Review: “007 contra Spectre” de Sam Mendes

Depois do estrondoso sucesso de “007 – Operação Skyfall” em 2012, que se tornou o filme de maior bilheteria da história da franquia cinquentona (mesmo atualizando os valores de acordo com a inflação), os produtores resolveram repetir o acerto para o 24º filme da série. Além de repetir Daniel Craig no papel, trouxeram de volta Sam Mendes na direção e apostaram em uma receita mais tradicional. “007 contra Spectre” não volta às origens da absurda da franquia dos tempos de “007 contra a Chantagem Atômica” ou “O Espião Que Me Amava”, mas também não volta ao padrão sério de “Cassino Royale” e “Quantum of Solace”. Está mais para um meio termo entre esses extremos.

“007 contra Spectre” começa com James Bond no México atrás de um alvo. A cena introdutória é muito bem filmada, com um interessante tracking shot inicial, seguida por uma boa luta dentro de um helicóptero com algumas tomadas áreas impressionantes. Pois passada essa introdução e a bela sequência musical desenhada por Daniel Kleinman (e arruinada pela música chata de Sam Smith), 007 vai atrás da viúva de seu alvo em Roma que o leva para investigar uma organização secreta misteriosa. Essa organização é a Spectre, famoso grupo terrorista presente nos primeiros filmes da franquia dos anos 1960, antes da EON Productions perder o direito à marca e botar James Bond para enfrentar vilões sem gatos persa no colo.

“007 contra Spectre” tem uma história simples, do herói indo atrás de pistas que levam a novas pistas que levam a novas pistas. A trama central, no final das contas, envolve muito mais o MI-6, com M, Moneypenny e Q tendo que impedir um tal de C de desmantelar o programa 00. Essa trama, apesar de fundamental, enrola a narrativa um pouco. Quando estamos acompanhando 007, é ação atrás de ação. Já o MI-6 fica mais preso a conversas que, apesar de serem o fio condutor que levará Bond ao clímax da história, seguem em ritmo lento. E os diálogos nem são tão interessantes assim – o que faria toda a diferença.

De qualquer forma, a história se desenvolve muito melhor do que em “Operação Skyfall”. Apesar dos personagens não serem tão interessantes e desenvolvidos quanto, incluindo o vilão principal, as cenas de ação são muito melhores e a narrativa segue um ritmo forte. Mesmo parando de vez em quando para a tal trama do MI-6. “007 contra Spectre” é ágil, mais divertido, não se leva tão a sério demais e acaba produzindo um bom filme de James Bond, mesmo que não seja um dos mais marcantes.

O filme é bem filmado, sem dúvida.

Sam Mendes volta à direção e produz uma sequência mais acertada que “Operação Skyfall”, pois aparenta estar produzindo o filme que ele pretendia fazer antes. “Spectre” é mais tradicional e leve, além de ser sensacionalmente bem filmado. Por outro lado, talvez irá marcar mais o público geral por não tentar arriscar com ideias diferentes. Será que as pessoas estavam com saudades de um Bond tradicional? Não sei. Mas as cenas de ação são ótimas, principalmente a introdução e o clímax, portanto Mendes parece ter ouvido estas críticas. E as cenas que mais me marcaram envolviam o vilão chefe da Spectre, Oberhauser. A primeira em uma reunião em Roma, onde ele quase não fala e tem uma presença imponente sentado atrás de uma mesa, cercado de suspense. Gostei também muito de sua “volta” no terceiro ato, já em seu covil megalomaníaco, quando ele sai das sombras (literalmente) em uma sala escura. Ambas cenas são editadas para criar a sensação de perigo por detrás dessa figura misteriosa, o que funciona.

Se a direção merece todos os elogios, o roteiro nem tanto. Roteirizado por Robert Wade e Neal Purvis (na franquia desde “O Amanhã Nunca Morre”) e John Logan (de “Operação Skyfall”), a história é bem articulada como mero argumento para a ação. Mas os personagens se perdem. Oberhauser, apesar da boa introdução, é desenvolvido como mero vilão que quer destruir Bond. Seus propósitos me pareceram fracos e ele quase não tem envolvimento com a trama do MI-6 (apesar de ser o articulador dela, mas nunca participa). E a Bond Girl central, Madeleine Swann, tem uma relação forçada com 007. Apesar dela ter tantas cenas quando Vesper Lynd (de “Cassino Royale”), o relacionamento dos dois nunca desenvolve uma progressão natural. Ao final do filme eles estão se amando, mas você não acredita nisso. Com Vesper foi real, com Swann foi imposto.

Achei interessante também a ideia da história em amarrar os filmes anteriores da Era Craig  à ameaça da Spectre. Pode parecer forçado – não deixa de ser – mas funciona. Acaba criando um tema central à narrativa, conforme o filme mostra ao deixar bem claro com o texto “Os mortos estão vivos” na tela. Os mortos se referem aos personagens anteriores, como Vesper, Le Chifre ou M. Estão mortos, mas continuam presentes na vida de Bond. É um conceito inédito na franquia.

Daniel Craig volta ao papel de 007 e o que mais você precisa saber? É o Daniel Craig de sempre, apesar de um pouco menos sensível e dramático. O filme não lhe proporciona oportunidades para fazer algo além de ser herói de ação. Cristoph Waltz é Oberhauser, um pouco subaproveitado (para um ator de dois Oscars), mas que consegue ser sutilmente ameaçador quando necessário. Gostaria de tê-lo visto mais excêntrico, mas dá para aceitar a proposta de um vilão menos Dr. Evil. Léa Seydoux é a Bond Girl principal, sem ter muito o que fazer. Pior se sair Monica Belucci, que tem uma aparição de cinco minutos e depois some completamente! Um desperdício de Belucci… Dave Bautista é o carismático Hinx e Andrew Scott o antipático C. De volta de “Operação Skyfall” temos Ralph Fiennes, Naomie Harris e Ben Whishaw como os icônicos M, Moneypenny e Q.

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