Late to the Party: “L.A. Noire”

“L.A. Noire” é um dos jogos mais ambiciosos desta geração de videogames! Desenvolvido pelo Team Bondi em seu único projeto (o estúdio faliu após o lançamento) e distribuído pela Rockstar, aqui é uma tentativa de resgatar os antigos mistérios policiais do cinema noir que foram muito populares na Hollywood dos anos 1940. Se o nome Dália Negra não lhe diz nada, então nem adianta tentar… “L.A. Noire” não é para você. Assim como “Mafia II”, eis um jogo enterrado no hype de uma geração influenciada demais pelo sucesso de Grand Theft Auto no ciclo passado. Focado na narrativa, não na liberdade de ações, muitos não entenderam o propósito que Team Bondi estabeleceu.

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O cinema noir surgiu nos Estados Unidos, apesar do nome francês (noir = negro), durante a época da Grande Depressão. Eram filmes sombrios, policiais ou de mistério, envolvendo personagens dúbios e histórias trágicas. Hoje reverenciado como um estilo próprio, em seu tempo era apenas… Cinema. Os filmes já eram preto-e-branco por mero fato de tempo e ,convenhamos, é bastante compreensível que Hollywood tivesse pouca inspiração para produzir musicais alegres durante os anos 1930 e 1940. “L.A. Noire” se passa em 1947, conhecida como o ano mais violento da cidade de Los Angeles. Foi o ano da Dália Negra, da jovem garçonete Elizabeth Short que queria se atriz e acabou assassinada, mutilada e desfigurada. Seu mistério nunca foi revelado.

O jogador controla Cole Phelps, jovem policial e soldado que lutou na Segunda Guerra, que chama a atenção na delegacia e é promovido detetive de homicídios. Tudo o que Phelps quer é fazer seu trabalho, honestamente, e salvar pessoas. O jogador, portanto, fica encarregado disso também. Ou seja, “L.A. Noire” não é Grand Theft Auto. O universo do crime aqui é o oposto do que Phelps ambiciona. Mas, claro, quando a Team Bondi revelou um videogame que envolvia policiais, bandidos e dirigir carros em uma grande cidade, muitos pensaram em “GTA do bem”. Principalmente depois que a distribuidora Rockstar se envolveu no projeto. Nem de perto. “L.A. Noire” está para um jogo de ação tanto quanto “Punch-Out!!” está para o boxe; ou seja, é um puzzle disfarçado de outro gênero.

Após ser introduzido a um caso, o jogador deve levar Phelps a cena do crime e lentamente investigá-la. Cada objeto pode ser uma pista, portanto qualquer elemento suspeito o detetive irá anotar em seu caderninho. Testemunhas também podem ser entrevistadas para obter novas informações. Se você encontrar algo que leve Phelps a uma nova possibilidade, lá estará o lugar disponível no mapa, com uma nova cena para você investigar atrás de pistas. Ou mesmo possíveis suspeitos para você entrevistar. É um processo lento que com certeza irá afastar quem estiver atrás de um novo GTA. “L.A. Noire” tem suas cenas de perseguições e tiroteios (bem banais e repetitivas) para trazer certa movimentação entre um caso ou outro, mas não é esse o foco do jogo. Eis um jogo de detetive muito mais do que um jogo de policial.

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É como se fosse um livro interativo de Agatha Christie. Tem uma história com os óbvios suspeitos e cabe a você decifrá-la. As pistas em forma de objetos são fáceis de serem descobertas (fora uma ou outra um pouco mais escondida), mas a grande virada do jogo está nas entrevistas ou interrogatórios. É lá que você de fato poderá descobrir um criminoso e apontá-lo como mandante do crime. E é como o jogo utiliza o seu sistema de entrevistas bem engenhoso que lhe permite esta possibilidade, apesar de tal elemento pode ser acusado de simples demais. Sim, você faz uma pergunta (de acordo com as pistas coletadas previamente), a pessoa responde e você diz se é verdade, mentira ou força uma resposta mais sincera. Para cada resposta existem apenas três reações. Mas a investigação ainda é sua! É o jogador quem percebe nas expressões faciais alguma pista na fala e movimenta o diálogo à sua forma. Existem “respostas certas”, mas a sensação de interação ainda é bastante real.

O vídeo acima mostra como a tecnologia foi desenvolvida. Graficamente o resultado é bem impressionante, ajudando a colocar “L.A. Noire” como um dos poucos videogames onde os personagens digitais de fato agem como seres humanos. As expressões faciais são muito bem feitas (apesar de alguns personagens exagerarem um tanto) e garantem à apresentação do jogo uma estética realista muito legal. Mas o grande salto da produção é não depender exclusivamente do elemento estético. A tecnologia foi criada para atender a um elemento da jogabilidade do videogame, não apenas por que o resultado é belo ou “parece filme”.

“L.A. Noire” tem defeitos típicos de um jogo ambicioso demais. O mapa de Los Angeles, apesar de fielmente recriado, é vazio de objetivos. Novamente, isto aqui não é um novo GTA. Mas as missões secundárias da história são bastante banais (geralmente breves cenas de perseguição ou tiroteio) e fica claro que foram criadas para o jogador ter algo a fazer no mapa além de dirigir de um cenário para o outro. Talvez o resultado seria melhor que “L.A. Noire” simplesmente tivesse fases e o Team Bondi focasse na criação exclusiva dos casos, ao invés de perder tempo de elementos subutilizados como um mapa vazio ou tiroteios desnecessários?

Mesmo que seja natural reclamar destes problemas, o resultado da jogabilidade de investigação ainda é impressionante. Os desenvolvedores criaram um universo noir incrível, que contribui para a grande imersão que o jogador sente como se estivesse interagindo mesmo com os cenários. As cenas do crime são cheias de detalhes, dos objetos ao visual e iluminação ambiente, além dos bons diálogos e entrevistas trocados com os outros personagens. É de fato como se estivéssemos controlando e participando de um filme noir, o que coloca “L.A. Noire” como uma experiência única, mesmo que defeituosa em certos detalhes.

A produção de época é indiscutivelmente impressionante! (clique para ampliar)

Em seu lançamento, “L.A. Noire” recebeu bons elogios da crítica, mas o público não foi tão bem receptivo. Claro, sabemos que a internet exagera, principalmente quando um produto parece prometer uma coisa e entrega outra. Ainda assim, o jogo alcançou sucesso de vendas (algo próximo de 5 milhões de unidades vendidas em todas as plataformas), mas criou polêmica depois de chegar às lojas. A produtora Team Bondi entrou em conflito com a distribuidora Rockstar, alegando péssimas condições de trabalho, e acabou fechando após não conseguir financiamento para seu próximo projeto. A Rockstar continuou promovendo “L.A. Noire”, lançando novos casos para download. Ao final de 2011, o jogo recebeu uma “The Complete Edition” com todos esses extras já inclusos no disco.

Uma pena que o conflito entre produtora e desenvolvedora tenha comprometido “L.A. Noire” como uma possível franquia – nada impede a Rockstar de seguir a série, mas evidentemente não irá envolver os mesmos talentos que criaram o original. As críticas são compreensíveis, mas Team Bondi arriscou em um gênero diferente em um momento onde poucos arriscam. Dê o benefício da dúvida a esta grandiosa produção. Se você está enjoando de FPS ou TPS que inundam o mercado, “L.A. Noire” sem dúvida irá refrescar seu cérebro, se você estiver a fim de uma experiência lenta.

Esta Los Angeles dos anos 1940 é apenas um cenário vazio, mas é belíssimo de qualquer forma!

O jogo tem muitos cenários interessantes e criativos.

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