Post-Hype: Oscar 2012

Diferente do Oscar 2011, a edição 2012 do prêmio da Academia de Artes Cinematográficas foi bem previsível: “O Artista” chegou para ganhar e ganhou! Favorito desde que saíram os primeiros prêmios da crítica, passando pelo Globo de Ouro e inúmeras outras associações, o filme mudo francês que é uma homenagem ao cinema norte-americano caiu fácil no gosto da Academia e levou 6 prêmios. E cá estamos, às vésperas de uma nova estação do Oscar, e me coube revisitar o vencedor do passado. Quase um ano depois, “O Artista” ainda merece o status de Melhor Filme?

Pôster oficial do Oscar 2012.

A primeira coisa que me faz pensar é: existia filme que merecia mais essa alcunha no lugar de “O Artista” em 2011? Não foi um ano fácil. Em termos de blockbusters, nenhum de fato arrasou-quarteirão (o último Harry Potter só foi unanimidade mesmo entre os fãs da série) e o cinema independente foi calmo também. Fora “A Árvore da Vida” e “Meia-Noite em Paris”, todos os outros indicados a Melhor Filme são do tipo tradicional de produção que recebe atenção dos membros da Academia. “Tão Forte & Tão Perto” e “Cavalo de Guerra” são melodramas que só receberam votos por causa do calibre dos envolvidos, por exemplo, mas que em nenhum momento sequer chegaram perto de arriscar qualquer vitória significativa…

Nesse aspecto, “O Artista” realmente não teve concorrente. As únicas duas produções que chegaram perto foram “Os Descendentes” e “Histórias Cruzadas”, dois filmes bastante competentes e bem feitos, mas que fracamente poderiam se passar pelo tradicional clássico da Sessão da Tarde sem problemas (sabe-se lá se não é isso que eles vão se tornar!). “Os Descendentes” era para ser a grande vitória de George Clooney, que viu o Oscar de Melhor Ator ir para o charmoso francês Jean Dujardin. E “Histórias Cruzadas” também viu seu favorito prêmio de Melhor Atriz da Viola Davis escorregar para a insuperável Meryl Streep, que não fez nem de longe a sua melhor (ou terceira melhor) atuação na carreira em “A Dama de Ferro”, mas… Streep estava encalhada desde os anos 80 e parece que a Academia enjoou de dar o fora nela até em filme bibliográfico.

Para as duas possíveis zebras, sobrou apenas um prêmio para cada: Melhor Roteiro Adaptado para “Os Descendentes” e Melhor Atriz Coadjuvante para “Histórias Cruzadas” pela atuação de Octavia Spencer. A gente já esqueceu quem é ela, mas a torta especial que ela serve no filme ninguém nunca vai esquecer mesmo!

Sob esse prisma, fica difícil mesmo pensar quem poderia ter ganho o Oscar senão “O Artista”. Não é um filme inventivo ou original (até por que é saudosista propositalmente!), mas raramente os vencedores do Oscar o são. E pode parecer estranho colocar essa humilde produção francesa ao lado de “Casablanca” ou “O Poderoso Chefão”, mas perto de “Shakespeare Apaixonado” ele vira um clássico grandioso, não é mesmo?

“O Artista” é uma comédia boba, simples, feita para agradar o público como uma mensagem batida (de superação, blá blá blá). Ao mesmo tempo em que homenageia o estilo do cinema do passado de forma que já deu certo em “Cantando na Chuva”. Acontece que “O Artista” não é musical nem colorido, o contrário disso, portanto ninguém viu! Foi aquele típico vencedor do Oscar que as pessoas só assistiram por que era vencedor do Oscar. Parece paradoxal, mas a “O Artista” cabe a fama de comédia popular que só convenceu mesmo à crítica. Mas como homenagem ao passado de Hollywood, caiu como uma luva para a Academia exacerbar-se a si mesma. Ainda que fosse à custa de um filme francês, no final das contas…

Só não sei por que, homenagem por homenagem, a Academia não quis consagrar Martin Scorcese e o seu louvável “A Invenção de Hugo Cabret”. É uma homenagem ao cinema antigo, tem calibre, foi o maior indicado da noite e acabou levando quase tantos prêmios quanto “O Artista” (cinco, mas eram todos técnicos). No embate do cinema 3D contra o cinema mudo, Hollywood demonstrou estar um tanto quanto saudosista demais.

Pessoalmente não vejo problemas com “O Artista” ter ganhado o Oscar, nem que tenha sido por default no final das contas. Mas ainda deixa aquela pergunta no ar: as pessoas lembram que “O Artista” venceu o Oscar? Pois de “E o Vento Levou…” a “Titanic”, certos grandes vencedores entram no nosso inconsciente como obras universalmente consagradas, inclusive pela Academia. Um rótulo que este adorável filminho mudo não deve conseguir conquistar. Talvez “O Artista” seja tão apenas agradável que não consiga ser inesquecível. E esse é um tipo de valor que nenhuma estatueta de Melhor Filme consegue sobrepor.

Mas convenhamos que…

Ao menos uma cena do filme acaba sendo inesquecível!

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