Review: “Ponte dos Espiões” de Steven Spielberg

Inspirado em uma história real que talvez você nunca tenha ouvido falar, “Ponte dos Espiões” é um tradicional thriller de heroísmo naqueles moldes que o diretor Steven Spielberg sabe fazer muito bem. Mas dessa vez ele mira na Guerra Fria, período de tensões políticas complexas com um mundo dividido em dois lados – com um certo Muro de Berlim bem no meio – onde cada parte tentava mostrar para a outra que seu ponto de vista era o correto. Como contar uma história de heroísmo em um período que não tinha lado certo? Simples: para de olhar para um lado da história e olhar para ambos.

Pode parecer piegas (e é, mas isso aqui é um filme do Spielberg afinal de contas), mas o foco da ideia é jogar fora essa mentalidade que fede à naftalina de “comunismo vs capitalismo” que já era baboseira nos anos 50, sei lá por que resolveram ressuscitar isso hoje em dia. A história mostra o advogado James Donovan sendo contratado para defender um homem acusado de ser espião soviético nos EUA. A condenação é certa, mas o advogado idealista aceita defender sob o princípio de que todo mundo merece uma defesa. Não, ele não acha que “bandido bom é bandido morto”, mas por isso que ele é o herói da história, sabe…

Donovan cria afeto pelo espião e se esforça em tirá-lo da pena de morte, sob argumento de que ele pode vir a ser um instrumento importante caso um espião americano seja pego pelos soviéticos e os países resolvam realizar uma troca. O destino concorda com advogado e, veja só, um espião americano é preso e condenado na União Soviética! Que coisa surpreendente, os dois lados da mesma moeda tem comportamentos iguais! Sim, é para refletir sobre a ironia mesmo.

Donovan, portanto, é chamado para a Berlim dividida bem no momento histórico em que o Muro está sendo erguido, para negociar uma troca. O filme, que inicialmente adota uma postura tradicional de casos de tribunais, com bons discursos do nosso herói idealista, depois passa para uma narrativa mais voltada ao thriller de espionagem. Com a direção de Steven Spielberg, você sabe que ambas perspectivas funcionam. Achei a história da troca mais tensa, mas os diálogos de tribunais e a busca por justiça no primeiro ato do filme são muito emocionantes também.

“Ponte dos Espiões” – que foi filmado na própria Ponte Glienick, onde a real troca entre o russo Abel e o americano Gary Powers aconteceu – quer e precisa discutir esse complicado período histórico. É muito fácil, para não dizer infantil, ficar brincando de “malditos comunistas” ou citando Karl Marx por que é isso é cult. A vida real é mais complicada. A Guerra Fria foi um duro conflito que deixou duas potências paranoicas com uma batalha que nunca se realizou – mas quase aconteceu várias vezes – portanto dividir um país como “lado de lá” e “lado de cá” nunca é uma boa atitude. Vide a Berlim nesse período chave, retratada sem pudores pela direção. Um lado vivendo no luxo como se a 2ª Guerra Mundial fosse uma recordação distante, o outro na miséria como se ela ainda acontecesse.

O filme é protagonizado por Tom Hanks, bancando o mesmo Tom Hanks de sempre, mas com um toque de Atticus Finch (antes dele virar racista). Mark Rylance vive o suposto espião russo Abel, em uma atuação impressionante que deixa um gostinho de quero mais – infelizmente ele desaparece quando o filme sai dos tribunais. Austin Stowell é o americano Gary Powers. Alan Alda e Amy Ryan fazem pequenas participações. “Ponte dos Espiões” é completamente carregado por Tom Hanks, mas agradeça mesmo à sempre competente direção de Spielberg, que aqui estava tão inspirado quanto em “Lincoln” ou “Munique” , reforçando que tramas históricas são tão seu forte quanto dinossauros e arqueólogos.

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