Review: “Sombras da Noite” de Tim Burton

Não é muito comum ver uma novela inspirando um filme, mas é isso que aconteceu com “Sombras da Noite”. Eis uma adaptação de um programa norte-americano chamado “Dark Shadows” que fez bastante sucesso entre 1966-1971. Novelas, como nós brasileiros estamos muito bem acostumados, são exageradas, melodramáticas. Material que raramente convence na tela grande. Mas “Dark Shadows” teve um diferencial: após um ano de exibição (novelas americanas tendem a durar anos, em alguns casos até décadas) veio a introdução de um personagem vampiro. O que transformou o programa em um grande marco do gênero por lá.

Este filme pega o mesmo conceito: um vampiro entra para uma família supostamente convencional. Nunca assisti ao “Dark Shadows” original (novelas americanas não costumam ser exibidas por aqui) para poder comparar o enredo, mas parece que a base é a mesma. O que é uma ideia razoável para um filme, agora que vampiros viraram moda em todos os estilos, de “Crepúsculo” a “True Blood”.

A história começa séria, com uma narração de nosso protagonista vampiresco Barnabas Collins e como sua família inglesa mudou-se para os Estados Unidos no século XXVIII e fundou uma cidade. Para seu azar uma bruxa, Angelique, apaixona-se por ele, mata sua mulher, o transforma em vampiro e o prende em um caixão para toda a eternidade! Novamente: tudo isso em um tom muito sério, sem nenhum pingado de ironia ou exagero. Eis que viajamos no tempo, especificamente para 1972, quando Barnabas é encontrado e sai de sua prisão. Volta para sua antiga mansão e lá encontra seus novos familiares. Ah, e uma psicóloga, que por qualquer motivo mora eles (sequer é explicado, mas tudo bem). E Angelique ainda está viva e decidida a vingar-se novamente de seu amor não correspondido.

Aí a história entra em um tom de comédia, brincando com a situação de um vampiro morando em família e se adaptando aos anos 70. O único problema é: a comédia não tem graça alguma! Sim, o conceito é interessante, mas faltou ao roteirista escrever piadas, sabe? Simplesmente um vampiro em uma casa não rende tanto assim. Talvez fosse interessante em uma novela de quase cinquenta anos atrás, mas hoje o conceito em si sequer é novo. “Sombras da Noite” poderia também ter brincado com humor negro, como “A Família Addams” fez tão bem, mas simplesmente não tentou.

O que compromete todo o filme, que no fundo acaba sendo um pouco sério, mas nunca vira um bom drama, e nem é melodramático como uma novela, algo que poderia render ao menos um estilo diferente. Não, “Sombras da Noite” é completamente frio, sem humor, sem violência, sem trama e com personagens que não fazem nada. Existe uma adolescente com hormônios em ebulição (e uma reviravolta forçada no clímax), uma criança que perdeu a mãe e tenha talvez umas duas falas, e a babá de passado misterioso que some durante boa parte do filme apesar de ser o interesse romântico do protagonista. Ah, e a tal da psicóloga, que também não faz nada e depois some! Barnabas é cercado de coadjuvantes, mas todos eles são completamente inúteis para a trama. Como geralmente acontece em novelas, mas eis um formato que permite esse buraco; filmes não permitem.

“Sombras da Noite” é dirigido por Tim Burton, que fez uma carreira louvável de produções curiosas nos anos 90, mas desde a virada do milênio caiu em desgraça e só faz porcaria. Comparado com seu último “Alice no País das Maravilhas”, isso aqui pelo menos é medíocre. É uma evolução! Mas é um pena que Burton, que sempre deu um estilo interessante em seus filmes, tenha caído no conforto de dirigir projetos genéricos como esse. “Sombras da Noite” poderia ser de qualquer diretor. Burton provavelmente o dirigiu no automático.

O elenco reunido em foto publicitária, como muito se faz em programas da televisão americana.

Aqui ele volta a sua parceria com Johnny Depp, pela milionésima vez. Que mania é essa do diretor de maquiar seu amigo como uma boneca de porcelana? Depp não faz muita coisa com o papel de Barnabas Collins e também não cria nada de novo em cima da mitologia dos vampiros. Eis uma parceria que já deu o que tinha que dar lá nos anos 90… Outra fiel recorrente de Burton é sua esposa Helena Bonham Carter, atriz de talento, mas infelizmente ficou com o papel da psicóloga que não serve para nada.

Também temos Michelle Pfeiffer, que encantou a todos com sua Mulher-Gato de “Batman – O Retorno” (filme de Burton), mas aqui pouco tem a expressar. O resto do elenco de luxo inutilizado conta com Chloe Grace Moretz, como a adolescente irritante que irrita mesmo, Jonny Lee Miller, Jackie Earle Haley e o lendário Christopher Lee. Destaque para Eva Green, a única que pegou um papel interessante e fez alguma coisa com ele. Como Angelique a Bond Girl de “007 – Cassino Royale” produz uma vilã interessante de acompanhar. Não deixa de ser trágico pensar que, com tanta gente talentosa para trabalhar, Tim Burton só tenha conseguido salvar uma!

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