Review: “Êxodo: Deuses e Reis” de Ridley Scott

Acompanho o nascer do projeto que veio a se tornar “Êxodo: Deuses e Reis” desde que ele ainda se chamava apenas “Gods and Kings” e seria dirigido por Steven Spielberg. Acho a história do Livro do Êxodo e toda a passagem de Moisés bem interessante, talvez a mais interessante de toda a Bíblia. Vai ver por se passar no Egito, vai ver por que eu realmente gostei de “O Príncipe do Egito” quando o assisti quase 20 anos atrás… Não sei dizer, só sei que potencial para tratamentos interessantes há. Pena que potencial não é garantia.

Para quem não sabe, Moisés era um príncipe adotado do Egito, até descobrir ser filho de hebreus, povo escravizado pelo Império, e buscar exílio. No meio do deserto resolve virar pastor e um dia encontra uma árvore pegando fogo falante e, opa, é Deus! Volta para o Egito para tentar conversar com seu ex-irmão Ramsés, mas o faraó não está disposto a abdicar de sua economia escravista. Deus, então, libera umas sete pragas aleatórias, Ramsés desiste, Moisés consegue fugir com seu povo, abre o Mar Vermelho, sobe o Monte Sinai, escreve uns dez mandamentos e fim. Opa, exagerei nos spoilers? Sinto muito, mas não existe spoiler em se tratando de Bíblia.

Tratar do Livro do Êxodo, portanto, não dá muita margem para surpresas. Todo mundo sabe o que acontece, se não em detalhes, ao menos o enredo geral. Sobra ao adaptador tentar explorar algo novo. O roteiro aposta em um tratamento mais realista do material. Um ponto de vista interessante, já que a Bíblia raramente recebe esse tipo de visão, mas alguém escolheu o livro errado. Justo o Êxodo? Aquele com rio de sangue, chuva de fogo, mar se abrindo? Pois é. Boa parte da história o filme quer nos convencer de como tudo é bastante real, desde insinuar que Moisés pode estar apenas alucinando em suas conversas com Deus, como tratar o Messias como líder político com tendências terroristas.

Só que quando você trata algumas das pragas com explicações lógicas – aparentemente o Nilo ficou vermelho por que os crocodilos tiveram crise homicida? – tem que ir até o fim. E sempre irá empacar na última praga, aquela em que todos os primogênitos do Egito morrem subitamente, no meio da noite (menos os hebreus que marcam suas casas com sangue de cabra). Como explicar racionalmente um genocídio espontâneo súbito? Não rola, né? Portanto o roteiro resolve deixar esse assim mesmo. Esse aí foi Deus! Mas os outros? Ah, talvez tenha sido fenômeno natural…

“There can be miracles / When you believe”

O mesmo vale ao clímax, aquele eternizado por Cecil B. DeMille no clássico “Os Dez Mandamentos” e muito bem executado também por “O Príncipe do Egito”: a abertura do Mar Vermelho. Sabe o que o diretor Ridley Scott faz? A maré diminuiu, só isso… Como assim? Uma das passagens mais famosas da literatura mundial, aquela que inspirou a fé de inúmeros religiosos, o auge da jornada de um Messias, é… Maré baixa? Sim, e passam os hebreus. Mas calma aê, hora de um tsunami, por que afinal a maré tem que subir e não pode subir sem espetáculo! Pois é, nesse momento que “Êxodo: Deuses e Reis” mostra o quanto está perdido. Seu tom é a conveniência. O Mar Vermelho não pode se abrir pela magia, mas fechar pode sim. Ao menos o visual é legal.

Scott, que fez nome com clássicos como “Alien” e “Blade Runner”, mas aqui sendo associado ao seus oscarizado “Gladiador”, está perdido. Sabe produzir um belo espetáculo visual – há aqui um estilo bastante clássico, lembrando os épicos de antigamente – mas não parece empolgado com a história. Narra tudo de maneira bastante fria. Surpreendentemente, sem fé. Convenhamos, não é preciso ser cristão ou judeu para saber que fé é aquilo que move a vida de Moisés. Querer dar um tratamento de “líder político” é uma coisa, abdicar completamente da essência do personagem é outra. Êxodo sem fé simplesmente não tem sentido.

“Êxodo: Deuses e Reis” é encabeçado por Christian Bale (o Batman de Christopher Nolan), que sabe fazer cara de maluco, então encarna um maluco no seu Moisés. Ramsés é tratado como rei mimado por Joel Edgerton (“O Grande Gatsby”). Aaron Paul, de “Breaking Bad”, é um Josué que resmunga umas duas vezes. John Turturro é o faraó, Sigourney Weaver sua rainha figurante, Ben Kingsley também só aparece para falar meia dúzia de palavras. Ou seja, um elenco desperdiçado.

Anúncios
Esse post foi publicado em Filmes, Reviews e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

Comente aqui...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s