O nascimento de uma nação anti-anti-racista

Saíram os indicados ao Oscar 2016 e de repente as pessoas repararam em uma detalhe: quanta gente branca, hein? Não demorou muitas horas para as redes sociais compartilharem a ideia de que, pelo segundo ano consecutivo, o Oscar falhou em incluir artistas negros em praticamente todas suas categorias principais. A discussão virou polêmica quando atores como Jada Pikett Smith e Will Smith e diretores como Spike Jonze posicionaram-se a favor de um boicote à premiação. E a polêmica virou tempestade quando a indicada a melhor atriz Charlotte Rampling fez um comentário ignorante dizendo que incluir mais negros nas indicações seria “racismo contra brancos”. Ela corrigiu seu discurso (considerou ter sido “mal interpretada“), mas agora já é tarde. Não importa quem ganhe o prêmio de melhor filme, a discussão sobre racismo já ganhou protagonismo na cerimônia.

A Academia apressou-se em mudar regras. Não é a primeira vez. Alguém lembra da polêmica de 2009, quando “Batman – O Cavaleiro das Trevas” não foi indicado, sob o argumento de preconceito do eleitorado por ele ser um blockbuster de super herói? A Academia reagiu. Mudou regras, adicionou mais vagas na categoria de melhor filme. Hoje “Mad Max: Estrada da Fúria” está lá. Não estaria se dependesse das regras antigas. E isso foi uma decisão sensata e inclusiva. Os resultados foram positivos para o próprio prêmio, que passou a incluir também mais filmes independentes.

Desta vez a Academia agiu com o intuito de incluir sangue novo no seu corpo votante. Quem for membro inativo (ou seja, não produz na indústria) nos últimos dez anos será excluído da votação do ano seguinte. Impossível discordar dessa atitude sensata que pretende mudar um eleitorado representado em 94% por homens brancos. É um caminho longo, mas terá reflexos no futuro. Não só para incluir negros, mas para incluir qualquer minoria não representada nessa balança desequilibrada até para os padrões de uma sociedade intrinsecamente racista.

Entra aí o outro lado da discussão: o racismo da indústria. Pois muitos viram, e concordaram com Charlotte Rampling, em uma discussão sobre “mérito” nas indicações. Ora bolas, e desde quando Oscar é sobre meritocracia? Sempre ganha o melhor? Sempre são indicados os cinco melhores? Seria isso subjetivo? E como ignorar o fato de que um eleitorado específico terá tendências óbvias de indicar filmes que atendem à sua visão de mundo? Insisto: impossível martelar na falácia da meritocracia em uma premiação que elege Matt Damon em “Perdido em Marte” como uma das melhores atuações do ano. E olha que eu gostei do filme e exaltei sua atuação! Mas não. Não é uma das melhores do ano não.

Meritocracia. Sei… Tô vendo…

Alguns meses atrás a Viola Davis ganhou um Emmy de melhor atriz em série dramática (a primeira negra a vencer na categoria!) pelo seu trabalho em “How to Get Away With Murder”. Seu discurso foi eloquente e belo: “a única coisa que separa mulheres de cor de todo o resto é oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy para papéis que não existem”. E os papeis não existem e, como Davis reforçou neste debate sobre o Oscar, as premiações simplesmente refletem isso. O discurso poderoso da atriz correu o mundo. E foi tão bem recebido que acredito ter sido capaz de trazer mais benefício pela causa do que qualquer coisa jamais dita sobre todos os colunistas da Folha. E sim, eu digo isso a partir da infeliz coluna “Vidas Negras” de João Pereira Coutinho.

Para Coutinho, não existe um problema de racismo contra negros nem no Oscar nem em Hollywood. Segundo ele, que cita uma matéria do The Economist, a parcela negra da população dos Estados Unidos é de 12,6%, enquanto que o número de indicados negros ao Oscar é de 10% ao longo da história. Logo, as estatísticas estariam comprovando que não existe segregação pois os números são próximos. Mas se o colunista repensasse as estatísticas veria que a diferença entre 10% e 12,6% não são míseros 2,6%. Mas 20,7% entre um e outro! Ou seja, do total da população negra norte-americana não é igualmente representada nos indicados ao Oscar nem em relação à própria população negra. E, se formos olhar para o espectro dos atores dentro de Hollywood, piora. Em um relatório sobre diversidade publicado ano passado pelo Centro de Estudos Afro-americanos da UCLA, enquanto minorias (negros, latinos, indígenas…) fazem parte de 37,4% da população dos Estados Unidos, somente 16,7% dos filmes são estrelados por eles. No que diz respeito a roteiristas, apenas 11,8% são minorias. E insisto: minorias! Se formos olhar apenas para a questão dos negros (o relatório não separa desta forma), podemos deduzir que os números ficam ainda menores que a representação dos tais 12,6% do população total dos Estados Unidos.

É o que Viola Davis disse: oportunidade. Se não existirem papeis para minorias, elas não podem ser indicadas. Mas o discurso de Pereira Coutinho, que passa por ironias sobre “para evitar qualquer discriminação, a Academia deveria indicar todos os atores que trabalharam no ano anterior” até a raspar no puro racismo ao brincar sobre black face, não vê falta de oportunidade se os dados indicam igualdade. Ou seja, ai ai ai da Academia incluir negros, pois fará os pobres atores brancos a serem obrigados a se fantasiarem de negros para trabalhar. Errr… Chega, né?

Chega.

O discurso vai de encontro ao tal “racismo contra brancos” que Rampling pregou – e corrigiu-se, não custa lembrar. Mas para a parte da população que acha que discussão sobre inclusão é “pensamento politicamente incorreto” e “imunes à realidade”, eu pergunto: realidade de quem? Dos 94% de homens brancos da Academia? Sim, para muita gente, discutir racismo é moralismo, liberalismo, progressismo, e isso tudo é errado. Chegamos ao discurso anti-anti-racista. Não basta não querer incluir, tem que desprezar as tentativas de inclusão. Como se os atores e diretores negros que estivessem reclamando da falta de visibilidade estivessem de “mimimi” e não devessem reclamar. Mas, novamente, quem tem interesse nisso mesmo?

Eu sou branco, logo não teria interesse algum em discutir sobre racismo por ele não me afetar diretamente – desculpe, Charlotte, mas isso que você acha que existe não existe, tá ok? Negros são os que tem maior interesse em discutir racismo, como qualquer outra minoria em discutir o seu próprio papel na sociedade que os exclui. Mas acredito que faça parte do convívio em sociedade entender o lado do outro, especialmente quando o outro é oprimido por algum desequilíbrio social. Não é preciso ser negro para tentar entender o descontentamento deles. Ou, pelo menos, não desprezá-los ao tentarem lutar por algo em próprio benefício. Simplesmente ouça a todas as Viola Davis por aí e tente entender o que estão falando. Se você é incapaz de ajudar, ao menos não atrapalhe.

Anúncios
Esse post foi publicado em Conversas, Feira da Semana e marcado , , . Guardar link permanente.

Comente aqui...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s