Review: “007 Legends” para PlayStation 3

Algo de muito errado deu-se na produção de “007 Legends”. O resultado é daqueles jogos ruins de tal forma que você consegue contar problemas. Desenvolvido pela Eurocom, que dois anos antes fez um louvável remake de “GoldenEye 007” para o Wii, este projeto é uma homenagem à história cinematográfica de James Bond, aproveitando os 50 anos de aniversário da série. Pegando seis filmes nessa história com 23 produções, o resultado é uma tentativa de conquistar os fãs das antigas, ao mesmo tempo se aproximando dos padrões modernos de videogames. E acabou virando um fracassado paradoxo.

A história dessa aventura começa com o início do último filme “Operação Skyfall”, quando James Bond é atingido e cai de uma ponte. Durante a queda – que na versão cinematográfica abre para a animação musical ao som de Adele – o agente secreto parece lembrar-se de suas antigas missões. E nisso é jogado o jogador: um revival de aventuras passadas, sem conexão alguma. O que fica estranho. O roteiro poderia ter dado um jeito de amarrar as cinco histórias (três delas envolvem o vilão usar gás tóxico como parte de seu plano!) ou de sequer usar essa sinopse para mostrar qualquer coisa um pouco diferente. Mas não, é apenas uma desculpa para começar fases do nada.

James Bond cai da ponte e do nada somos jogados em uma cena dele em seu quarto de hotel, encontrando uma mulher pintada de ouro na cama. A cena é referência ao clássico “Goldfinger”, mas como 007 chegou lá? Se você não viu o filme, não vai saber e o roteiro não se importa com isso. Assim acontece com todas as missões, que começam do nada e terminam bruscamente, sem conclusão clara. E “Operação Skyfall” (liberado via download gratuito) também sofre disso. Apesar da história começar com o último filme, é apenas em formato de uma cena animada! O jogador só poderá jogar o momento em si – já assistido – depois que finalizar o jogo! Qual o sentido disso? Não ajuda também que essa missão acaba igualmente como as outras, sem concluir a história de forma alguma.

Ou seja, a proposta não tem sentido e parece não querer ter. A ideia da Eurocom de usar vários filmes antigos é boa, principalmente por conta do aniversário da série, mas o resultado não funciona. Para os fãs é legal poder jogar “Goldfinger” ou “O Foguete da Morte” e poder ver as Bond Girls e vilões queridos em formato digital. Mas tudo é mal aproveitado. Pussy Galore entra e sai, Jaws também, Jinx também… Todos os personagens são tão descartáveis que, para os fãs, tudo fica parecendo mera citação. E para quem não é fã? Aí o pouco sentido esvai-se completamente! Paraquem nunca assistiu ao clássico filme de 1969, como entender a relação de Bond com Tracy em “A Serviço Secreto de Sua Majestade”?

Cena de “007 contra Goldfinger”… aparentemente!

Entra aí o mais gritante conflito do jogo: é para ser vintage ou moderno? Apesar de pegar um filme de cada ator que já atuou como James Bond, Daniel Craig é que aparece em todas as versões. Ok, tem sentido, por questões contratuais… Mas por que Pussy Galore mantém claramente seu visual anos 60? Por que o hotel Piz Gloria tem uma estética tão antiga? E é sério que nosso atual 007 foi para o espaço enfrentar terroristas com armas laser? Sério?! Como a história não é conectada, todos esses anacronismos ficam ainda mais gritantes. E o jogo, em padrão de jogabilidade, não respeita sua própria referência passada. “007 Legends” é um videogame moderno como qualquer outro, mantendo a linguagem de Call of Duty com seus tiroteios repetitivos. Logo fica querendo ser moderno e antigo ao mesmo tempo, mas fracassando nos dois lados e produzindo algo que parece não pertencer a nenhum dos dois lados.

A Eurocom tem história com 007. Sua primeira produção do agente secreto foi no excelente “The World is Not Enough” lançado para Nintendo 64. Depois fizeram o competente “007 NightFire” para a geração do PlayStation 2, que também aproveitou um aniversário (o de 40 anos) e brincou com referências no multiplayer. E depois fizeram o remake de “GoldenEye 007”, que surpreendeu e conquistou os fãs. Tudo o que a Eurocom fez com seu último projeto deveria ter feito aqui, mas não fez. “GoldenEye 007” homenageava um clássico, atualizava sua história para tempos modernos e tinha uma bela combinação de objetivos, stealth e tiroteio. Bastava “007 Legends” repetir isso, mas não conseguiu nem de longe!

As missões baseadas em objetivos estão lá e funcionam em um conceito básico. Bond tem gadgets para hackear terminais ou procurar segredos no cenário. Isso é legal. Mas o stealth raramente funciona e os tiroteios são repetitivos e chatos. As duas primeiras missões são as que mais irritam. “Goldfinger” e “A Serviço Secreto de Sua Majestade” foram transformados em filmes do Rambo! Eles até tem algumas cenas stealth, má desenhadas e que são muito mais fáceis de serem completadas se você ignorar isso e sair atirando logo. A terceira missão, “Permissão para Matar”, melhora um pouquinho no lado stealth, mas tem apenas uma fase, com poucos objetivos e tiroteios insuportavelmente longos no final. As coisas melhoram em “Um Novo Dia Para Morrer” e “O Foguete da Morte” – ironicamente os dois piores filmes produziram as melhoras fases no jogo! As sequências stealth são mais bem desenhadas, os tiroteios menos maçantes e com mais variedade de ações. Inclusive em “O Foguete da Morte” temos um bom momento na estação espacial quando o jogador deve navegar em cenários sem gravidade. Ao menos é diferente e funciona! Mas é apenas uma fase. Não salva o resto.

Você enfrenta os grandes vilões em ações repetitivas inspiradas em “Punch-Out!!”

É evidente que os desenvolvedores passaram mais tempo projetando as últimas fases. As primeiras beiram o inacabado. Já a missão extra “Operação Skyfall” sai pior ainda, sendo composto por apenas duas curtas cenas que pouco representam o filme em si. Basicamente “007 Legends” termina com o agente secreto matando um capanga qualquer em um prédio abandonado genérico na China e… Pronto! Assistindo o trailer você já percebe o quanto que isso está fora do contexto, então para que colocar? Talvez uma exigência da MGM perante a Activison, uma espécie de “tem que adaptar o último lançamento?”

O que me parece que talvez tenha sido isso que tenha danificado tanto “007 Legends”. Em seu conceito de colocar vários filmes em uma só aventura, a Eurocom acabou abandonando a ideia de simplesmente fazer um jogo conciso ou bem feito, como ela havia feito com “GoldenEye 007”. Isso também afetam os gráficos, que conseguem ser piores que os de “Quantum of Solace”, o primeiro jogo de James Bond na Era HD lançado em 2008! Apesar de alguns cenários bonitos (principalmente em “Um Novo Dia para Morrer” e “O Foguete da Morte”), os ambientes são vazios, sem qualquer tipo de acabamento, às vezes até sem iluminação. Lançado para um PlayStation 3 em seu final de carreira, isso aqui poderia muito bem passar por um jogo de lançamento do Wii!

Com um produto lançado tão abaixo do esperado, quem pode ser o alvo de “007 Legends”? Os fãs irão repudiar a fraqueza que seus filmes favoritos foram adaptados. A geração Call of Duty já tem Call of Duty para jogar. Quem curtiu “GoldenEye 007” irá receber um produto muito inferior. Mal desenvolvido, genérico e inacabado, “007 Legends” acaba se tornando uma aberração exagerada. Poderia ter sido um extravagante presente de aniversário, acabou resultando em um triste réquiem para a Eurocom.

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