Review: “Ex-Machina: Instinto Artificial” de Alex Garland

Um bom sci-fi conta uma história que vai além do apresentado. Afinal “Matrix” não era apenas um filme de ação sobre humanos enfrentando robôs, não é verdade? Mas poucos sci-fi vão aonde “Ex-Machina: Instinto Artificial” vai. Nem mesmo “Matrix”, apesar de ambos fazerem alegoria ao mito da caverna de Platão para discutir percepção de realidade através da tecnologia. Eis um filme que irá lhe fazer questionar muitas coisas, além de lhe deixar intrigado sobre os personagens durante toda sua duração.

O nome “ex machina” deriva da expressão grega “deus ex machina” (fãs do videogame “Deus Ex” a conhecem muito bem), que significa “deus vindo da máquina”. Significa um momento no teatro onde um ator vestido de deus aparecia vindo de uma maquina – geralmente um elevador – para trazer soluções aos personagens, geralmente pelo tal final feliz. Até hoje é um paradigma citado em roteiros, quando a trama parece estar presa a um nó e de repente a solução “cai do céu”. É um recurso preguiçoso, claro, mas funcional. E pode ser usado com teor filosófico.

“Ex-Machina” não trás soluções para questões, mas as propõe. O que é fascinante por si só. Existencialismo, relacionamentos, comportamentos, sexualidade e, principalmente, tecnologia. Tudo junto e misturado, representado na personagem Ava (Eva?) e suas indagações pertinentes. Ava é uma I.A. colocada em um teste que ela deve passar, para isso um programador é contratado para entrevistá-la e ver se ela passa no teste de Turing – quando uma pessoa não é capaz de identificar que uma inteligência artificial é inteligência artificial. Claro que o tal programador, Caleb, sabe que Ava é uma I.A., e ela também. Mas ele deve encontrar um caminho nela para descobrir se ela é capaz de enganar alguém que não sabe o que ela é.

Ava é criação de David, um misto de Steve Jobs e Jackson Pollock, ou mesmo Robert Oppenheimer, “o destruidor de mundos”, que busca criar a I.A. definitiva. Apesar de sci-fi, “Ex-Machina” não se passa no futuro. É uma realidade atual, principalmente na forma como a tecnologia é exposta. David explica que as expressões faciais de Ava foram todas programadas a partir de coleta de dados das conversas de celulares do planeta inteiro. Sim, uma realidade bastante atual. David, essencialmente, criou o “próximo passo na evolução”, se podemos tirar Darwin do naturalismo para o artificialismo, mas quer fazer testes para saber se Ava está pronta para o mundo. Ou se nós estamos prontos para ela.

A direção é estreia de Alex Garland (mais famoso como roteirista e escritor), que começou com uns dois pés direitos. Primeiro por ter escrito e construído uma história intrigante e reflexiva. E, segundo, por tê-la filmado de maneira elaborada. Não só por belos enquadramentos e sequências criativas, mas também pelo seu bom uso de cores para ilustrar uma narrativa que, por questões de cenário, é bastante cinza. Para os fãs de “Matrix” e seu uso da cor verde, eis um filme bastante RGB. E fascinante!

O elenco é composto por Domhall Gleeson, da série Harry Potter, e Oscar Isaac, de “Inside Llewyn Davis”. Os dois bem em seus papéis, mas a estrela é Alicia Vikander. Dizer que ela carrega o filme é pouco, ela simplesmente lhe dá vida! O que é bastante irônico em uma história sobre inteligência artificial e onde ela interpreta um robô. Seus maneirismos são muito bem articulados e suas expressões de uma precisão assustadora. Vikander não só convence como o mais evoluído dos robôs, como fará a plateia (assim como Caleb) se encantar com sua ingenuidade.

E sem entrar em spoilers, fique atendo para a cena final. Lembra do supracitado mito da caverna? Pois bem, atente-se às imagens finais. “Ex-Machina” não dá ponto sem nó.

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