Review: “A Bela e a Fera” de Christophe Gans

“A Bela e a Fera” é um conto originalmente escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot em 1740 que recebeu inúmeras adaptações literárias, teatrais e audiovisuais. A mais famosa delas, talvez, seja a animação da Disney de 1994 que chegou a ser indicada ao Oscar de melhor filme (algo bastante raro até então). Apesar de a história original ter características bastante específicas, o tema da sensibilidade contra a ferocidade parece render interpretações de acordo com a época. Este novo filme busca um visual gótico que parece mais interessado nos elementos fantásticos do conto do que em analogias de qualquer forma.

A história em si é bastante fiel ao texto original – o que pode causar um pouco de surpresas aos fãs da versão Disney, que inventou personagens inspirados na mesa de chá para a protagonista ter alguns amigos para cantar. Bela é a filha mais jovem de um mercador, com duas irmãs e três irmãos, cuja família perde tudo após um acidente com os navios do pai. Eles se mudam para uma casa do campo, o que deixa Bela bastante feliz, ao contrário dos irmãos que sentem falta da vida cosmopolita. O pai descobre a possibilidade de voltar a fazer dinheiro e retorna para a cidade, com pedidos especiais das filhas: as mais velhas querem roupas de presentes, já Bela quer apenas uma rosa. Normal, a moça curte uma horta mesmo.

Ao seu plano comercial não dar certo, ele se perde no caminho de volta e se encontra em um castelo mágico, com comida e os presentes que as filhas queriam. Ao ir embora, lembra-se do pedido de Bela e rouba uma rosa do jardim. É então surpreendido por uma criatura feroz que diz que ele terá que pagar com a própria vida pelo roubo. Bela, sentindo-se culpada pelo destino do pai, vai ao castelo e se oferece como “pagamento” pela rosa. A Fera, ao invés de matá-la, a prende no castelo para ter companhia. A relação do par parece uma espécie de casamento de interesses. A Fera apenas a vê como um troféu, alguém para ele dar ordens enquanto ela não faz anda. Bela, um pouco mais liberal que suas irmãs interesseiras, parece indisposta a ceder aos caprichos do seu captor. De qualquer forma, a relação do “casal” não sai disso. Quando vai dormir, Bela tem sonhos que narram o passado da Fera.

Cada versão de “A Bela e a Fera” parece querer inventar uma origem particular para o personagem. No conto original, ele era um príncipe que foi seduzido por uma fada malvada quando criança, que a recusou quando adulto e foi transformado no monstro. Nesta nova versão a história é diferente, mas não trás nenhuma reviravolta criativa. Tenta encaixar a origem da Fera em algo marcado pela fantasia, o que convém em um conto de fadas, mas não cria asas enquanto a trama central parece focada em cenários góticos, sombrios e abandonados. A Fera (nem a Bela) são personagens completos e o vazio de suas personalidades não são preenchidos por estranhos cães beagles deformados, overdose de rosas crescendo no cenário inteiro ou gigantes de pedra que surgem no clímax sem propósito algum.

Visualmente o filme é muito bonito e caprichado, tanto nos cenários quando nos figurinos coloridos e criativos – que contrastam muito bem com a falta de cor do resto do ambiente. Ao menos nas cenas noturnas. As cenas diurnas tem um ar muito mais artificial, parecendo às vezes um desenho animado. O uso do chroma key fica incrivelmente evidente em certos momentos, que exageram na criatividade sem necessidade. O diretor Christophe Gans (“O Pacto dos Lobos”, “Terror em Silent Hill”) é bastante visual e gosta de caprichar em enquadramentos cheios de elementos. Mas se tais elementos estiverem lá apenas para criar um bom quadro, o filme fica mais parecendo um storyboard animado do que um filme em si.

Bela é interpretada pela bela Léa Seydoux (“Azul é a Cor Mais Quente”, “007 contra Spectre”), devidamente charmosa nos diálogos, mas um pouco sem graça quando não tem nada para fazer a não ser andar. A Fera é interpretada por Vincent Cassel (“Irreversível”, “Cisne Negro”), escondido por uma maquiagem curiosa que parece usar um figurino a base de efeito especial e uma máscara criada por efeito visual. Nos flashbacks como príncipe, ele tem algo a fazer, que não é muito, mas ao menos você o reconhece. O resto do elenco conta com André Dussollier, Eduardo Noriega e Yvonne Catterfeld.

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