Review: “Ela” de Spike Jonze

“Ela” é um filme inusitado e original, que levanta questões filosóficas sobre relacionamentos, sentimentos e nossa percepção sobre existir, estar vivo. Um certo filósofo uma vez disse que “penso, logo existo”, mas e o sentir? Essas duas coisas superam questões básicas do corpo humano como respirar? Sem inalar oxigênio nós não vivemos, mas não é isso que nos faz estar vivos. Ou nos sentir vivos. Pois é, viajei na maionese em apenas um parágrafo, méritos de “Ela” por estimular isso.

Em um futuro desconhecido conhecemos Theodore, um homem sensível que está solitário desde que viu seu casamento ruir e ainda não conseguiu superar a ex-mulher. Tem uma grande amizade, tem um trabalho onde ele consegue exercitar um pouco do seu lado artístico, mas não segue em frente no fracasso de um amor que acabou. Ele então compra um avançadíssimo sistema operacional chamado simplesmente de OS, movido por uma avançada inteligência artificial que o ajuda a pôr ordem na sua vida. Ao encontrar alguém para conversar, nessa voz feminina que se chama de Samantha e tem consciência da sua existência artificial, Theodore começa a desenvolver uma relação com a OS.

“Ela” é um pronome de tratamento para uma singular terceira pessoa. Mas no inglês o filme se chama “Her”, que é um pronome possessivo. Nesses dois aspectos do título evidencia-se uma narrativa focada no ponto de vista de Theodore sobre sua relação de posse com Samantha. Entretanto não é uma posse material, “eu sou seu dono” – para isso assista a “12 Anos de Escravidão” – e sim de pertencer, de “ele tem ela em sua vida”. Samantha, apesar de ser um programa de computador, existe para Theodore por que ela o ouve, responde, expressa, demonstra conhecimentos… Pensa, suspira, goza. Em determinado momento Samantha reclama da falta de um corpo, pergunta a Theodore “como você me tocaria?”, um dos momentos mais sensíveis e belos do roteiro. Mais tarde ela fica feliz em não ter um corpo, pois quer dizer que ela não está dependente a uma materialidade finita. Samantha é um sistema ou uma alma?

A relação é profunda por que é muito bem escrita e excepcionalmente atuada por Joaquin Phoenix, que interpreta praticamente apenas consigo mesmo, em uma relação onde ele apenas ouve e reage. Seu trabalho é lindo, de uma incrível complexidade. “Ela” por vezes parece um programa de rádio, onde você fica ouvindo vozes e imaginando imagens. Mas como filme é marcado por closes expressivos e uma belíssima fotografia que mescla o sóbrio e o colorido de forma criativa. O elenco também tem a participação de Amy Adams, Chris Pratt, Olivia Wilde e Rooney Mara.

O filme é escrito e dirigido por Spike Jonze, de “Quero Ser John Malkovich” e “Adaptação”. Eis um diretor de trabalhos criativos, que amadureceu dirigindo clipes, apesar de ter um estilo lento. O forte de “Ela” é seu incrível roteiro, humano e reflexivo de doer. Trata de questões profundas e dá conta do recado. É um excelente filme para se discutir com amigos, pensar a respeito nos dias seguintes. Se “penso, logo existo” sem dúvida “Ela” fará você se sentir existencial! Destaque também para Scarlett Johansson na voz de Samantha, um incrível trabalho de dublagem que faz você perceber sentimentos na sua voz de maneira louvável. Ainda assim fiquei pensando se não seria mais interessante ter uma voz desconhecida, pois, como espectador, fiquei sempre imaginando Johansson ao lado de Theodore. Ou seria essa a intenção?

De uma forma incrivelmente real, Samantha está lá o tempo inteiro.

Anúncios
Esse post foi publicado em Filmes, Reviews e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Comente aqui...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s