Review: “Spotlight – Segredos Revelados” de Tom McCarthy

“Spotlight – Segredos Revelados” não pode ser confundido com um filme sobre jornalismo. Apesar de haver semelhanças com o clássico “Todos os Homens do Presidente”, é na verdade um estudo sobre uma epidemia de acobertamento de casos de pedofilia por parte da Igreja Católica. A cobertura da equipe Spotlight do jornal norte-americano Boston Globe, que correu durante o ano de 2001 e foi publicada em 2002, revelou um escândalo que percorreu durante décadas durante a cidade e provocou um maremoto de revelações que se espalharam por todo o mundo.

O artigo original pode ser lido aqui.

Casos de pedofilia na Igreja não são novidades, nem mesmo para nós brasileiros. Mas a investigação que a equipe Spotlight fez foi mais do que descobrir que existiam padres que estupravam crianças. Foi investigar um sistema dentro da própria Igreja que abafava os casos, por meio de acordos judiciais, e revelar que até 60% da arquidiocese de Boston fora acusada de pedofilia. Não são casos isolados: é a esmagadora maioria de uma comunidade eclesial. E quando a Igreja não pune esses criminosos, apenas remaneja o padre e tenta esconder isso (chegando até a corromper o sistema judicial da cidade), isso transcende a mera impunidade. É uma manutenção de uma ordem de permissão do crime sexual.

Quando um artigo desses se espalha, ou quando ele inspira um livro ou filme, a história repercute e o assunto é discutido. Algo que, evidentemente, a Igreja faz questão que não seja feito. Como o filme revela, o arcebispo de Boston envolvido no caso, Bernard Francis Law, foi afastado do seu cargo para depois ser chamado pelo próprio Papa (!!), João Paulo II, para ser arcebispo da Basílica di Santa Maria Maggiore. Ou seja, recebeu uma promoção. Se nem esmo com escândalos assim sendo revelados a Igreja Católica se mobiliza para mudar o sistema, é por que ela própria parece estar de acordo com a possibilidade de padres abusarem sexualmente crianças. Novamente: não é apenas uma questão de impunidade, mas de convicta aceitação.

O filme é acertadíssimo em seu tom, sem nunca transformar em heróis os jornalistas, mas em humanos engajados em investigar um caso nojento. A direção de Tom McCarthy é ágil, mas dá tempo das atuações respirarem. Apesar de pouca variação de cenários, sabe sempre enquadrar alguma igreja no fundo em cenas externas. Deixando claro como a sombra da instituição paira sobre a cidade de Boston.

O elenco também é ótimo. Destaque especial para Mark Ruffalo e Liev Schreiber, bastante transformados em pessoas diferentes. O restante inclui Michael Keaton, Rachel McAdams, Brian d’Arcy James, John Slattery e Stanley Tucci. “Spotlight – Segredos Revelados” é um importantíssimo filme para relembrar um caso absurdo envolvendo uma das mais influentes instituições do mundo. E merece grandes elogios pelo seu esforço em focar no que importa: o acobertamento de abuso sexual contra crianças é vergonhoso e precisa ser discutido.

Anúncios
Esse post foi publicado em Filmes, Reviews e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Comente aqui...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s