Review: “A Garota Dinamarquesa” de Tom Hooper

“A Garota Dinamarquesa” é um relato fictício da história real da artista transgênero Lili Elbe e sua esposa também artista Gerda Wegener. Originalmente casadas como marido e mulher, Lili (antes Einar) é uma das primeiras a passar pela cirurgia de troca de sexo no início do século XX. O filme infelizmente altera alguns detalhes da história das duas, sem necessidade, mas ainda assim serve como um belíssimo relato da jornada que uma pessoa transgênero passa até alcançar a aceitação de sua condição.

Einar e Gerda eram dois pintores (ele de paisagens, ela de retratos) casados e felizes. Mas Einar sempre sentiu “ter uma mulher dentro” dele e, durante uma brincadeira entre o casal, finalmente sente Lili brotar para fora. Gerda, inicialmente transtornada com a situação, apoia o marido incondicionalmente durante a dura transição. O filme, infelizmente, omite que Gerda era lésbica e continuou a ter uma relação homossexual e aberta após a troca do sexo de seu ex-marido. Por algum motivo, o roteiro parece interessado em transformá-la em um mártir, que se doa integralmente para esse grande amor.

Se essa decisão é consideravelmente discutível, o ponto de vista da narrativa merece elogios ainda assim. A humanização da relação das duas protagonistas é belíssima e a sinceridade com que o filme trata o dilema de Lili é tocante. Sem nunca cair para o completo melodrama, sempre dando asas à sutileza, em cenas que insinuam sentimentos ao invés de ficarem colocando o personagem para narrar o que sente. O ponto de vista da história quer enfatizar a luta pelo qual um transgênero precisa passar para aceitar a sua condição e romper com barreiras psicológicas. Não é uma situação fácil, algo que nenhum cisgênero deve ser capaz de entender, mas filmes como “A Garota Dinamarquesa” sem dúvida servem para ajudar nisso. Para os transgêneros o filme passa a ser um relato inclusivo, que expõe a questão que vem ganhando espaço merecido nas discussões sociais.

Dirigido por Tom Hooper, do oscarizado “O Discurso do Rei” e do insuportável musical “Os Miseráveis”. Hooper merece todos os elogios no esforço de dramatizar a situação da maneira tão humana. O filme é feito para fazer chorar? É, um tanto. Mas a cena final do filme me destruiu, com seu equilíbrio poderoso entre sentimentalismo e leveza. Não é comum fazer um elogio desses. Alguns enquadramentos, que parecem transformar a cena em uma pintura (algo apropriado, tendo em vista a profissão das duas protagonistas), são belíssimos. Fico imaginando como o filme poderia ter crescido se certos detalhes da história real tivessem sido incluídos. Tornariam a narrativa ainda mais complexa. Mas como o foco parece ter sido na sutileza, talvez a escolha tenha valido à pena.

Eddie Redmayne já ganhou um Oscar por transformar-se em Stephen Hawking em “A Teoria de Tudo” e aqui merece outro prêmio. Principalmente em se tratando de atuação inversa daquela, onde ele não se transforma em outro ser humano, mas cria maneirismos e sutilezas nos gestos (repare nas mãos, sempre) que são exemplares. Ao seu lado temos a também excelente Alicia Vikander, que já havia me arrebatado com “Ex-Machina: Instinto Artificial” e aqui carrega a personagem com a força necessária. Matthias Schoenaerts (de “Ferrugem e Osso”) vive um amigo bonzinho e Ben Whishaw (o Q da série 007) um interessado na bela Lili Elbe.

Um retrato real de Lili Elbe, pintado por Gerda Wegener de 1928.

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