Review: “Juventudes Roubadas” de James Kent

Inspirado nas memórias de uma sobrevivente da 1ª Guerra Mundial, “Juventudes Roubadas” é uma adaptação de um livro nunca publicado no Brasil, mas considerado um dos mais importantes relatos do conflito. Intitulado “Testament of Youth”, que pode ser traduzido para “Testemunho da Juventude” ou “Testamento da Juventude”, mas a narrativa realista focada nas perdas da chamada “geração perdida” parece ressaltar mesmo no aspecto “testamento”. Assim como o livro, o filme é pesado e mostra uma 1ª Guerra Mundial que estamos pouco acostumados a ver.

Vera Mary Brittain é uma adolescente de classe alta do interior da Inglaterra, que tem fortes intenções de ir estudar em Oxford e, quem sabe, se juntar ao movimento sufragista. Seus pais são contra, afinal estamos em 1914, o propósito de uma mulher deveria ser ficar em casa para achar um homem. Mas Brittain se inspira no irmão e seu amigo de infância, ambos estudantes de Oxford, e não tem pretensões românticas. Até conhecer outro amigo, Roland, um sensível poeta. Os dois se apaixonam, mas o romance é interrompido pelo estouro da Grande Guerra. Todos os homens da idade de Brittain se alistam, com a expectativa de ser um conflito curto e sem grandes consequências.

Pouco se fala da 1ª Guerra, pois, do ponto de vista dramático, ela foi menos chocante do que a 2ª Guerra que aconteceu vinte anos depois. É uma comparação injusta. O que aconteceu nos anos 1940 foi, talvez, o pior momento da história da humanidade. Mas o grande conflito que o sucedeu (e, historicamente, foi a semente de sua origem) foi até então o maior conflito armado da modernidade. E um verdadeiro choque para uma geração de jovens que nunca havia vivido uma guerra. Para eles, conflitos se resolviam calmamente nas trincheiras. A 1ª Guerra tirou a vida de dezenas de milhares de europeus diariamente. A consequência – para a tal “geração perdida” – foi o surgimento de um mundo sem possibilidades de perspectivas positivas. Como se segue em frente após o ocorrido? Nasceu ali o século XX.

“Juventudes Roubadas” é um relato bastante sóbrio dessa época. É todo narrado do ponto de vista de Very Brittain (estonteantemente interpretada pela ótima Alicia Vikander), com algumas poucas imagens – por vezes poéticas – de seus colegas no front, mas apenas imaginações da cabeça dela. Não é uma história fácil de digerir. O filme foca completamente nas perdas. E como você narra um conflito desses e tira alguma conclusão otimista? Principalmente com o que se sucedeu na Europa após ele? A humanidade parece não ter aprendido muita coisa com a 1ª Guerra Mundial e, sinceramente, às vezes até os ensinamentos da 2ª Guerra Mundial tem a tendência de serem suplantados por ideologias separatistas e preconceituosas. Mais de 19 milhões de vidas foram tiradas, entre civis e militares, no período entre 1914 e 1917. Não tem como fazer um “testemunho” desse período. Só sobra o “testamento” mesmo.

O filme é dirigido por James Kent, cuja maioria do currículo engloba a televisão. Sua direção parece buscar enquadramentos belos e poéticos para refletir todo o terror que cerca a narrativa. Sua direção não leva o filme a lugar nenhum, o mérito maior talvez seja do roteiro de Juliette Towhidi ou do elogiado livro de Very Brittain. Ter Alicia Vikander no centro disso tudo, claro, ajuda muito. Seu principal companheiro de tela, Kit Harrington (o Jon Snow de “Game of Thrones”) é de uma assustadora limitação. Ou ele fica sério ou sorri. E assim se encerram todas as nuances de seu desempenho. Melhor se sai o carismático Taron Egerton como o simpático irmão de Vera. O resto do elenco conta com Colin Morgan, Dominic West, Emily Watson, Miranda Richardson e Hayley Atwell.

Como um relato desse trágico período pouco retratado nas mídias audiovisuais, “Juventudes Roubadas” é uma boa aula de história. Talvez não seja exatamente um filme bom como tantos outros sobre a 2ª Guerra Mundial. Mas não menospreze a capacidade de uma narrativa sóbria sobre um terrível período da humanidade para lhe comover profundamente. Nesse aspecto, o “testamento” que fica é um grande ensinamento. Que possamos aprender o máximo com as perdas daquela geração.

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