Review: “Interestelar” de Christopher Nolan

“Interestelar” é um daqueles raros filmes que não dá para falar sem entrar em discussões mais específicas sobre seus temas. E por questões de spoilers não entrarei em detalhes no review a seguir. Tentarei ser o mais objetivo possível, mas uma coisa pode ser dita sem dificuldade: se você é fã de sci-fi e se interessa pelas teorias que envolvem o contínuo espaço-tempo, vale arriscar. Quantas vezes por aí o cinema nos oferece uma narrativa que aborda singularidade de horizonte de eventos?

O planeta Terra está condenado. Em um futuro não definido (mas bastante possível, pelo que a gente vê hoje em dia) uma praga está acabando com todas as plantações. Cooper é um ex-piloto de caças que agora virou fazendeiro e planta milhos para sustentar a família. Nesta distopia onde a ciência virou um segredo, já que a preocupação maior da humanidade é tentar comer suflê todo dia, nosso protagonista é um frustrado espacial. Mas uma série de eventos estranhos o leva a conhecer um novo plano da NASA: entrar em um buraco de minhoca descoberto perto de Saturno para procurar novos planetas habitáveis.

Para isso ele tem que deixar seus filhos para trás (apesar de seu único conflito seja com a filha, seu primogênito parece que tá de boa em perder o pai) em uma jornada além dos limites da nossa galáxia que ele sequer sabe quando e como voltará. Não só o destino do planeta está em jogo, como o tempo se torna um recurso tão limitado como comida e oxigênio. Tá achando que é tranquilo chegar perto de um buraco negro? A doideira começa por aí.

E aí, curtiu?

Buraco negro, buraco de minhoca… “Interestelar” entra em conceitos nunca antes explorados visualmente no cinema. Irão compará-lo com “2001: Uma Odisseia no Espaço” de Stanley Kubrick, mas talvez a comparação mais pertinente seja com “Contato” de Robert Zemeckis. O delírio visual deste filme é garantido! Prepare-se para ir além da sua percepção de Universo. Se você se empolgou com as aventuras de Sandra Bullock na estratosfera em “Gravidade”, saiba que isso não passou de um lanchinho.

Mas para elaborar o impacto visual de “Interestelar” precisaria falar do mais importante, de certos eventos que acontecem no terceiro ato. Não o farei! Eis um filme que merece ser descoberto da maneira mais pura possível. Pois não estamos apenas falando de buraco negro e planetas alienígenas, mas de gravidade e dimensões e cosmos e tudo mais. “Interestelar” vai além de onde qualquer outro filme jamais ousou ir e merece aplausos apenas por tentar.

Entretanto isso acaba sendo um ponto fraco, pois não acho que todo mundo irá entrar na “viagem na maionese cósmica” que o filme lhe convida. Sim, são teorias e ideias muito diferentes e inusitadas, aplicadas com uma visualidade impressionante. Mas e se você não entende? Como fica? E não digo “não entender” como se fosse burrice ou ignorância. Certas pessoas simplesmente não ligam para a vida, o universo e tudo mais. E “Interestelar” terá dificuldade de se conectar com esse público.

Tem mais, que tal?

Existe um elo humano, o gancho emocional da história. A relação de Cooper com sua “família” – convenhamos, só com a filha mesmo! – rende momentos de drama muito bons, principalmente por que Matthew McConaughey carrega essas cenas como uma força impressionante. Quem diria, o ex-rei das comédias românticas realmente virou ator digno de Oscar! Mas, fora Cooper (muito bem desenvolvido em seus conflitos), outros personagens ficam à deriva. Anne Hathaway é uma astronauta inteligente e tem bons momentos, mas algumas falas bastante piegas também. Jessica Chastain tem mais material para trabalhar, principalmente no segundo ato, mas escorrega na breguice. Acho que ela ficou com tanta vergonha de gritar “Eureka!” em determinado momento quanto eu de assisti-la fazendo isso.

Outros atores do elenco incluem Michael Caine, Wes Bentley, Casey Affleck e John Lithgow. Todos desperdiçados em papéis menores. A voz de Bill Irwin acaba roubando muitas das cenas como a inteligência artificial sarcástica TARS, o alívio cômico do filme. Matt Damon também aparece em determinado momento e seu personagem sofre uma reviravolta que simplesmente não funciona. Digamos que, para alguém tão inteligente, ele toma atitudes muito burras! Entendo quando o roteiro quis argumentar suas ações, mas ficou fraco. Não funcionou, apesar de ser um dos momentos mais tensos da história.

O filme é dirigido por Christopher Nolan, o diretor de blockbusters do momento depois do seu sucesso com a trilogia O Cavaleiro das Trevas e do inusitadíssimo “A Origem”. Depois de contar uma história sobre invasão de sonhos com cinco linhas do tempo paralelas, convenhamos que Nolan provou ser capaz de contar qualquer coisa, né? Pois “Interestelar” cai nessa onda. É um pouco mais linear do que seu hit pop de 2010, mas entra em temas mais profundos também. Portanto o resultado é um filme muito mais difícil de ser executado e ele acerta, principalmente no aspecto visual! Já o roteiro, de sua autoria compartilhada com seu irmão Jonathan Nolan, tem problemas no desenvolvimento de certos conflitos.

Em resumo, “Interestelar” merece ser visto, ao menos para ser discutido. Nem todo mundo irá gostar (como já disse, o assunto é complicado), mas eis um daqueles raríssimos filmes onde é impossível não se formar uma opinião a respeito. Abordando temas complexos com uma propriedade visual única, “Interestelar” irá lhe fazer viajar na maionese. Isso se você gostar de maionese, claro.

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