Review: “Cinquenta Tons de Cinza” de Sam Taylor-Johnson

A trilogia Cinquenta Tons da autora E. L. James pode ter surgido como fan fiction da série Crepúsculo (longe de ser uma fonte inspiradora de nada além de sono), mas ganhou seu espaço ao Sol. Fez tremendo sucesso de vendas e virou fenômeno pop, tornando o gênero da literatura erótica algo completamente mundano nas livrarias. Não foi muito tempo atrás onde mulheres jamais admitiriam ler esse tipo de conteúdo sem ter vergonha, mas veja onde chegamos, agora ele se tornou tão comum que na Saraiva você vai encontrar mais livros dedicados ao tema do que os derivados de Harry Potter! Um ponto positivo do sucesso, sem dúvida.

Se o material é digno de desprezo por alguns (nunca li), o sucesso é garantia de adaptação cinematográfica. E cá estamos…

“Cinquenta Tons de Cinza” conta a história de Rory Gilmore, errr, Anastasia Steele, uma universitária que acaba pegando o projeto da amiga de entrevistar o rico empresário Christian Grey. Ao se encontrar com ele é tesão à primeira vista e a mocinha não resiste ficar mordendo lápis nos dias seguintes, delirando com Grey e seus ternos impecáveis. Acontece que o moço também se fascinou por ela (sei lá por quê) e ambos começam a se envolver. Até Grey revelar para Steele que ele tem uma gosto particular: tem uma tara danada por contratos!

Importante enfatizar: não importa o quanto lhe digam que este filme é sobre sexo BDSM (sadomasoquismo e outros comportamentos similares), não é não. O filme é sobre contratos. O MacGuffin do filme é um contrato. O personagens falam sobre o contrato o filme inteiro. Tem inclusive uma cena deles revisando contrato! Christian Grey é dominador, mas não por sua atividade sexual, e sim por que tudo que ele quer nessa vida é uma mulher que assine um contrato para ser submissa. Alguns chamam isso de casamento, mas para ele nem isso – é só requerimento mesmo.

Regra para trepar, regra para dormir, regra para tocar, regra para beber, regra para comer… O casal se conhece, troca uns beijos e lá vai ele, falando de contrato. Que mulher se daria a esse ridículo de discussão contratual antes de transar? Claro, como a moça é virgem ele a leva para cama “para se livrar disso logo”, mas depois já está falando de contrato. Pois Grey gosta de mulheres submissas na cama, ok, mas precisa… Assinar um contrato para isso? E Steele, realmente precisa revisar que tipo de acessórios e posições aceita? Não vai nem tentar antes não? Não, lá vão os dois revisar contrato sobre o que aceitam na cama.

Uma coisa é certa: o filme é bem filmado.

A questão inteira do filme gira em torno disso, ou seja, é um cão correndo atrás do próprio rabo. O enredo não vai para lugar algum, os personagens jamais são desenvolvidos, a coisa toda se encerrar simplesmente por que o roteiro cansou de argumentar consigo mesmo. E o sexo, filmado de forma limpa e o menos erótico possível, é apenas um engodo. Como aqueles blockbusters que tem cenas de ação casuais, “Cinquenta Tons de Cinza” tem cenas de sexo. Pois o que importa, mesmo, é discutir o contrato!

O filme é dirigido por Sam Taylor-Johnson, de “O Garoto de Liverpool”, que se esforça muito em filmar tudo de forma bela. Pontos para a produção, toda impecável (mesmo que um pouco clean demais), além de uma fotografia interessante. O problema é a história, que não sai da primeira marcha. “Cinquenta Tons de Cinza” poderia focar no tema do BDSM e desenvolver isso de maneira curiosa – ou ao menos erótica! – mas parece achar que sadomasoquistas só sem importam com regras. Afinal ser dominador na cama envolve a pessoa ser dominadora em todas as áreas da sua psique, né? Por favor… Christian Grey não passa de um jovem traumatizado que gosta de dar uns tapinhas na bunda. Isso não tem nada a ver com sexo sadomasoquista ou qualquer outra distinção.

Anastasia Steele é interpretada por Dakota Johnson, fazendo ao máximo para imitar a Alexis Bledel de “Gilmore Girls”. Apesar de fofa, a atriz não adiciona nada ao filme. Pior se sai Jamie Dornan como Christian Grey, uma porta que de vez em quando se abre para o nada – mas geralmente fica fechada mesmo. A química dos dois não funciona, não fica claro por que diabos um se interessou pelo outro (fora o fato dele ser milionário, será que Steele discutiria contratos sexuais com um pobre?) e nenhum dos atores parece interessado em fingir tesão no outro.

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