Review: “Gravidade” de Alfonso Cuarón

O gênero sci-fi existe como uma extensão narrativa importantíssima para o cinema. Nasceu no mundo dos absurdos (de invasões alienígenas dos anos 50) e evoluiu muito para contar histórias bastante alternativas. Passou pela fantasia de Star Wars até o noir filosófico de “Blade Runner”. A ficção científica quer usar a ciência para encontrar em possibilidades fora do cotidiano sentimentos bastante cotidianos. Nessa linha “Gravidade” não é apenas um filme sobre uma pessoa solta pelo espaço.

Ryan Stone é uma astronauta da NASA em missão na órbita terrestre com Matt e sua equipe. No meio da operação uma nuvem de destroços de satélite causa uma confusão daquelas de chamada da Sessão da Tarde, só vendo para crer… Logo nossa protagonista se vê solta pelo espaço, longe dos destroços de sua nave, sem contato com a Terra e tentando sobreviver no ambiente mais hostil possível para um ser humano.

O filme é uma sucessão de absurdos testando os talentos de sobrevivente de nossa heroína. A história é toda focada nela (Matt tem uma participação eventual), que quando não está rodopiando pelo espaço, está tentando não rodopiar pelo espaço, ou segurando amigo para não rodopiar pelo espaço, ou dentro de uma nave rodopiando pelo espaço… É um conceito agitado – o ritmo da história é incrivelmente ágil – mas que perde um pouco do seu diferencial quando você logo percebe que Ryan tem de fato um talento exagerado para sobrevivência. Por mais que ela rodopie, a astronauta sempre consegue se agarrar em alguma coisa.

Mas aí entram os méritos sentimentais do filme. Ryan “sempre consegue se agarrar em alguma coisa”, mesmo tendo todos os motivos do mundo para simplesmente soltar-se. Ela quer viver, mas por quê? Ela tem motivos para querer continuar viva? Está lutando por algo ou alguém que ficou na Terra? O filme forma algumas analogias visuais bastante óbvias, como a cena em que ela despe-se da roupa de astronauta como num parto e coloca-se em posição fetal. O enquadramento tem direito a cordão umbilical e tudo! Forçado, pois a mensagem não precisava de tradução. “Gravidade” é um filme sobre a vida; sobre nascer, viver e tentar não morrer. Uma incrível jornada que todos nós passamos, seja em órbita ou em terra firme.

O filme é dirigido por Alfonso Cuarón, responsável por “E Sua Mãe Também” e que ficou famoso com “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”. Cuarón é um estupendo diretor e especialista em tomadas traveling, as quais ele abusa com talento em “Gravidade”. Certas cenas chegam a ter até 30 minutos sem cortes visíveis, mas não cansam. O resultado é uma edição das mais elaboradas que o cinema já viu, tamanha a sutileza com que tudo é conduzido! Ajuda muito o esforço do diretor com belas tomadas (nosso lindo planeta ao fundo sempre ajuda) e enquadramentos sensíveis. A cena em que Ryan chora e suas lágrimas flutuam pelo espaço é toque de gênio.

Nossa protagonista é a queridinha Sandra Bullock, que desde “Velocidade Máxima” parece que não parou de trabalhar, né? George Clooney é seu parceiro de perdidos no espaço. A gente sabe que ele é um ator de talento, então precisavam colocá-lo a interpretar o astronauta galã? Chega a ser um clichê… Assim como Bullock como a “mocinha simples em situação extraordinária”. Sem querer desvalorizar o trabalho dos dois atores, mas ambos vestem-se dos próprios estereótipos. Bullock esforça-se na tela, mas quem carrega o filme mesmo é a edição de Cuarón.

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