Review: “Os Oito Odiados” de Quentin Tarantino

Seguindo o sucesso de “Django Livre”, mas sem necessariamente realizar uma sequência, o oitavo filme de Quentin Tarantino é novamente um western que foge um pouco dos padrões dos tradicionais faroestes. Sem deserto, sem saloons, sem bandidos e mocinhos duelando. E trazendo novamente o conflito de raças do filme anterior para a mesa de discussão. “Os Oito Odiados” é o filme menos tradicional da filmografia do aclamado diretor que raramente faz filmes tradicionais, aqui repetindo um estilo similar a sua estreia “Cães de Aluguel” de 1992.

O filme começa com belas tomadas de cenários montanhosos do interior dos EUA, ao som da belíssima trilha do mestre Ennio Morricone. Somos introduzidos ao caçador de recompensas Marquis Warren, que encontre com outro caçador no meio da estrada, John Ruth, que está levando sua caça Daisy Domergue para o abate na próxima cidade. Os dois se juntam na carruagem e resolvem buscar abrigo a uma tempestade de neve em uma estalagem, onde outros personagens também estão ficando. E Ruth fica com uma suspeita: será que algum desses personagens está lá de emboscada para lhe roubar sua valiosa recompensa?

A história pode parecer ter uma sinopse simples, mas a estrutura é diferente. O filme é dividido em capítulos (técnica bastante comum para Tarantino). O primeiro é totalmente focado na introdução dos três protagonistas que se encontram na estrada e, só nisso aí, lá se vão 30 minutos. Até eles chegarem à estalagem são mais alguns muitos outros minutos e a história em si, com o mistério de “quem não é o que diz que é?” só dá seu pontapé inicial lá pelas 1h40 minutos de filme. Não estou exagerando. “Os Oito Odiados” se dá todo o tempo do mundo para introduzir seus personagens, correndo o risco de entediar o público no processo.

Tarantino não é de se preocupar em fazer filmes ágeis, mas seus filmes geralmente seguem uma estrutura ágil, mesmo quando não é linear – e ele raramente é. Isso se dá a seu esforço em narrar a história em peças bem definidas, com diálogos bem pontuados e sequências bem amarradas. É só pegar “Bastardos Inglórios” para ter um bom exemplo disso, na minha opinião seu filme melhor estruturado de todos. “Os Oito Odiados” foge disso, se amarrando mais como uma peça de teatro, totalmente focado em um único cenário e navegando pelas conversas dos personagens sem introduzir muitos conflitos. De vez em quando eles falam, de vez em quando eles atiram, e raramente algo acontece.

Para um filme de quase 3 horas de duração, foi um risco que não compensou. Os diálogos nem são tão bons assim, ao menos não para o padrão tarantinesco. E mesmo que o diretor tenha se esforçado no mise-en-scène mais elaborado de sua carreira – os enquadramentos e movimentos de câmera são incrivelmente bem realizados – só sobra isso. “Os Oito Odiados” é uma longa peça de teatro filmada por um grande diretor de cinema. Mas como filme, é bem fraco. A história anda a passos de tartaruga, o conflito central não estimula muito quando finalmente chega e a conclusão é bastante óbvia. Estamos em um western, adivinha o que acontece no final? Sim, bang bang.

Simbologia? Imagina…

O elenco é encabeçado por Samuel L. Jackson, parceiro de Tarantino, fazendo um protagonista pela primeira vez ao diretor. Kurt Russell é o outro caçador de recompensas que deve levar Jennifer Jason Leigh, excelente, para ser enforcada. O filme ainda conta com Walton Goggins, Demián Bichir, Tim Roth (muito bom), Michael Madsen e Bruce Dern. Todos estão competentes, o problema não está com eles. Nem com a temática do filme, que discute um pouco a questão de raças nos EUA pós-Guerra Civil e o ideal de justiçamento através da violência (repare como a primeira cena mostra um crucifixo). Veja só, dois temas bastante atuais! E sem dúvida um mestre roteirista como Tarantino seria capaz de explorá-los com competência. Mas, presos a uma história muito mal desenvolvida, não tiveram oportunidade nem de respirar. A “Os Oito Odiados” sobra apenas o mise-en-scène e um maravilhoso tema musical de Morricone. Sério, ouça esta maravilha aqui:

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