Review: “Batman vs Superman: A Origem da Justiça”, Edição Definitiva

Lançado com uma enorme expectativa e o peso de atender à demanda de criação de um Universo Cinematográfico DC, à lá Marvel, “Batman vs Superman” não deu conta da pressão. Com uma média horrorosa de 27% no Rotten Tomates, que virou um hilário meme após uma entrevista com Ben Affleck, a cara produção até teve um começo promissor nas bilheterias… Antes de despencar no boca a boca negativo. E o resultado final terminou nas seus números globais em US$ 872 milhões – resultado incrível para praticamente qualquer filme, menos um estrelado por Batman, Superman e a Mulher Maravilha!

O que deu errado? No meu review da versão de cinema critiquei muito o primeiro e segundo ato do filme e como a história era absurdamente confusa. Seria culpa da edição? Tudo indicava que sim, ao menos foi essa minha percepção. Agora chega ao mercado home video a chamada “Edição Definitiva” da produção, com 30 minutos de cenas adicionais. Seria este “corte do diretor” capaz de salvar o filme?

O texto abaixo, evidentemente, contém spoilers!

O início do filme (cena de créditos e prólogo) segue sem grandes alterações. O ataque a Metrópolis inclui um pequeno momento com crianças de uma escola saindo dos destroços, que serve para reforçar o elemento pessoal da tragédia, mas é um momento de segundos que não muda o ritmo da cena. As coisas realmente se alteram a partir da sequência da África, de longe a trama que mais impactou a edição definitiva. Uma revelação importante é feita aqui: o fotógrafo infiltrado da CIA, morto na frente de Lois Lane, de fato é Jimmy Olsen como muitos deduziram.

Oi Jimmy, adeus Jimmy.

A sequência mostra mais detalhes da influência da CIA no evento, que termina com Superman explodindo um drone e seu míssil, antes que isso causasse a destruição da vila inteira. Existe também um violento momento onde o mercenário russo contratado por Lex Luthor mata moradores da vila e queima seus cadáveres. Estes elementos deixam claro a influência do vilão para tentar criminalizar as ações de Superman no evento, um fator importante para o conflito central da trama – de que certas pessoas veem o herói como uma possível ameaça que deve ser controlada. A exclusão desses elementos prejudica fortemente o 1º ato. No cinema fica a impressão de que políticos simplesmente querem impedir que Superman possa provocar danos colaterais em suas ações. Aqui fica claro que eles temem suas ações, a partir de uma manipulação provocada por Luthor.

A próxima adição é um interessante momento na introdução ao Batman no filme. Curiosidade: no corte de cinema, essa sequência só aparece mais tarde, mas aqui foi adiantada. Antes dos policiais aparecerem na casa onde Batman caçava criminosos, vemos os dois sentados em sua viatura, assistindo a um jogo de futebol americano. Ambos ignoram os chamados no rádio para atenderem a uma suspeita de crime. Isso serve para estabelecer a necessidade do Batman, já que a polícia de Gotham visivelmente não está muito preocupada com a segurança de seus cidadãos. No corte de cinema os policiais simplesmente aparecem na cena. Outra curiosidade: temos a adição de uma establishing shot que destaca um outdoor com o texto “The end is nigh” (o fim está próximo), clara referência à graphic novel “Watchmen”, cuja adaptação cinematográfica foi dirigida pelo mesmo Zack Snyder – e que divide alguns temas pessimistas em comum com “Batman vs Superman”.

Depois temos a cena de interação entre Lois Lane e Clark em seu apartamento. Um breve momento dela desfazendo a mala da viagem, com um detalhe sangrento para uma de suas peças (sim, este corte reforça a violência das cenas de maneira evidente). E na cena da banheira em si temos um pouco mais de carinho explícito entre o casual, mas nada realmente “para maiores”. Depois somos introduzidos a Lex Luthor, com algumas novas linhas de diálogo desenvolvendo seu relacionamento com o pai, mas nada significativo.

A sequência de Clark Kent assistindo à televisão foi severamente alterada. No cinema ele assiste a uma notícia sobre como Batman “marca” os criminosos que prende e que isso vira uma “sentença de morte” na prisão. Esse importante elemento, inclusive, será melhor desenvolvido mais tarde na edição definitiva. Por hora, Clark assiste a uma moça africana relatando para repórteres sobre o fato de Superman não ter salvo pessoas em sua vila, no início da história. Superman não sabia que pessoas corriam risco, pois elas foram mortas pelos mercenários de Luthor. Mas a imprensa pinta uma imagem muito mais negativa do herói e, claro, isso o afeta. Novamente a edição definitiva deixa claro por que Superman se sente injustiçado apesar de estar salvando pessoas, uma questão que o corte de cinema simplesmente ignorou. A frase da mulher, “quem ele decide que sobrevive e quem não” deixa bem mais claro o dilema do personagem.

A partir desse conflito, Clark vai para Gotham para uma matéria a pedido do seu editor Perry White, mas acaba procurando a moça que falou mal dele na televisão. Ao não encontrá-la, seus vizinhos relatam a respeito do Batman e como ele marca os criminosos que captura. A partir daí Clark Kent passa a investigar mais a respeito do vigilante. Outra investigação paralela ocorre com Lois Lane, que quer saber a origem da bala que ela encontrou em sua agenda. No corte de cinema sua investigação aparenta ser mera curiosidade: que suspeita Lois pode ter de uma bala em uma zona de conflito? Na edição definitiva ela suspeita dos mercenários pois sabe da operação da CIA e viu o que aconteceu com o vilarejo após ela ser resgatada por Superman. Tanto Lois quanto Clark tiveram suas tramas centrais completamente rebaixadas no corte do cinema, o que tornou o propósito deles um tanto confuso. “Batman vs Superman” aparentava ser um filme do Batman no cinema, com Superman e Lois Lane apenas tendo cenas que não se amarravam no conflito. Na edição definitiva fica bem claro o papel deles no arco inteiro. Mudando completamente a participação de duas figuras centrais na trama.

Outra adição que altera bastante a estrutura da história: Clark Kent recebe um convite para cobrir a festa de Lex Luthor. Um convite que não estava presente no corte original. Kent simplesmente aparecia e confrontava Bruce Wayne. Mas por que ele estava lá? Agora sabemos! E as intenções de Lex Luthor ficam mais claras a partir do diálogo que ele tem com os dois. A conversa de Luthor com a senadora Finch tem algumas simples alterações, assim como a cena após o primeiro pesadelo de Bruce, com ele acordando. E temos uma nova sequência de Clark ligando para sua mãe, ponderando a respeito do seu passado. Um breve momento interessante, que serve para desenvolver melhor o personagem, mas nada drástico.

Continua uma cena desnecessária.

E mais cenas inéditas que desenvolvem a trama de Clark e Lois: uma dela investigando a bala, com participação da atriz Jena Malone como uma cientista; e dele investigando um criminoso preso por Batman que foi assassinado na prisão. Aqui aprendemos que não é uma ordem do Batman que os criminosos que ele marca sejam mortos, mas sim tudo parte – novamente – na tramoia de Lex Luthor em vender o herói como um vigilante cruel. Depois vemos um cameo do apresentador Jon Stewart, ironizando que o Superman não se considera um “símbolo norte-americano”. Essas novas adições de intervenções da mídia na desconstrução do mito – ou simples propaganda negativa – são ótimas para aprofundar o universo que estamos sendo introduzidos. E parecem ser inspiradas na mesma linha narrativa que Frank Miller usou em seu clássico “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. São bem interessantes.

Antes da reviravolta na climática cena do Capitólio, vemos algumas pontas sendo amarradas – onde no corte do cinema elas mantiveram-se completamente soltas. Primeiro vemos Clark conversando com a família do criminosos preso por Batman que foi assassinado na prisão, com sua mulher reclamando que “palavras” não podem impedir um vigilante. E depois vemos a mulher africana que incriminou o Superman no Senado se arrependendo e tentando explicar a verdade para a senadora Finch, para depois ser assassinada pelo mercenário russo de Luthor. Após a explosão do Capitólio, vemos Superman resgatando alguns sobreviventes, enquanto troca um olhar de desespero para Lois. É uma importante cena para desenvolver o personagem e reforça seu conflito interno de maneira que, no cinema, não dava nem para deduzir!

Sad Cavill

Entramos no 2º ato e as coisas passam a mudar um pouco menos. O foco da edição definitiva está no primeiro ato, que agora pega metade de toda a duração das exatas 3 horas do filme. Vemos algumas detalhes envolvendo a relação de Alfred e Bruce, mas nada de demais. E Lois Lane investigando o apartamento do homem que explodiu o Capitólio e percebendo melhor como funcionou a armadilha de Luthor. Um detalhe interessante na trama dela, já que a partir daqui simplesmente perdia o foco na versão cinematográfica e parecia ser inconclusiva. Vemos também Clark no exílio subindo rumo à montanha, com um morador local insinuando que ele está indo se suicidar. Êta filme alegre, hein?! E o conflito climático entre Batman e Superman recebe um soco ou outro novo, mas não espere muito mais ação por conta disso.

O começo do 3º ato é bastante focado no Batman e a cena em que ele vai ao resgate de Martha Kent é severamente mais violento. Sério, isso aqui não é o tipo de luta que você esperaria ver em um filme de heróis desses! E depois que ela é resgatada vemos uma nova cena da Batnave com Martha dando tchauzinho para ela. A luta contra Apocalipse segue virtualmente idêntica, fora alguns socos novos da Mulher Maravilha, e vemos um momento final de Lex Luthor conversando com um alienígena na nave kriptoniana. Ou seja, outro tease para o filme “Liga da Justiça” a ser lançado em 2017. Mas, diferente da infame cena de Diana assistindo aos vídeos no laptop, essa aqui ao menos serve para encerrar melhor o arco do vilão. E por fim temos o epílogo – ou 4º ato, se você quiser chamar assim – que mostra um pouco da cidade de Metrópolis de luto pela morte de Superman e o pessoal do Planeta Diário indo ao funeral de Clark Kent. E na sequência final entre Batman e Luthor, o Homem Morcego informa que o bilionário irá direto para o Asilo Arkham, encontrar alguns “conhecidos” dele.

Por fim, esta “Edição Definitiva” vai mudar a opinião de alguém? Não creio. Mas revela um filme que merece mais do que virar um meme ao som de Simon & Garfunkel. Ou seja, sem dúvida é uma edição definitiva. Mas isso só serve para enfatizar o quão descartável foi a versão que chegou aos cinemas. O que aconteceu? Mera intervenção do estúdio? Sim, a Warner provavelmente não quis colocar um longa de 3 horas nos cinemas, por medo de assustar o público. E acabou colocando uma bagunça de 2h30 que assustou de qualquer forma. Foi um decisão incrivelmente mal pensada.

Mas não quero inocentar o diretor Zack Snyder de suas decisões. Verdade seja dita: “Batman vs Superman” não precisa ser um filme de três horas! Os 30 minutos que aqui foram adicionados fizeram boa diferença – em especial ao 1º ato, que acabou virando uma história interessante. Mas a produção ainda tem problemas. A Mulher Maravilha, por mais legal que seus cinco minutos sejam no clímax, não adiciona nada a trama. Assim como as sequências introduzindo a Liga da Justiça e as cenas de pesadelo. A reviravolta envolvendo o nome Martha é uma boa ideia no papel, mas execução falhou – e acabou virando meme também! E nada na edição definitiva fez diferença nesse aspecto. Sim, o conflito inicial entre Batman e Superman tem muito mais sentido. Mas como eles resolvem a briga continuou forçado e abrupto.

“Batman vs Superman: A Origem da Justiça” ganhou uma edição digna que é aquela que deverá ser assistida por quem tem interesse de agora em diante. Mas para qualquer um que esteja com preguiça de assistir um depressivo conflito entre heróis com três horas de duração, esta “Edição Definitiva” ainda mostra um filme pouco impressionante.

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