A Link to the Past: “Gilmore Girls”

Um razoável sucesso do canal Warner da década de 2000, “Gilmore Girls” nunca foi além do seu nicho. Era menos assistido do que “Smalville”, um seriado que – sinceramente – ninguém sente falta. Comparado a eventos como “Friends” ou “Lost” então, ficava ainda menor. Se fosse um filme, seria considerado indie e ganharia prêmios em festivais. Mas como é seriado de televisão, nunca viu um Emmy na vida. Mas o tempo passou e a dupla de mãe e filha da fictícia Stars Hollow foi ganhando novos adeptos. O auge se deu com a introdução do seriado ao Netflix, que ajudou a reforçar o status clássico cult. Agora já existe até discussão para o seriado voltar!

Como isso aconteceu? De onde um seriado com público tão limitado, apesar de fiel, de repente cresce – e anos após seu término! Para tentar entender isso, voltei ao meu passado de fã. Adorava “Gilmore Girls” enquanto era exibido, tenho todos os DVDs, portanto aproveitei a celebração dos 15 anos da estreia para voltar a Stars Hollow e voltar a ouvir algumas mulheres falando muito rápido.

Uma coisa fica muito clara já no piloto: “Gilmore Girls” já nasce “Gilmore Girls”. Não é daqueles seriados que “foi se mostrando”, apesar de ter gilmorizado bastante com o tempo. Mas já de cara deixa bem claro seu humor sarcástico, referências inusitadas e boa dose de drama na relação de mães e filhas. Seja do ponto de vista Lorelai e Rory ou Emily e Lorelai. Ao longo da temporada, entre um ou outro episódio filler (sem grandes eventos ou evolução da trama), somos brindados com uma boa dose de drama. Se a história narrada do ponto de vista de Rory fica muito presa a problemas adolescentes, o seriado cresce quando a discussão se centra entre Lorelai e Emily, ou especificamente nas cicatrizes do passado das duas.

Talvez eu esteja ficando velho, mas francamente não tenho mais paciência para Tristan ficar de charminho com Rory nos corredores da escola – mesmo que a postura dela em relação a isso nunca caia no clichê do triângulo amoroso forçado. Mas as discussões de Lorelai e Emily simplesmente não envelhecem. Duas grandes atrizes (Lauren Graham e Kelly Bishop) dando conta dos incríveis diálogos da autora Amy Sherman-Palladino, criando uma surpreendente dose de maturidade para um seriado juvenil e leve. E “Gilmore Girls” é leve, com vontade, o que torna as cenas dramáticas mais fortes. É sempre bom ver rancores não resolvidos sendo discutidos, mas as triviais baboseiras sobre funeral de gato da vizinha tem seu charme. Em tempos onde tudo na televisão é sério demais (e eu adoro “Mad Men” ou “Breaking Bad”), algo como “Gilmore Girls” é uma bem-vinda dose de alegria.

Sem nunca cair nos clichês das sitcoms e suas situações forçadamente naturais (um paradoxo que nunca convence), “Gilmore Girls” faz rir com acidez do absurdo. Lorelai e Rory discutem filmes como duas amigas realmente poderiam discutir. Mas as citações dão um tom woodyallenesco nas mais convencionais das ocorrências. Quando como Luke entra na casa de Lorelai forçando a porta dos fundos e recebe um “você cedeu ao lado negro da Força”. É bobo, mas funciona. E se fosse somente bobo, não funcionaria tanto. Mas como o texto sabe mesclar os já mencionados bons diálogos de drama, funciona muito. E em certos momentos mais caprichados, o seriado sabe emplacar críticas sociais pertinentes, quando como Lorelai e Rory discutem o machismo do programa “The Donna Reed Show”. Quinze anos depois e as garotas Gilmore ainda são mais progressistas que a maioria!

E isso é uma vergonha, hein sociedade?

Então falamos de um seriado que consegue equilibrar muito bem sua dose de comédia e drama (por isso era chamado de “dramédia”) sem nunca escorregar nos clichês mais simplórios e maniqueístas. O que acaba reforçando por que “Gilmore Girls” acabou ganhando sobrevida após tanto tempo. Passaram-se 15 anos desta primeira temporada e fica claro que o texto não envelheceu. E poderia ter envelhecido, visto a enorme quantidade de referências a cultura pop que saem das bocas das Gilmore. Mas o texto vai muito além, sua força está em depender dos bons diálogos escritos por uma mulher para seu trio de protagonistas mulheres bem definidas interpretadas por boas atrizes, o que acaba resultando em cenas que simplesmente não deixam de ser atuais.

O que ajuda em uma revelação: “Gilmore Girls” era feminista e eu nunca tinha reparado nisso! Eis um seriado sobre mulheres – o que jamais deveria impedir um homem de se fascinar por este universo, a não ser que você odeie mulheres por motivos que só podem ser interpretados como misoginia. E apesar da televisão ter feito grandes avanços nesse aspecto, seja por uma Peggy Olson, pelas rainhas de “Game of Thrones” ou por qualquer coisa escrita por Shonda Rhimes, não existe neste momento algo particularmente tão feminino quanto “Gilmore Girls”. Ou mesmo “Desperate Housewives”, para lembrar de outro seriado do mesmo período. E, principalmente, feminino e leve, algo ainda mais raro. Pois às vezes fica difícil falar sobre mulheres sem falar sobre uma sociedade machista, mas é bom quando pode-se falar sobre questões femininas, do ponto de vista feminino, ao redor de bom humor e drama, sem martelar nenhuma questão política.

Talvez esteja aí uma grande força do texto de Amy Sherman-Palladino: é indiscutivelmente feminista, mas não é político. Construiu boas personagens mulheres, que estudam e trabalham e tem ambições particulares, que são bastante femininas e fúteis quando querem (e podem), não dependem de homem nenhum para nada (no máximo para ajudar a procurar um pintinho que desapareceu na sala). Às vezes isso é o suficiente para criar no espectador a ideia de boas personagens mulheres. E a televisão precisa muito disso.

Seria essa a resposta a minha introdução? Indiscutivelmente: sim. “Gilmore Girls” tem o reforço de simplesmente ser bom, com boas atrizes (já mencionei como Alexis Bledel é adoravelmente fofa nesta primeira temporada?), bom texto e uma boa dose de coadjuvantes memoráveis. Mas ao falar sobre mulheres de uma maneira tão simples e madura, o seriado ganha força com o tempo. Pois nunca irá haver falta de garotas ou mulheres, filhas ou mães, querendo assistir elas próprias sendo representadas na televisão. Ouviu, Hollywood? Dê mais oportunidades a elas. Pode não dar resultado imediato na audiência, mas existe a chance, quinze anos depois, de seu produto continuar marcando novas gerações.

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Uma resposta para A Link to the Past: “Gilmore Girls”

  1. "Ô FILMANTE" disse:

    Estamos começando com nosso singelo podcast, inicialmente com o drops, se puder ouvir e xingar, ia ser legal! =-)
    http://www.ofilmante.com.br/2015/10/24/drops-do-ofilmante-01/

    Curtir

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