Um “Pokémon Go” incomoda muita gente…

Não é a primeira vez nem será a última. Mas a última novidade tecnológica da vez está fazendo sucesso. Oh, a humanidade! Não há nenhuma novidade nisso, mas como jogo de celular mais popular de todos os tempos e febre pop, “Pokémon Go” se tornou o novo “isso é o que há de errado com o mundo” da vez. Não é nem a primeira vez que Pokémon é recebe esse rótulo infame. No final dos anos 90, a febre dos jogos de Game Boy e anime foi a mesma. A preocupação também. Passaram-se lá uns vinte anos e os pequenos monstros da Nintendo se tornam alvo de outra polêmica. Por que diabos “Pokémon Go” faz sucesso? Ou melhor, a pergunta deveria ser: Por que não deveria fazer?

O elefante na sala.

Importante deixar claro logo de cara: não jogo “Pokémon Go”. Na verdade não jogo nem Pokémon direito. Dos clássicos de Game Boy as novidades de 3DS, nunca me interessei na série. No máximo naquele clone de “Candy Crush Saga”, o “Pokémon Shuffle”, que realmente conseguiu captar minha atenção. Portanto esta não é uma análise do mérito do sucesso do jogo, pois não tenho como avaliá-lo como jogo em si. Mas a questão que permanece é: por que “Pokémon Go” não pode fazer sucesso?

A ideia, em si, não me parece ofensiva. Você anda por aí com seu celular caçando os monstrinhos nas ruas da sua cidade. Existe lá um risco de assalto, claro, mas até aí a culpa são dos responsáveis pela segurança pública. Culpar “Pokémon Go” ou seus usuários pelo aumento dos roubos de celular é um dos argumentos mais insensatos que se pode ter nessa polêmica toda. Mas, fora isso, não há mal nenhum em um jogo que coloque a pessoa para andar pelas ruas atrás de seres virtuais. Em tempos de avanço das tecnologias de realidade virtual, “Pokémon Go” parece até um retrocesso rumo ao conceito de realidade aumentada. Mas funciona muito bem, exatamente por que coloca a pessoa para interagir nas ruas. Não é um óculos moderno que lhe isola dentro de uma caixa. Existe uma certa liberdade em “Pokémon Go” que poucos jogos parecem capazes de arriscar. E foi isso que encantou seus fãs.

E a ideia não é nova – a Niantic Labs, desenvolvedora do jogo, já havia brincado com o conceito em “Ingress”. Mas a já estabelecida popularidade da franquia da Nintendo, somada a uma ideia interessante, mesmo que não inovadora, produziu uma revolução. Não apenas um sucesso comercial, mas um verdadeiro fenômeno cultural. Quando saiu no Brasil, o tradicional jornal Folha de São Paulo fez uma matéria convidando seus leitores a relatar seus “encontros” com Pokémon. Claro, uma chamada digna de fim de jornalismo (a Folha não está passando por um bom momento mesmo), mas serve para mostrar o impacto.

Pessoas na rua? Bando de alienados!

E, como tudo que faz sucesso, surgem os detratores. Ai ai ai de algo fazer sucesso, não pode, deve ser ruim! Isso fica evidente desde ondas de gêneros musicais (sertanejo universitário, axé, funk carioca, só para ficar aqui no Brasil), mas cria um ar transcendental quando envolve algum avanço tecnológico. Vivemos em tempos que as pessoas não tiram os olhos dos celulares para conversar no WhatsApp ou postar no Facebook, mas parece que foi “Pokémon Go” a gota d’água para a revolução dos oprimidos tecnológicos – evidentemente extravasando sua raiva pelo WhatsApp ou Facebook. Ironicamente, o jogo recebeu algumas notas positivas envolvendo jogadores que se sentiram estimulados a sair de casa apesar de sofrerem depressão. O Facebook faz isso? Não, mas ai ai ai de Pokémon combater depressão, não pode!

E, aparentemente, alguns detratores argumentam que ser contra um fenômeno tecnológico não equivale a ser contra todos os avanços tecnológicos. Claro, mas essa história é velha, não? Quando WhatsApp ou Facebook surgiram, muitos torceram o nariz. Ou a própria Internet, antes deles. Acusava-se a internet de alienar as crianças que iriam crescer com ela (ou com Pokémon, ambas dividiram essa atenção nos anos 90). Cá estamos e as crianças da internet se tornaram adultos que, ok, talvez estejam presas demais aos seus computadores e redes sociais. Mas da mesma forma que as crianças dos anos 60 cresceram presas demais à televisão. Ou as crianças dos anos 30 com seus aparelhos de rádio. A questão é: a tecnologia surge, os conservadores da época torcem o nariz – pois ai ai ai da humanidade querer tentar algo novo – e as crianças da novidade crescem e se tornam adultos a reclamar da próxima novidade.

Antes de Pokémon Go as pessoas não olhavam para o celular!

E “Pokémon Go” não é apenas uma tecnologia, mas como videogame também tem o mérito artístico. E, claro, será desprezado em igual força. Quando a arte é associada a alguma inovação técnica, automaticamente a tal técnica se torna um demérito, pois “não é arte de verdade”. Os próprios videogames sofrem ainda esse tipo de preconceito, mas essa barreira está sendo vencida aos poucos. Assim como as histórias em quadrinhos superaram esse perfil e a televisão também – que em tempos de Netflix parece ser mais louvada que o próprio cinema! E a tal de Sétima Arte? Oras, claro que já teve quem acusou ela de “não ser arte”. Chaplin já foi esnobado com a mesma força que “Pokémon Go”. Sim, estou comparando Pikachu com Carlitos! Só para enfatizar que o esnobe de hoje repete o discurso do mesmo ignorante que achava que Charlie Chaplin não estava fazendo arte.

Voltando a pergunta do parágrafo inicial: Por que “Pokémon Go” não pode fazer sucesso? Assim como vários fenômenos anteriores, a humanidade sobreviveu. Talvez o fenômeno em si não tenha passado de mera febre – lembra quando achavam que os Jonas Brothers eram os novos Beatles? – mas Pokémon em si já mostrou que tem força para resistência cultural. “Pokémon Go” parece apenas um mero capítulo novo de uma marca já enraizada em nossa cultura popular. E a inovação tecnológica presente na febre parece garantir que este episódio em si será tão influente quanto os primeiros jogos. E qual o problema disso? Qual o problema de algo fazer sucesso? Qual o problema de alguém se divertir com algo que lhe diverte? Muitos adultos se contorcem com a possibilidade das turbas que se unem nas praças estarem “jogando um jogo”, como se isso fosse sintoma para uma infantilidade reprimida. Mas adulto não pode jogar Pokémon? Ou videogame? E pôquer? Pôquer pode? Jogos fazem parte da vida adulta e um jogo que coloca as pessoas para interagirem socialmente me parece tão saudável quanto chamar amigos para jogar cartas em um final de dia.

Adultos não brincam!

Mas “Pokémon Go” incomoda muita gente e as argumentações são diversas. O problema, entretanto, parece ser no incômodo, e não na argumentação. Não é a primeira vez que algo diferente faz um estrondoso sucesso e causa um certo movimento reacionário a partir dele. Mas tamanha polêmica nos coloca para refletir, novamente, por que o ser humano é sempre tão indisposto a receber o novo. Tudo aquilo que hoje é próprio a nossa cultura, antes foi novidade para alguém. Portanto, insisto: qual o problema de algo novo agradar tantas pessoas?

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