Review: “Que Horas Ela Volta?” de Anna Muylaert

A relação do Brasil com as classes profissionais menos valorizadas sempre foi complicada, mas parece ter piorado de uns anos para cá. Seja no âmbito mais íntimo, como empregados domésticos, aos do cotidiano das cidades, como garis, parece que o “sistema de castas” foi abalado recentemente com a ascensão de de políticas governamentais que passaram a investir em parcelas desfavorecidas da população. “Que Horas Ela Volta?” é um filme que vai nessa ferida recentemente aberta, do conflito entre uma elite ainda não acostumada com as “classes baixas” tendo privilégios, e da ascensão de uma parte da população que começa a perceber seu espaço na sociedade.

O filme conta a história de Val, uma empregada doméstica que veio do nordeste para trabalhar em São Paulo em uma família de classe média alta, que a trata “como da família”, se “como da família” for definido a partir de “pode tirar os pratos, por favor”. Vai ver é o “por favor” que faz Val ser da família? As coisas mudam quando Jéssica, filha de Val que estava no nordeste, vem para São Paulo para prestar vestibular de arquitetura em uma prestigiada faculdade da cidade. “Nossa, esses país mudou mesmo”, choca-se a mãe da família, com a percepção desta classe C que quer ter ensino superior. Oh, a ousadia!!

A história tem dois pontos de vista, mas por motivos óbvios (de um roteiro escrito por ser humano) foca na perspectiva de Val e sua filha. As duas transcendem a questão social, não são apenas duas pessoas em uma posição específica na sociedade, mas mãe e filha tentando se entender. Val teve que abandonar a filha em sua cidade para cuidar do filho dos outros em outra cidade e esse conflito já é o suficiente para amarrar a história. Jéssica chamar a mãe pelo nome, pois não vê nela uma figura maternal, mas o arco das duas leva a um conflito bastante interessante de uma mãe que encontra um caminho para se redimir. Não que Val tenha “errado” ao deixar a filha para trás, mas ela se esforça em amarrar certos nós não dados.

Do outro ponto de vista temos a família de classe média alta, chocada com a ousadia de filha da empregada que pede para ficar no quarto de hóspedes – desocupado, diga-se de passagem. Cada um reage uma maneira. O filho visivelmente fica com ciúmes, afinal ele se porta mais como filho de Val do que da própria mãe. O pai fica encantado, dessa maneira curiosa quase científica, de ver em Jéssica como a possibilidade de algo diferente. Não necessariamente um diferente humano, mas para alienígena, mas visto como interessante. E a mãe fica em uma posição de agressividade passiva, de fingir que aceita sem aceitar aquela que é a família da mulher que é “como da família”.

O ensaio está feito para uma discussão oportuna neste momento: o conflito de classes em um país que finge não haver conflito de classes, mas “por favor pessoal pobre vem para shopping de rico não pois vocês não sabem se comportar”. Desde a PEC das empregadas – que garantiu a essas profissionais direitos que a maioria dos profissionais já tinham – aconteceu uma ruptura na percepção da elite que trata as domésticas “como da família”, mas continuam vendo elas como pessoas de um nível abaixo delas. Como se essa hierarquia social tivesse sido exposta quando profissionais desvalorizados passaram a perceber-se como valiosos. Quando aqueles que estão “abaixo” tivessem visto a possibilidade de ir para cima. E aqueles que estão “acima” ficaram incomodados com a expansão dos seus privilégios para aqueles que antes não tinham.

O Brasil mudou e “Que Horas Ela Volta?” é o primeiro filme a refletir pesado sobre isso. A direção de Anna Muylaert (de “É Proibido Fumar”) é sutil e delicada, levando uma discussão pesada para um caminho leve. O filme não é uma comédia, mesmo com momentos engraçados, mas evita criar conflitos dramáticos para tornar a mensagem mais assimilável para uma parcela da população mais alienada – e sim, estou falando da classe média mesmo. Mas as sutilezas permanecem. Quem quiser ver uma discussão profunda poderá arrancar isso da superfície e este é o grande mérito da direção.

O elenco é encabeçado por Regina Casé em uma atuação bastante impressionante em termos físicos. Seus trejeitos são marcantes e ela tem bons momentos para ser discreta onde o roteiro permitiria um pouco de exagero. E Casé é uma figura carismática, o que ajuda a carregar sua atuação rumo ao mesmo caminho da direção – leveza para dar um soco no estômago.

Destaque para Camila Márdila que interpreta Jéssica, com um força e segurança (que Val acha estranho, né?) condizente com o papel. Karina Teles interpreta a mãe de classe média classicista, evitando descambar para a vilania, dando um certo ar de insegurança nos momentos de raiva. Lourenço Mutarelli é o pai que produz o momento mais “vergonha alheia” de todo o filme. Michel Joelsas é o filho que tem uma relação carinhosa com Val, ao menos para pedir carinho.

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