Review: “Zootopia” de Byron Howard e Rich Moore

Não é de hoje que utilizamos de fábulas para contar histórias para nossas crianças. A ideia é colocar animais para representar figuras humanas que chegam a alguma lição de moral, algum ensinamento importante que dessa forma transmite-se com mais facilidade para a cabeça delas. Já no cinema, entretanto, as narrativas infantis (em especial da Disney) estavam mais acostumadas a interpretações de conto de fadas, geralmente com a mesma conclusão simplista e fantasiosa do “e viveram felizes para sempre…”

Os tempos mudaram e hoje está mais difícil enganar crianças de que a vida é tão simples assim. Foi a partir do domínio do estúdio Pixar nas animações modernas que as fábulas ganharam nova força. “Procurando Nemo”, “Ratatouille” e “Vida de Inseto”, voltaram a usar animais para contar uma história infantil com carga dramática adulta. E, claro, “Toy Story”, “Wall-E” ou “Monstros S.A.” também podem ser consideradas espécies de fábulas por antropomorfizar seres não humanos. De lá para cá as animações deixaram cada vez mais de estrelar princesas encantadas e a focar no aspecto humano daquilo que não é humano.

Eis que surge “Zootopia”, a mais fabulosa narrativa infantil desde “Babe – O Porquinho Atrapalhado” e sua sequência. Aqui conhecemos Judy Hopps, uma coelha que vive no campo e quer ir para a cidade ser policial. Coelhos nunca viram policiais, pois animais pequenos são tradicionalmente segregados a funções menos perigosas. Mas ela quer tentar ainda assim, se inscreve na Academia de Polícia e, com apoio de um prefeito que tem um plano de inclusão de mamíferos, se torna a primeiro coelho policial. Só que um empecilho surge: a sociedade.

Ideologicamente a cidade de Zootopia inclui a todos os animais, em suas inúmeras variedades. Mas a inclusão é meramente estética. Girafas convivem com panteras, não mais rivais desde que os bichos passaram a ser civilizados, mas isso não significa que ambos se misturam. Pois existe uma atividade própria para cada um. Ao encontrar uma raposa tentando comprar picolé em uma sorveteria de elefantes, Juddy intervém naquilo que a sociedade não permite.

Percebe-se claramente que “Zootopia” tem muito a dizer em forma de analogia sobre o mundo que vivemos. Sim, seres humanos são civilizados e aprenderam a conviver melhor com suas diferenças. Mas o quão profunda é essa inclusão? Todos os humanos respeitam os que não são como eles? As oportunidades são iguais? Podemos realmente ser aquilo que desejamos ser, ou será que o sistema não se impõe no caminho daqueles que tentam divergir do lugar comum? “Zootopia” tem muito a discutir sobre isso, além de usar uma boa reviravolta para discutir segregação entre seres “diferentes” por “questões biológicas”. A história é profunda e não é aquilo que aparenta ser.

Mas é uma fábula. Para crianças, a mensagem será transmitida da maneira mais otimista possível, mesmo que não escorregue no absurdo do “foram felizes para sempre…” De qualquer forma, as crianças irão se divertir. E os adultos também. Os momentos de ação e comédia são ótimos. A sequência envolvendo preguiças é absolutamente hilária! A direção é de Byron Howard (“Enrolados”) e Rich Moore (“Detona Ralph”), que souberam contar muito bem uma história complexa através da fábula. “Zootopia” é um filme importante para crianças, pois ensina uma mensagem positiva. Mas também para adultos, pois nos ajuda a refletir sobre um mundo real. Méritos também da Disney por finalmente sair do seu lugar comum.

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