oras, sendo bem educado – pelos pais, inclusive! Eu não sei quanto ao jovem Juan, mas com meus 11 anos eu já sabia muito bem que drogas não eram coisas boas, independente de um ursinho de pelúcia utilizá-las em um filme que, a priori, eu sequer deveria estar assistindo!

Um filme que eu gostava muito na minha infância era “O Predador”. Ainda assim, nunca saí por aí esquartejando pessoas com lâminas acopladas ao meu pulso. Sabe por quê? Por que papai e mamãe me ensinaram que sair matando não é legal, independente de um alienígena high-tech super maneiro “me ensinar” o contrário. Pois é, eu preferi ouvir meus pais ao invés de um personagem evidentemente da ficção. Então, a não ser que o jovem Juan adore conversar com ursinhos feitos de espuma, eu diria que ele tem poucas chances de levar a opinião de Ted a sério.

O deputado Protógenes Queiroz está tão preocupado em impedir seu filho de ser destorcido pelo que ele considera uma cultura inferior (a “sociedade americana está acostumada com aquilo, mas a nossa sociedade não”, disse ao Globo, “nós ainda somos uma população um pouco superior a esses princípios”) que está atacando não só a democracia brasileira, como também a cultura de estrangeiros! Em tempos de polêmicas envolvendo filme anti-islã, isso me parece inapropriado. Aparentemente, Protégenes é tão contra a cultura estadunidense (“não aceitamos mais esses enlatados culturais americanos no Brasil”) que é a favor da proibição da veiculação de qualquer coisa que venha de lá! Você gosta do filme “Ted”? Pois não tem direito a isso! Quer ligar sua televisão para assistir “Mad Men”? Pois de jeito algum! Que tal ler um pouco de Ernest Hemingway durante o final de semana? Só se quiser ir para a cadeia! É de um absolutismo de fazer inveja ao presidente Costa e Silva.

Nada de Frank Sinatra ou Nina Simone, tirem a coleção “Grandes Vozes” da Folha de todas as bancas! Madonna e Michael Jackson? Que as lojas queimem seus discos! A vil e malévola cultura norte-americana, supostamente representada pelo filme “Ted”, não pode de jeito algum se aproximar da cultura brasileira. Um país puro e frágil como o nosso, que não tem problemas (principalmente políticos), não pode ser influenciada por algo originário do território dos Estados Unidos, seja um ursinho viciado em drogas ou um porquinho falante e suas aventuras com seus amigos da fazenda.

Sim, pois que ninguém recomende “Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade” para o Protógenes antes que o senhor deputado resolva proibir o filme por apologia ao socialismo…

Crianças, cuidado! Panfletagem Castrista!

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