Review: “Perdido em Marte” de Ridley Scott

Assim que entramos em uma nova Era da exploração espacial, com agências de diversos países soltando inúmeras sondas pelo sistema solar e descobrindo cada vez mais sobre “o universo e tudo mais”, parece que Hollywood entrou nessa onda. Após “Gravidade”, passando por “Interestelar” e agora “Perdido em Marte”, o espaço sideral voltou a ser tema dramático. E, interessantemente, os três filmes abordam uma questão em comum: nossa capacidade de sobreviver. Seja sobreviver a uma onda de acidentes em órbita, à extinção de nossa espécie ou a possibilidade de resgate em Marte. O espaço é um lugar perigoso, mas Hollywood perdeu o medo da ciência.

Mark Watney é um arrogante e convencido botânico em Marte durante uma missão de uma série de outras missões de exploração do planeta vermelho chamada Ares III – em homenagem ao deus grego que na mitologia romana é representado por Marte. Após um acidente durante uma fuga de emergência, sua equipe o deixa para trás achando que ele está morto. Para o azar de Watney (convenhamos, é azar!) ele está vivinho em um planeta a 230 milhões de quilômetros. Sua única chance de sobreviver é esperar a próxima missão, Ares IV, que só pousará daqui a dois anos.

O filme, portanto, entra na onda MacGyver com nosso herói fazendo o possível para sobreviver na situação mais complicada para um ser humano desde que Sandra Bullock começou a flutuar em órbita. A narrativa segue inicialmente apenas Mark e seus planos inteligentes (todos bastante possíveis, segundo a própria NASA), para depois migrar para o ponto de vista dos funcionários da agência na Terra, que começam a monitorá-lo. E, mais tarde, um terceiro ponto de vista dos sobrevives de sua missão, no meio do caminho de volta para casa, ao descobrirem que seu companheiro não morreu.

Watney é um astronauta chato, arrogante e que solta frases de efeito bastante infantis. Mas sua jornada é interessante, ao menos pelo carisma de Matt Damon e do esforço dele em extravazar a força de vontade do personagem em não morrer. Mas o roteiro deixa bem claro que Watney não é um herói, pois não faz tudo apenas pela própria força de vontade. Sim, ele planta batatas sozinho, mas este é um plano apenas para sobreviver – e sobrevivente ele é! Sem o pessoal da NASA ajudando-o, sem sua equipe em plena rota tomando decisões em conjunto sobre o resgate, ele sequer conseguiria cogitar sair de Marte sozinho. E esse é o grande trunfo da história: é sobre sobrevivência, mas também sobre cooperação.

Como o filme deixa claro, o espaço não é território que pertence a nenhum país – é como navegar em águas internacionais. Eis um momento para o ser humano ser apenas humano, ao invés de americano ou brasileiro ou chinês. Não existe fronteira, não existe lei, não existe política. Existe apenas o esforço de pessoas em ajudarem uma à outra em situação de extrema necessidade. No final das contas, Mark nunca está sozinho, pois existem inúmeras fazendo o possível para estar ao seu lado – apesar dos 230 milhões de quilômetros de distância. Tem gente que não consegue ter empatia nem pelo morador do bairro ao lado, então esta é uma mensagem positiva.

“Perdido em Marte” é um bom filme de Ridley Scott, que estava tendo dificuldades de fazer um bom filme tem tempo. Apesar de não alcançar o top de linha de clássicos (também sci-fi) como “Alien” ou “Blade Runner”, é um belo salto em relação a “Prometheus” ou “Êxodo: Deuses e Reis”. A sua direção não está marcante, mas funcional. Remete um pouco ao que Ron Howard exercitou em “Apollo 13”. Uma história bem simples, bem explicada, que alterna entre o desespero claustrofóbico e o triunfo dos aplausos na sala de comando.

Diga-se de passagem, o filme é uma excelente homenagem a cientistas e ao intelecto, sem dúvida mostrando que esse pessoal que fica mandando sonda para cometa não está “jogando dinheiro” ao invés de “tentar olhar para os problemas da Terra”. Sim, tem gente passando fome na África, isso é horrível, mas desde quando uma coisa anula a outra? O avanço da ciência, a espacial inclusive, dá margem para o exercício do progresso perante tantas adversidades. É progresso é a base da esperança, não? Achar que podemos melhorar? Bom ver filmes como “Perdido em Marte” ou “Interestelar” sabendo valorizar esse bom trabalho de boas pessoas.

O elenco – e caramba, que elenco Scott reuniu! – é liderado por Matt Damon que, como já dito, está no auge de seu carisma. Aqui na Terra acompanhamos os excelentes Chiwetel Ejiofor, Jeff Daniels, Kristen Wiig e Sean Bean em inúmeras cenas de reunião conversando sobre o que fazer. É a hora de ator mostrar que sabe atuar quando tem a obrigação de transformar simples diálogos em momentos interessantes e, sim, todos eles sucedem nesse aspecto. E lá no espaço estão Jessica Chastain (meio que repetindo o papel de mulher durona de “Interestelar”), Michael Peña (carismático como sempre), Kate Mata e Sebastian Stan.

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