Review: “A Espiã Que Sabia de Menos” de Paul Feig

Paródias ao cinema de espionagem, geralmente focadas na franquia James Bond por ser a principal representação do gênero, são bastante comuns. Tendo a trilogia Austin Powers como a mais famosa, ou mesmo experiências estranhas como “Como Cães e Gatos”, mas nunca uma protagonizada por uma mulher. Filmes de espiões podem ter homens ou mesmo bichos de estimação, mas mulher fica relegada ao “interesse romântico” da história? “A Espiã que Sabia de Menos” – tradução exagerada de apenas “Spy” que faz referência ao filme “O Espião que Sabia Demais” – tenta corrigir isso.

A história abre com um espião charmoso à lá 007, que na verdade só é bom mesmo por que tem um fone no ouvido e permite a protagonista Susan Cooper dizer tudo que ele tem de fazer. Cooper é uma excelente espiã, mas sua baixa autoestima a coloca como uma agente presa no escritório. Após o vazamento da identidade dos principais espiões da CIA, Cooper se oferece para investigar o desaparecimento de uma bomba. Afinal ela nunca foi a campo, portanto jamais seria reconhecida.

O conceito simples serve apenas como estímulo para colocar a heroína em ação. Engana-se quem acha que “A Espiã que Sabia de Menos” faz jus a sua estranha tradução brasileira. Cooper não tem nada de “sabia de menos”, está mais para o “sabia de mais” mesmo! Boa de tiro e luta, também tem excelentes percepções para investigar o caso. A história, portanto, não é sobre uma heroína gordinha metendo-se em inúmeras confusões, ou qualquer idiotice desse rótulo Sessão da Tarde. Eis a jornada de uma mulher que não acha ser capaz, constantemente menosprezada por homens – que, inclusive, são menos competentes que ela! – mostrando seu real valor.

As duas estrelas do filme.

A vilã principal, assim como a melhor amiga de Cooper, entra nessa linha. Elas têm que demonstrar para alguma figura masculina que são mais do que eles a julgam. Existe um forte componente feminista em “A Espiã que Sabia de Menos” e isso eleva o filme acima da maioria das paródias do gênero. O roteiro poderia ter se perdido no clichê citado acima – agente gordinha metendo-se em trapalhadas por que é gordinha… e gordos são engraçados? – mas a narrativa tem algo a dizer. Cooper é uma excelente heroína que vai ganhando confiança conforme se coloca a prova e percebe que sim, é capaz de fazer o trabalho para qual ela treinou.

Se o filme não é hilário, tem boas tiradas de humor, principalmente nos diálogos. Não é uma comédia inteligente, digamos, mas nunca cai no ridículo. Quando as três principais personagens femininas estão interagindo, o filme é sensacional. Mérito das três atrizes que encarnaram bem seus estereótipos, mas souberam improvisar quando necessário. As cenas de ação, apesar de simples, são bem coreografadas e editadas. Principalmente uma luta que se passa em uma cozinha e tem elementos do cinema chinês. Imagine Jackie Chan lutando com uma frigideira, mas coloque a Sookie de “Gilmore Girls” no lugar dele.

O elenco é encabeçado por Melissa McCarthy, que desde que despontou em “Missão Madrinha de Casamento” (para o qual foi surpreendentemente indicada ao Oscar, com merecimento) tem se tornado a principal comediante de Hollywood. McCarthy geralmente fica presa a papéis similares, mas em casos como este aqui ela demonstra seu talento. Além de carismática, por seu jeito “pessoa comum” que uma Sandra Bullock da vida não tem, ela é ótima de improviso e sabe interagir muito bem com o restante do elenco. E sim, convence nas cenas de ação, como na supracitada luta na cozinha.

McCarthy é surpreendente convincente como heroína de ação.

Destaco o trabalho de Rose Byrne (também de “Missão Madrinha de Casamento”) como a excelente vilã jamesbondiana que fala todas suas ofensas maldosas sem mexer o rosto como se estivesse congelada pelo botox. Quando Byrne e McCarthy estão juntas a química é sensacional. Jason Statham também tem um bom personagem de humor, uma paródia do seu papel de Rambo moderno, mas burro de doer. Jude Law interpreta o 007 que dispara uma pistola ao espirrar. O resto do elenco conta com Miranda Hart, a sempre competente Allison Janey e Bobby Cannavale.

A direção é de Paul Feig, de “Missão Madrinha de Casamento” e do vindouro reboot de “Ghostbusters”. O roteiro é de sua autoria e ele merece aplausos por ter feito uma paródia com muitos elementos do cinema de espionagem, mas com uma temática feminista muito bem implantada.

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