Review: “Tomb Raider” para computadores

Principal heroína dos jogos de videogame desde que explodiu no mundo pop lá no final dos anos 1990, Lara Croft resolveu se reinventar. A arqueóloga aventureira que se metia nos piores lugares atrás de aventura agora entrou no universo da passividade e deixou a aventura lhe encontrar. “Tomb Raider”, que de nome pode parecer um remake, na verdade é um reboot, com uma nova Lara, e um novo elemento, em uma reinvenção do propósito da série. Sem nunca deixar de ser um Tomb Raider, claro.

A história começa com a jovem Lara Croft em uma expedição atrás da perdida ilha de Yamatai, na costa do Japão. Eis que o navio Endurance onde ela estava afunda e a moça acaba se perdendo na ilha que procurava, junto com sua equipe de coadjuvantes clichês que irão morrer um por um conforme a história precisar. Juntos eles precisam sobreviver aos ataques dos habitantes locais, enquanto procuram uma forma de pedir ajuda.

Como já disse, Lara Croft agora não é uma aventureira ativamente atrás de aventura, agora ela se tornou aquela personagem que sofre as coisas. É uma grande perda para a história, pois Lara sempre foi uma heroína interessante, forte, que carregava seus jogos por que os jogadores acreditavam nela. Ao tentar humanizá-la (para quê?) os roteiristas perderam esse elemento. Agora tudo acontece com Lara, enquanto ela apenas reage aos ataques, às avalanches, às descobertas acidentais. Às vezes tudo beira um ridículo inacreditável. Em uma cena Lara está caindo de paraquedas e começa a bater em árvores, despencando em cada galho como se fosse Homer Simpson em seus momentos de paródia pastelão. Só que ela geme, ao invés de berrar “d’oh!”

Lara Croft apanha como um saco de pancadas, então de vez em quando ela ficará mancando enquanto você procura um kit médico. Mas durante um tiroteio, não se preocupe com os ferimentos, a energia recupera-se automaticamente! É um problema quando um recurso narrativo interfere na jogabilidade de um videogame. “Tomb Raider” resolveu transformar nossa heroína em vítima, sofredora, tenha peninha dela, mas isso não combina com um videogame desse estilo. Lara Croft pede desculpas a um alce após matá-lo para alimentar-se, mas logo depois está matando a base de machadadas algo por volta de uns 500 soldados inimigos. Antes Lara Croft era uma guerreira invencível, à lá James Bond, portanto nada disso afetava a narrativa. Resolveram humanizá-la e tudo virou um absurdo mal estruturado.

(clique para ampliar)

Isso tudo, por pior que seja, é apenas uma desculpa para jogar a heroína em uma situação. Lara Croft está perdida, ao contrário de estar procurando algo, portanto não falamos mais de um jogo onde você deve encontrar um objeto, e sim descobrir como chegar à saída (ou, especificamente, ao resgate). Claro, há uma história – descartável – sobre os personagens da ilha, mas tudo é apenas enfeite para você aventurar-se por Yamatai. Nesse aspecto o jogo funciona e a história torna-se algo meramente ignorável.

A base dos jogos Tomb Raider sempre foi a exploração, encontrar um caminho ou um segredo, e isso está presente aqui como sempre. A Crystal Dynamics sabe o que faz, já tendo trabalhado nos últimos três jogos da série antes desse. Lara pula em encostas, sobe em plataformas, descobre uma saída da situação. Infelizmente o jogo ficou devendo nas divertidas armadilhas e os enigmas ambientais são raros, o que é uma pena, mas no que diz respeito a exploração ele continua muito bem estruturado. O combate, algo que sempre foi mal feito na série, finalmente funciona. Os tiroteios são divertidos e bem localizados, sem nunca se repetirem demais e ficar com cara de intermináveis (como na trilogia Uncharted). E a nova arma principal de Lara, um arco-e-flecha, é muito divertido para as sequências stealth.

A fundação continua a mesma, mas o estilo mudou bastante. Agora Tomb Raider se aproxima da cultuada franquia Metroid, com ecos bem fortes a “Batman: Arkham Asylum” em diversos aspectos. Lara explora uma ilha, dividida em ambientes que são interligados e que você volta a explorar conforme libera novas habilidades. A série se encaixa bem nesse padrão e os fãs das antigas não ficaram decepcionados com a mudança, mas ainda assim fiquei com a sensação que o melhor não foi feito. Tomb Raider nunca prezou pela não linearidade, mas ao tentar se aproximar da fórmula metroidvania ficou devendo. Em “Tomb Raider” você pouco volta a explorar ambientes antigos com a eficácia que deveria. Você irá descobrir novos templos, cavernas, bunkers e monastérios, antes de simplesmente descobrir outros e ignorar o caminho passado.

Excelentes gráficos, com destaque para a iluminação dos cenários.

O único motivo para voltar são os segredos que Lara pode encontrar. Desde seus primórdios a série tinha suas doses de itens escondidos para ajudar o jogador mais atento, mas agora eles foram meramente substituídos por brindes inúteis, como documentos, caixas de GPS e relíquias. Claro, é legal ficar catando isso, faz parte da brincadeira, uma pena que eles não liberem nada de secreto – roupas novas para Lara Croft, agora, somente via download. Inicialmente os segredos de Tomb Raider eram munições e kits médicos para recuperar energia, mas como agora eles se tornaram pouco necessários (munições ficam espalhadas aleatoriamente pela ilha e Lara herdou os poderes regenerativos de Nathan Drake) resta ao jogador caçar itens escondidos apenas por caçar.

Isso não quer dizer que explorar apenas as fases na seja divertido. A desenvolvedora Crystal Dynamics trabalha na franquia desde 2006, tem know how. Pessoalmente não achei este o seu melhor trabalho, talvez esteja no máximo empatado com “Tomb Raider: Legend”, que foi a estreia deles no controle de Lara Croft. Comparado com o excepcional “Tomb Raider: Anniversary” ou o mais recente “Tomb Raider: Underworld”, as fases estão bem mais simples e óbvias. Os cenários também pouco variam, preso a uma ilha de cultura japonesa, sem grandes templos ou tumbas. Quando essas aparecem, inclusive, são opcionais e pequenas, envolvendo apenas em um simples enigma que dá ao jogador novos itens.

Uma das tumbas de “Tomb Raider”. (clique para ampliar)

Apesar de a jogabilidade manter-se essencialmente o que a série sempre foi (exploração), este novo “Tomb Raider” peca em não oferecer mais do que uma ilha para explorar. Suas 15 horas de duração são boas o suficiente para divertir o jogador, mas faltou variedade de ações e fases melhor desenvolvidas. E, pela primeira vez na franquia, agora temos uma opção multiplayer, que você pode muito bem ignorar, pois não estará perdendo nada. Para se jogar sozinho “Tomb Raider” é uma boa opção, que lhe prende a atenção e oferecer um estilo diferente nas aventuras de Lara Croft. Mas, apesar de ser um reboot bem feito, me deu a impressão que não melhorou tanto assim o que fora feito previamente. Pode criar novos fãs, sem alienar os das antigas, mas não é o melhor que um Tomb Raider já ofereceu.

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