Late to the Party: “Psicose – 2ª Parte”

Eu não sei quem assistiu “Psicose”, o mais famoso clássico de Alfred Hitchcock, de 1960, e viu necessidade em uma sequência. Mas acontece que ela existiu e muita gente não sabe disso, até por que, eu insisto, ninguém deve ter imaginado a necessidade e possibilidade de uma. Lançada em 1983 (vinte e três anos depois do original!) e estrelada por Anthony Perkins, voltando ao seu lendário papel de Norman Bates, “Psicose – 2ª Parte” é surpreendentemente… Bom! Eu, sinceramente, sequer imaginei essa possibilidade também.

Mamãe Bates voltou!

Já digo logo: o filme dá certo por que pega um conceito interessante para explorar após os eventos de “Psicose” (esse artigo tem spoilers!). Todo mundo lembra que Norman Bates, doidinho da vida, se vestia como sua falecida mãe e matava pessoas no hotel da família. Ao final do primeiro filme ele é preso e, claro, vai para um manicômio. Vinte e dois anos depois, Norman é declarado legalmente são e volta para casa, com acompanhamento de um psiquiatra. Eu não sei por que esse doutor achou seguro colocá-lo de volta aos lugares onde aconteceram todos os traumas e assassinatos na vida de Bates, vai ver ele achou que seria importante para o tratamento que ele enfrentasse seu passado… De qualquer forma, está aí constituída uma possibilidade interessante para ser tratada em um filme: a reabilitação de um serial killer declarado insano.

Mas “Psicose 2” – vou me poupar do “2ª Parte” de agora em diante – vai além. Afinal, se fosse apenas um filme sobre o tratamento de um ex-maluco, não precisávamos de Norman Bates na história, né? Pois a graça toda está nas reviravoltas que se seguem: Bates vai trabalhar em uma lanchonete através da ajuda de uma bondosa senhora e lá conhece Mary, uma garçonete passando por dificuldades, que aceita ir morar com ele. Ora bolas, que bela ideia, hein? Dividir a casa com um assassino no lugar onde ele guardava o esqueleto de sua mãe?! Pois Mary, na verdade, é filha de Lila Crane – vivida pela mesma Vera Miles do primeiro “Psicose” que foi ao Hotel Bates investigar a morte de sua irmã Marion Crane (Janet Leigh, a assassinada mais famosa da história do cinema) e descobriu a sórdida história de Norman e sua mãe. As duas estão armando um plano para enlouquecer Bates novamente a ponto de ele assassinar alguém e voltar para a cadeia. Sim, tudo um plano de vingança!

Mas não para por aí! A ideia das duas é de se vestirem de Norma Bates e deixarem o psicótico mais psicótico ainda, só que Mary percebe que Norman está se esforçando para vencer o passado e começa a querer ajudá-lo, indo contra sua mãe. Lila insiste no plano, mas logo Mary percebe que existe alguém de fato matando pessoas no hotel, enquanto que Lila continua se vestindo de Norma, e tudo fica mais complicado. Mary quer ajudar Norman, que acha que sua mãe ressuscitou, e Lila continua com seus planos de levá-lo a cometer crimes, sem saber da existência de outro assassino. Aos espectadores (quando o filme dá a sua importante reviravolta, revelando os planos de Mary e Lila), fica a dúvida: existe outro alguém na casa ou Norman Bates voltou a matar?

Quem é o quê que fez como por onde e pra quê?

Nesse clima de suspense o filme segura sua atenção com força durante a segunda metade. O clímax tem ainda mais reviravoltas e no final nos é revelado que a tal bondosa senhora da lanchonete é a  assassina que se diz ser a verdadeira mãe de Bates (seria irmã de Norma, mas eu acho que ela é apenas uma louca inventando essa história) e eis que, claro, ele a mata – em uma bem feita cena onde ela leva uma pá na cabeça – e Norman coloca seu cadáver no mesmo lugar onde antes ele deixava o esqueleto de sua mãe. É possível ver o final como um truque bobo para deixar um gancho para uma nova continuação (vieram a existir “Psicose III” e “Psicose IV”, que coisa!), mas não deixa de ser eficaz. Eu preferiria pensar que Norman era o verdadeiro assassino, e não sua nova mãe fantasiada de antiga mãe. Ainda assim, funciona, pois ela é assassinada e Bates volta a ser o louco que ele começou no primeiro Psicose, como mostrada da icônica cena final.

O filme tem defeitos. Aquele começo re-exibindo a famosa cena do chuveiro de Hitchcock me parece aproveitador, mas se você pensar foi uma boa forma de resumir a história do primeiro filme de forma simples para quem nunca viu o original (lembrando que a sequência foi lançada duas décadas depois). O filme também faz muitas homenagens ao original, com referências espertas. Até a sombra de Alfred Hitchcock aparece em uma cena! Mas isso só serve para reforçar uma coisa: “Psicose 2” em nada chega aos pés do grande clássico antecessor, portanto a sombra de Hitchcock acaba tendo uma presença ainda maior. Em termos de inovação, linguagem, ousadia, este filme não tem nada que o primeiro teve. É apenas um novo slasher, bem mais violento, que pega uma história que não precisava ser continuada, e a mostra para uma geração que pede mais cores e mais sangue em seus filmes de terror.

Ainda assim, ninguém esperava mesmo que “Psicose 2” fosse capaz de superar o clássico, mas méritos devem ser dados ao filme por contar uma história interessante, cheia de reviravoltas e surpresas. Era isso que tanto agradou no “Psicose” original e a sequência conseguiu trazer de volta. Mais do que um filme sobre Norman Bates matando pessoas, eis um interessante suspense se Norman Bates estaria matando pessoas. Funciona de forma imprevisível e agrada. Também é legal ver os cenários clássicos de volta a tela e Anthony Perkins tem uma ótima atuação como o simpático assassino. Vale uma investigada!

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