Review: “Cinderela” de Kenneth Branagh

Remake da animação da Disney de 1950, que é uma adaptação do conto de Charles Perraut de 1697, por sua vez uma interpretação da história dos Irmãos Grimm chamada “Aschenputtel”, este novo “Cinderela” de novo não tem nada. Como essas credenciais acima revelam. Não só uma adaptação fiel ao já contado, a própria história já recebeu inúmeras interpretações, por vezes de humor ou modernizada. A trunfo de contar uma narrativa tão reciclada e antiquada, em tempos da própria Disney rompendo com padrões dos contos de fada, é tentar se manter honesto ao material.

Preciso narrar uma sinopse para “Cinderela”? Pois lá vai: Ella é uma moça humilde e feliz, que conversa com bichos e vive dançando e cantando com seus pais. Aí eles morrem e entra a Madrasta, que a coloca para ser criada de suas duas filhas mimadas. Ella nunca perde seu espírito resiliente, tentando seguir as palavras de sua mãe “seja corajosa, seja gentil”, mas às vezes fica difícil. Quando é chegada a hora delas irem ao baile real, onde as duas interesseiras querem se casar com o príncipe, mas Ella quer apenas encontrar seu amigo aprendiz (que é o príncipe), a heroína é impossibilitada pela Madrasta. Surge então a fada madrinha, que realiza todos os desejos da moça para poder ir ao baile, com direito a sapatilhas de cristal que são muito confortáveis – mas eu duvido que isso seja verdade.

Não há absolutamente nada de novo neste novo “Cinderela”, tão antiquado que poderia ter sido escrito no século XVII mesmo. O roteiro de Chris Weitz não trás nenhuma inovação a um dos contos de fada mais repetidos e simplistas de todos. Desde “Shrek” (2001) e sua revolução em focar a história, cheia de cinismo e ironia, no amor de dois ogros, o cinema parece ter tentado deixar para trás esses estereótipos atrasados, por vezes machistas. A própria Disney se esforçou nisso com “Frozen – Uma Aventura Congelante”, essencialmente a história de amor entre duas irmãs; ou “Malévola”, reinterpretação de “A Bela Adormecida” cuja reviravolta do “amor de beijo verdadeiro” é entre a heroína e sua figura materna.

A produção é caprichada na cena do baile.

Nesse espaço, onde se coloca “Cinderela” e seus sonhos de ir para o baile e conhecer o príncipe encantado e viver feliz para sempre? Em lugar algum! Príncipes encantados hoje em dia estão mais para vilões (“Shrek 2” ou “Frozen”) ou peças insignificantes ao enredo (“Malévola”). Mas esse novo conto tem um trunfo: a honestidade. Sem querer deixar de lado ideais românticos demais, mas sem entrar no cinismo moderno, “Cinderela” é absolutamente sincero em suas intenções antiquadas e se esforça em valorizar uma heroína corajosa e gentil. Sim, Cinderela tem seu final feliz com o príncipe encantado (spoiler alert?), mas não por mera sorte. Sua coragem e gentileza a exaltam perante outras figuras e isso é uma mensagem positiva a se passar. E o roteiro martela nessa mensagem como um prego a fincar em sua cabeça.

Funciona, o que é surpreendente. Mérito da direção de Keneth Branagh, culpado pelo primeiro filme “Thor”, mas também bastante ensaiado em inúmeras adaptações de Shakespeare. A produção aqui é estilosa, principalmente nos vestidos. Fiquei também encantado com o cenário do baile, é raro ver uma produção hoje em dia se esforçar dessa forma. A direção confia no roteiro, na personagem, no estilo estético. Parece segura. O que resulta em um filme sincero que sabe o quer dizer, e isso é algo muito positivo. Um porém: que trilha sonora insuportável! Parece que tem um coro sempre disposto a assinalar “Olha que momento mágico!!”

Cinderela é vivida por Lily James, de “Downton Abbey”, simpática e irradiante. Seu carisma carrega o filme, mas ela também dá conta das cenas mais dramáticas onde ela tem que mostrar a força da heroína em resistir às adversidades. O príncipe encantado é vivido por Richard Madden (“Game of Thrones”) e seu bizarro sorriso perfeito demais. Parece que acabou de sair do dentista, cruz credo! Seu personagem não tem característica alguma, fora ser maravilhoso, portanto não irá encantar ninguém hoje em dia. Um contraste estranho com uma Cinderela também perfeita, mas com sentimentos sombrios na superfície.

A Madrasta é Cate Blanchett, que parece estar se divertindo e esforçando em dar alma a uma personagem sem alma. Existe um quê de “por que a Madrasta é cruel?” que o roteiro tenta encaixar de maneira sutil, mas não funciona. Blanchett, ainda assim, está bastante confortável no papel da vilã com risada de bruxa. As duas irmãs são Sophie McShera e Holliday Grainger. A fada madrinha é Helena Bonham Carter que só aparece dez minutos e faz o mesmo tipo de sempre.

Anúncios
Esse post foi publicado em Filmes, Reviews e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Comente aqui...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s