Review: “BioShock Infinite” para computadores

O primeiro “BioShock” foi um dos jogos mais importantes desta sétima geração de videogames. Além do visual rebuscado, elaborado e de marcantes influências, contava uma história filosófica com reviravoltas bem pensadas. Além de, claro, ser divertido de jogar! Fomos introduzidos Rapture de forma espetacular (os primeiros 10 minutos do jogo são inesquecíveis) e nos sentimos em casa. Poucos jogos deste ciclo que está acabando foram tão fortes na sua capacidade de imergir o jogador em outro universo.

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Eis que agora estamos em “BioShock Infinite” e nos é mostrado uma nova criação. Esqueça a Rapture criada nos anos 1930 por Andrew Ryan. Saímos da distopia submersa para a utopia aérea: Columbia, uma cidade flutuante criada por Zachary Comstock no final do século XIX. Mas a história se passa em 1912 (ano do naufrágio do Titanic, marco final da Belle Époque) quando Booker DeWitt é enviado para a cidade para resgatar uma jovem, Elizabeth, mantida em cativeiro na cidade.

O jogo começa de uma forma muito parecida com o primeiro, com Booker entrando em um farol no meio do oceano. Só que ao invés de mergulhar em Rapture, voamos até Columbia. E após uma breve caminhada que nos leva até uma cena de batismo – fundamental para introdução de certos temas da história – percebemos que de fato o jogo é outro. A Rapture que conhecemos já estava em ruínas, abandonada de seres humanos, com apenas criaturas mutantes e Big Daddies patrulheiros procurando nos restos algo para sobreviver. A Columbia está viva em “BioShock Infinite” e a conhecemos ainda em funcionamento.

Booker logo é acusado de ser o “falso pastor” e aí começam os tiroteios e tudo muda de figura. Se em “BioShock” você estava explorando Rapture para sobreviver (e tentar sair de lá), “BioShock Infinite” é um tradicional jogo de ação com objetivos, onde você está procurando Elizabeth enquanto todo mundo sai atirando em você. Infelizmente isso cansa rápido! Antes mesmo de você sequer encontrar a garota fica a sensação de que já vimos tudo que o jogo tem para oferecer muito rápido… Claro que tentam introduzir novidades, como a presença de Elizabeth (que lhe ajuda em determinadas situações), com uma pequena variedade de vigors – novos poderes – e lá pela metade da história conhecemos fendas temporais que dão novo ritmo aos tiroteios.

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Mas a verdade é que “BioShock Infinite” é apenas um jogo de tiroteio. Pode parecer estranho criticar um FPS por ser apenas isso, mas os dois jogos anteriores da série não eram! Claro que você tinha armas e atirava o tempo inteiro, mas havia ritmo, havia exploração, havia variedade nos duelos por causa dos poderes,  dos inimigos e de seus padrões de ataques. Agora todos são soldados armados que só sabem atirar, enquanto o jogo lhe prende em pequenas arenas até você matar todo mundo. Não há possibilidade de fuga, você fica preso a usar apenas duas armas e seus poderes são bem menos úteis do que nos outros jogos. Existem uns trilhos no ar para dar um pouco de novidade, mas eles logo perdem o efeito por que acabam sendo a única inovação em toda a jogabilidade.

Nesse aspecto “BioShock Infinite” é uma louvável decepção, incapaz de pegar o que o primeiro jogo fez e trazer algo realmente novo ou diferente. Ficamos preso a mais um FPS inspirado nas arenas de mata-mata como Call of Duty faz em suas campanhas single-player. Columbia não é tão livre para se explorar, seus segredos são resolvidos sem enigmas algum (Elizabeth tem a função de abrir fechaduras especiais, eis o máximo de “enigma” a se resolver), e os poderes subutilizados nos combates também não fazem muita diferença em qualquer outra área. Portanto eis um jogo que lhe dá as ferramentas, mas não cria oportunidades para você usá-las. Acaba sendo, portanto, mais um jogo de tiro como tantos outros.

O diferencial, claro, recai na história! Por que muitas séries FPS gostam de dizer por aí que tem “histórias maduras”, mas é uma baita de uma mentira. E os jogos BioShock provam isso ao ter de fato um enredo interessante, com bons personagens e assuntos complexos sendo abordados. Mesmo que, na hora de jogar, “BioShock Infinite” foque nos tiroteios, sua história vai muito além do mata-mata. O jogo tem ritmo, de vez em quando para com cenas de diálogo, deixe você curtir um pouco o cenário. O que eleva o resultado final significativamente acima de outros do gênero.

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Se você jogou um dos primeiros BioShock, sabe o que esperar. Columbia é tão fictícia quanto Rapture, mas usa fontes filosóficas para fazer alegorias bastante reais. Sai o racionalismo, entre o excepcionalismo, deixando bem claro que o autor e diretor Ken Levine gosta um pouco de satirizar pensamentos elitistas de direita. Se Rapture era isolada no fundo do mar para separar os poucos gênios da humanidade do resto dela (ideia concebida pela autora Ayn Rand em seu épico racionalista “A Revolta de Atlas”), Columbia foi aos céus para ficar mais próximo de Deus. Se Andrew Ryan era contra qualquer forma de religião em sua utopia submersa, Comstock vai à via contrária. Você só entra em Columbia se for batizado.

Cartazes valorizando ideais como o da família tem um tom de deboche, considerando que Elizabeth é filha de Comstock e por isso fica presa em uma torre protegida por um monstro. Sim, o arauto de Columbia valoriza valores cristãos, mas assim como muitos pregadores que vemos por aí, não é lá o melhor exemplo a ser seguido! O pai quer proteger sua “ovelha” do tal “falso profeta” (DeWitt), usando desse messianismo extremista (ele se declara “profeta”) em parte por culpa de um passado corrupto, em outra parte por achar que pode mudar isso se refugiando nos reinos de céu. Afinal tem muita igreja por aí que vende esse mesmo tipo de “reconciliação divina” e muita gente usa disso para fugir dos próprios erros. Columbia não passa de um símbolo do perdão cristão, construído por Comstock para perdoar a si mesmo.

Além das referências cristãs, o universo de Columbia também usa do excepcionalismo norte-americano para satirizar esse falso patriotismo elitista – apesar de não ter nenhuma bandeira dos Estados Unidos no jogo, mas suas cores são abundantes pela cidade. Tal filosofia esbarra em alguns ideais bastante reprováveis, como o racismo e a valorização do trabalho escravo – exercido pelos negros. Columbia tem um quê de América pré-Lincoln. Existe inclusive um memorial a John Wilkes Booth! Comstock gaba-se de nunca ter parado de trabalhar (afinal tirar férias não é algo que escravos podem, certo?) e a propaganda local pede aos negros eficiência e obediência aos patrões caucasianos.

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Columbia pode até estar próxima dos céus, entretanto seus valores são o fundo do poço. Evidentemente essa é a intenção de Levine, não apenas de satirizar gratuitamente (algo que poderia ser feito via diálogos vazios), mas colocar o jogador a perceber a cidade que ele explora. Boa parte dessas referências críticas estão espalhadas em mensagens e propagandas, portanto que estiver procurando em “BioShock Infinite” apenas um jogo para sair atirando por aí vai acabar perdendo isso tudo que a história tem para dizer.

Além disso, não tem como não elogiar a estética. O resultado final em primoroso, como não poderia deixar de ser, pois Columbia viva é tão impressionante quanto a Rapture destruída. Cenários enormes, estátuas imponentes, incríveis detalhes nos ambientes; sempre há algo para se ver e admirar pela cidade! Fãs do steampunk vão curtir alguns momentos, principalmente na zona industrial, além dos inimigos mecânicos e os muitos dirigíveis. Eis um universo bastante diferente do mostrando em “BioShock” (muito mais colorido e clássico), mas percebe-se que foi construído com o mesmo esforço e carinho. As imagens que coloquei nesse review foram tiradas por mim, então perdoem se tiver algum spoiler aqui ou acolá no que diz respeito aos cenários visitados. Mas não resisti em registrar certos momentos e compartilhar por aqui!

Encerrando eu diria que “BioShock Infinite” é, assim como seus antecessores, um primoroso exemplo de que boas e reflexivas histórias podem ser encontradas em videogames. Mas, diferente de seus antecessores, peca no que diz respeito no seu lado videogame em contrapartida. Algo se deu errado no final também, confuso e metafísico demais (buscando dar sentido ao “infinito” no título do jogo), que não só diminui o impacto da história anterior como acaba desvalorizando o significado da série como um todo. BioShock já é uma franquia especial para fãs de videogames, por arriscar em narrativas bem feitas e inteligentes; ao tentar amarrar um “infinito universo” maior que os de Columbia e Rapture, é como se tudo isso deixasse de ser lá tão especial. Antes de querer ser infinito, BioShock bastava-se sendo único.

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