Review: “Expresso do Amanhã” de Joon-ho Bong

Filmes de futuro distópico geralmente contam uma história de “alerta”, uma espécie de “o que pode acontecer…” caso permita-se isso ou aquilo. Distopias geralmente são muito populares no gênero sci-fi para poder brincar com possibilidades, de um futuro trágico e o que isso representa para a nossa sociedade. “Expresso do Amanhã” é isso, além de uma metáfora ao conflito de classes que se estende em nossa civilização desde que o capitalismo se entende como capitalismo.

A história narra um mundo congelado, após um experimento para controlar o aquecimento global fracassar e transformar nosso planeta em um deserto inóspito de neve. Antes de isso acontecer, porém, um empreendedor chamado Wilford construiu um trem movido por uma locomotiva de energia infinita, que pode ficar dando voltas pelo planeta carregando seus passageiros. Isso significa carregar os sobreviventes – enquanto o resto da humanidade pereceu no gelo.

Entretanto, como boa sociedade que prioriza a “ordem”, o trem é dividido em classes. Willford controlar a locomotiva (e a máquina que a mantém funcionando), seguido pela excêntrica classe alta vivendo no luxo e na excentricidade, depois pela classe de trabalhadores (que mantém a produção de animais e plantas, além de reciclar a água) e por último a classe mais baixa. Largada como lixo, no fundo do trem, eles apenas sobrevivem recebendo uma barra de proteína para se alimentar, sem ter direito a nenhum luxo ou oportunidade como as outras classes. Mas sua função é essencial ao trem, algo explicado somente ao final do filme.

Percebe-se que a metáfora não é nada sutil, né? Eis uma espécie de “Revolução dos Bichos” com trem. A classe baixa quer chegar à frente do trem, mas terá que confrontar um sistema violento que irá fazer de tudo para impedi-los. A ordem é dita como fundamental para manter o trem funcionando, “você não coloca o chapéu na cabeça” diz uma personagem. Mas a gente sabe que é um privilégio dos privilegiados defender um sistema opressor – os oprimidos que não tem oportunidade nem de ver o sol devem fazer o que? Se contentar em serem sapatos? “Expresso do Amanhã” lembra que esse frágil ecossistema não dura muito. Revolução é uma constante inevitável.

O filme é esperto o suficiente por usar a metáfora para falar do capitalismo e aliá-la ao aquecimento global (culpa do nosso abuso do capitalismo também, não custa reforçar). O planeta é também um ecossistema frágil, que pode ruir – e nos deixar a beira da extinção – se nada for feito. Enquanto os ricos lutam para manterem-se ricos, as indústrias lutam para manter-se poluindo. O resultado é uma política que continua privilegiando poucos e condenando o resto ao gelo. A metáfora é simples e óbvia, mas direta: se o mundo congelar, somente os ricos terão direito a casacos. O clímax tenta trazer algumas reviravoltas para adicionar caldo ao feijão, algo que não necessariamente trás os efeitos desejados, mas ainda assim estimula uma boa discussão.

A direção é Joon-ho Bong, responsável pelo divertidíssimo filme de monstro “O Hospedeiro”, aqui realizando sua primeira produção em inglês. “Expresso do Amanhã” é um sci-fi de ação, portanto sua habilidade não é perdida na tradução. Bong mantém seu estilo excêntrico e divertido, aliado a belos momentos de identidade visual. A história começa nos sujos e feios vagões da classe baixa, mas conforme vai avançando somos presenteados com alguns cenários muito criativos. E é de se valorizar o desafio em passar uma história inteira presa a um trem e não desenvolver um filme claustrofóbico.

Um excelente elenco.

O elenco é excelente, contando com Chris Evans (o Capitão América) como herói, em um papel que lhe dá algumas oportunidades de mostrar mais do que uma única expressão – algo a qual ele fica preso nos filmes da Marvel. Ele é acompanhado por Jamie Bell (o Billy Elliot), Kang-ho Song (estrela do cinema sul-coreano), Luke Pasqualino, Octavia Spencer e Ah-sung Ko. Todos bens em seus papéis coadjuvantes, que infelizmente nem sempre duram muito na história, mas deixam sua marca. John Hurt e Ed Harris fazem pontas. E o grande destaque do filme é a magistral Tilda Swinton (para variar…), irreconhecível criando uma esquisita vilã de trejeitos cômicos, uma delícia de acompanhar.

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