Late to the Party: “Mario Kart 8”

O primeiro Mario Kart foi lançado em 1992 para o Super Nintendo no que provavelmente foi uma das ideias sem sentido mais sensacionais da história dos videogames. Na época, spin-offs eram extremamente incomuns. Zelda era Zelda, Final Fantasy era Final Fantasy, Castlevania era Castlevania. Os estúdios não pensavam em ideias alternativas para aproveitar as marcas, pois acreditavam que o que vendia a marca era o gênero – e não o contrário. “Super Mario Kart” surgiu de um conceito do designer Shigeru Miyamoto em fazer um jogo de corrida multiplayer focado no multiplayer, ao contrário de “F-Zero” de dois anos antes, e depois resolveram colocar personagens Mario nos karts para ver como ficava. E o resto, como dizem, é história.

mariokart08_01

O sucesso foi imediato e a Nintendo descobriu uma nova franquia dentro de uma franquia. Lançou “Mario Kart 64” para o seu novo sistema cinco anos depois e desde então mantêm-se firme em produzir um título para cada novo aparelho seu, console ou portátil. E anos mais tarde veio a explosão de popularidade de “Mario Kart Wii”, que vendeu absurdos 36 milhões de unidades – sendo o sexto mais vendido em todos os tempos ou o terceiro se você contar apenas lançamentos a uma única plataforma. Resumo: Mario Kart não é mais apenas um spin-off do Mario. É um blockbuster em si a ponto de competir com os próprios clássicos originais do personagem.

“Mario Kart 8” veio com o duro objetivo de dar continuidade a esse sucesso, apesar do lançamento em uma plataforma que até então não vendeu mais do que 13 milhões de unidades mundialmente até Junho de 2016. Ainda assim o jogo encontrou seu público, vendendo quase 8 milhões de unidades segundo a Nintendo – isso representa mais de 60% da base instalada do sistema! E o motivo para entender o sucesso do jogo é bastante simples. Transcende apenas o valor da marca (seja Super Mario ou Mario Kart) ou mesmo o sucesso ou fracasso de sua plataforma. “Mario Kart 8” vendeu por que é o melhor jogo da franquia. Disparado.

mariokart08_04

O sucesso do jogo merece ser atribuído a mais do que apenas “um novo Mario Kart”. A Nintendo tem um know how nesse estilo de jogo, até por que neste presente momento só existe Mario Kart na fatia de mercado para jogos “no estilo Mario Kart”. Esse diferencial dá garantia à empresa oferecer mais do que apenas mais do mesmo. Sim, o estilo básico não sofreu alterações. Você pilota karts com personagens famosos em cenários coloridos enquanto atira itens um no outro. E, de vez em quando, xinga quando é acertado por um casco verde do nada. Ou um casco azul na última curva. Se você já jogou algum Mario Kart, sabe o que esperar do oitavo jogo da franquia.

Entretanto, o simples fato de ter uma receita pronta não significa que o bolo irá funcionar. Apesar do sucesso fácil dos primeiros dois jogos, principalmente após “Mario Kart 64” ter fincado o nome da série como um clássico multiplayer (o Nintendo 64 e seus quatro controles ajudaram muitas franquias nisso), depois disso a Nintendo variou entre acertos e erros. “Mario Kart: Double Dash!!” do GameCube tentou inovar sem sucesso. Ter dois pilotos no mesmo kart não trouxe muita diferença, apesar de ter introduzido a ideia de veículos alternativos. E “Mario Kart: Super Circuit” não fez nada no Game Boy Advance que o primeiro jogo não tenha feito no Super Nintendo. As coisas tiveram um certo progresso em “Mario Kart DS”, que fez um tremendo sucesso, e “Mario Kart Wii”, já mencionado. Ambos jogos eram similares e agradaram. “Mario Kart 7”, lançado no 3DS, introduziu variedades e melhorou a receita. Mas deu sinais de cansaço.

mariokart08_05

Surge então “Mario Kart 8”, que é uma evolução direta de “Mario Kart 7”, mas funciona muito mais. Por quê? De uma forma bem generalista, este talvez seja o título mais produzido da série. O jogo é de uma exuberância visual e sonora ímpar para os padrões não só de jogos da Nintendo, mas para a mídia como um todo. Entendo que as pessoas tem a tendência achar que apenas gráficos realistas são detalhados ou impressionantes. Mas esse é um clichê cujo erro fica evidente a partir do momento que o visual realista deixa de sê-lo com o avanço natural da tecnologia. Pula-se de Uncharted para Uncharted como o novo fotorrealismo da vez, mas será que um jogo de anos atrás mantêm-se atual nesse aspecto? Não. Se “The Last of Us” ainda é um jogo visualmente impressionante, não é por ser “quase filme”, mas por ter um design artístico marcante. Deixou de ser fotorrealista, mas continua belo.

Nesse aspecto, um jogo com visual cartunizado também merece esse destaque. Pense em como “The Legend of Zelda: Wind Waker” simplesmente não perde seu charme, apesar de ter sido lançado em 2003. “Mario Kart 8”, com sua abundância de cores e formas, é um delírio! Uma espécie de sonho exuberante, cheio de charme e afeto visual. Cada pista, especialmente as inéditas, foram construídas com uma riqueza própria incrível. E até mesmo as pistas antigas, refeitas e reinterpretadas do zero, ganham vida nova na tela. As inspiradas no Super Nintendo ou Game Boy Advance claro que são as que mais cresceram, mas fiquei particularmente encantado com as novas versões tiradas do Nintendo 64.

mariokart08_03

Além disso, a trilha sonora tem seguido o padrão excelente que a Nintendo vem colocado nos jogos estrelados por Mario desde “Super Mario Galaxy”. Novamente, as reinterpretações das músicas clássicas das pistas refeitas são bem legais. Mas as inéditas são muito bonitas e complexas. Todo esse esforço produz um jogo que, audiovisualmente falando, representa o melhor que a mídia tem a oferecer. Não só pelo capricho nos gráficos e na trilha sonora, como no estilo em si. Cada fase reflete aquilo que o jogo oferece, que é alegria e diversão. Pode parecer piegas (que seja), mas “Mario Kart 8” apenas exalta graficamente aquilo que ele quer que o jogador sinta enquanto joga.

Claro, visual nenhum daria conta se a jogabilidade ou level design estivesse aquém. E apesar dos sinais de que a Nintendo não tem mais o que inventar com a série, a adição tem setores de pista sem gravidade funciona. E muito melhor do que as sequências aéreas ou submersas de “Mario Kart 7” (que permanecem aqui). A ideia cria pistas mais ágeis, com mais curvas e mais surpresas. É um pequeno detalhe, uma invenção quase inconsequente, mas adiciona algo. E se o resultado produz uma jogabilidade mais variada e ágil, o saldo é positivo. Ou seja, “Mario Kart 8” é um jogo muito bom de se jogar, não apenas de olhar. É um pacote completo mesmo.

mariokart8_06

E um dos mais completos que a Nintendo já fez, de lançamento, mas que ela se esforçou em expandir. Hoje em dia parece altamente natural que um título desse gênero receba conteúdo via DLC, mas a empresa acertou na dose, sem abusar da paciência do consumir. Além do update com amiibos para liberar roupas inspiradas nos personagens para o seu Mii (Captain Falcon, Samus Aran e Mega Man em um Mario Kart? Sim, claro!) o jogo também recebeu uma atualização gratuita com o modo 200 cc, o mais veloz da série até então. Não chega a ser um F-Zero, mas tem adrenalina o suficiente para os fãs das antigas. Se você é novo na série, entretanto, melhor começar de baixo mesmo.

Com DLC pago, o jogo recebeu dois pacotes – a preços razoáveis, sendo que um deles até foi disponibilizado gratuitamente pelo programa My Nintendo. Cada um deles trás dois novos campeonatos, com quatro pistas cada, e três novos pilotos e alguns novos karts. As adições incluem pistas inspiradas no universo de Zelda, Animal Crossing, F-Zero e Excite Bike. E os personagens e karts vem dessas séries também, incluindo Link e Isabelle. As pistas inéditas são muito boas, mas também é legal que a Nintendo tenha incluído novos remakes de clássicos como a saudosa Rainbow Road do Super Nintendo e Baby Park do GameCube. Tem variedade o suficiente para valer a investida.

Não só o que vem no disco já é mais que o suficiente para garantir horas de diversão, a Nintendo atualizou o jogo com conteúdo gratuito e pago que tornam um lançamento completo em um pacote completamente imperdível. “Mario Kart 8” deu vida nova a franquia, mesmo repetindo a velha receita de sempre. E o mérito disso é simples: está em sua inquestionável qualidade. Às vezes, isso é o suficiente para criar um clássico.

mariokart8_02

Ah, sim, dá para pilotar uma Mercedes-Benz agora. Por que não, né?

Anúncios
Esse post foi publicado em Late to the Party, Videogames e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Comente aqui...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s