“V de Vingança” em tempos de vinagre

vinagre“Lembrai-vos, lembrai-vos do cinco de novembro; a conspiração e traição da pólvora; Não sei de nenhuma razão para que a traição da pólvora jamais seja esquecida.”

É com o verso popular britânico sobre a Conspiração da Pólvora que somos introduzidos ao universo de “V de Vingança”. “Mas e a respeito do homem?”, pergunta nossa protagonista Evey.  Lançado em 2006, a produção da Warner era um tradicional blockbuster distópico, com explosões, ação e heróis. Mas tinha algo para falar e não era somente a respeito do homem. Na época fez razoável sucesso ($130 milhões em bilheterias mundiais) e logo serviu para consagrar  a máscara de V no símbolo de vários grupos antigovernamentais.

Mas na época parecia ser apenas um filme da Era Bush. Uma produção de grande alcance popular que, após meros cinco anos depois do 11 de Setembro, teve coragem de colocar a frase “explodir um prédio pode mudar o mundo”. Era uma história sobre medo, sobre governos autoritários, sobre o poder do povo de dar rumo a uma nação. Inspirado na graphic novel que Alan Moore escreveu na Inglaterra dos anos 1980 (inspirado pelo duro período de Margaret Thatcher) a história levantou a moral de muitos jovens ao tratar de assuntos que só víamos em protestos de rua, mas nunca nos cinemas. Era um filme visivelmente anarquista, sem querer esconder isso, que colocava em seu pôster o marcante slogan “o povo não deveria ter medo de seu governo, o governo que deveria ter medo de seu povo”. Outro pôster praticamente gritava “Liberdade! Sempre!”

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Só que isso foi em 2006. Outra década, outro período. No Brasil estávamos na Era Lula, ainda em seu primeiro mandato, com a esperança de que muita coisa poderia mudar desde a Era FHC. E mudou? Não como nós esperávamos. A Era Lula transformou-se em Era PT e, agora sob o governo Dilma, percebemos que aquilo que votamos em 2002 não nos representa mais. Em tempos de Infelicianos, mensalões e PEC discutíveis para todos os lados, o povo brasileiro se irritou. Às vésperas da importante Copa das Confederações, uma pequena multidão criticou as tarifas de ônibus, que em média custam algo próximo de 5% do salário mínimo. Só que o governo, que não é ditatorial, mas também não gosta de ser democrático, reprimiu o movimento. A imprensa tentou solidarizar-se com os PMs que atiravam balas de borracha no rosto de jornalistas. Mas em tempos de internet e redes sociais (não estamos mais em 2006!) a indignação cresceu e ontem tivemos um dia que reuniu centenas de milhares de pessoas em todo o país. V teria orgulho.

Mas e o filme? “V de Vingança” falou para muitos desses manifestantes. Tanto que alguns deles utilizaram a já icônica máscara de Guy Fawkes, o vilão – que hoje é herói? – da Conspiração da Pólvora. Só que V ia além. Não queria apenas marchas às ruas com a máscara que ele utilizava para esconder as torturas da qual foi vítima no passado. V realmente acreditava na violência (que seu governo, assim como o nosso, gosta de apelidar de terrorismo) como ferramenta para mudança. Entregar flores é belo, mas qual a consequência que isso realmente trás? Claro que ninguém quer ver o Congresso Nacional sendo explodido como no clímax do filme, mas tomar seu teto como “retomada de posse” representou uma simbologia incrivelmente mais eficaz, apesar de poder ser considerado um ato de vandalismo. E muitos veem como atitudes de vândalos (aquele povo que enfrentou o Império Romano), mas a importância dessas imagens fala muito mais que qualquer discurso.

“Esse pais precisa mais que de um prédio nesse momento, ele precisa de esperança” diz Evey antes de ligar as bombas que iriam completar a Conspiração da Pólvora e explodir o parlamento britânico. Assista à incrível cena abaixo, belamente conduzida pela trilha de Dario Marianelli e encerrada com Tchaikovsky. Novamente: não é a explosão que dá o tom e sim a movimentação popular. Os milhares de V retomando seu governo, enfrentando as forças armadas que não tem mais ordens para seguir.

A mudança vem sempre lentamente. A história não se constrói em dias ou anos, mas em décadas. Só que alguém precisa colocar o primeiro dominó no chão. Se em 2006 uma inteira geração de jovens viu em “V de Vingança” uma voz que gritava dentro deles explodir nas telas, talvez lá já tenha nascido uma inevitável revolução. Não só no Brasil, mas em todo o planeta que, desde a Primavera Árabe e os movimentos Occupy, parece estar à beira de uma tempestade. Cada vez mais a máscara de Guy Fawkes aparece, cada vez mais alguém marcha rumo para tomar um símbolo do governo, cada vez uma ideia (“a prova de balas”) inovadora é colocada na cabeça de um futuro manifestante. Cada vez mais um novo dominó é posto no chão. Difícil prever o que o futuro nos reserva, mas as cartas já foram postas à mesa. Em forma de arte e para as massas, inclusive.

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