Os dez anos de “Cassino Royale” e a Era dos Heróis Sensíveis

Dez anos atrás estreava em Londres (e em alguns países do Oriente Médio) o novo reboot da franquia James Bond, “007 – Cassino Royale”. A série, já acostumada a se reinventar sempre que precisava trocar de ator, estava no auge da controvérsia. Daniel Craig fora anunciado um ano antes e quase ninguém gostou da escolha. A imprensa preferia Clive Owen – lembra dele?? – e massacrou Craig por ser loiro. Loiro! Foi um ano de muita expectativa e, para a surpresa da maioria, até dos fãs, o filme superou todas as expectativas. Não só um sucesso de crítica, como de público (foi a maior bilheteria da franquia até então) e Craig recebeu inúmeros elogios por sua atuação intensa e sóbria. Quem diria, hein?

Nesse tempo que se passou, muita coisa mudou. Para começo de conversa, o termo reboot entrou no vocabulário pop. Hoje em dia é tão comum que já ficam na dúvida quando um filme é remake, reboot, prequel, soft reboot ou tudo ao mesmo tempo! Os produtores da série Bond – Barbara Broccoli e Michael G. Wilson, no comando desde “O Amanhã Nunca Morre” de 1997 – não tiveram problemas em assumir que “Cassino Royale” se inspirou em “Batman Begins”, dirigido por Christopher Nolan um ano antes. E foi justamente “Begins” que deu início ao termo reboot, mas parece que foi com o vigésimo primeiro filme 007 que ele entrou em lugar comum.

A questão do reboot é simples. “Batman Begins” contava a origem do Batman, mas não era um prequel do “Batman” de 1989. Era uma história nova, que começava do zero. Um reinício mesmo. Para 007 a ideia foi a mesma. Apesar de mostrar a primeira missão de James Bond (inspirado no primeiro livro do agente escrito por Ian Fleming), não era um prequel a “Dr. No” ou qualquer outra coisa. Era um reinício. E, assim como “Begins”, dava um rumo novo a franquia. Mais sério e sombrio, com menos gadgets e humor tiozão. Assim como o Homem-Morcego precisou se reinventar após o carnaval de “Batman & Robin”, Bond também merece um reset depois da bagunça de “Um Novo Dia Para Morrer”. E o foco dessa reinvenção estava justamente na atuação de Daniel Craig.

Colocar Christian Bale para interpretar um Batman sério não era novidade. Apesar de George Clooney ter feito praticamente um Roger Moore com seu Cavaleiro “das Trevas”, o personagem sempre foi interpretado de maneira séria no cinema. Para James Bond, era uma certa novidade. Mesmo que Timothy Dalton tenha tentado, nos anos 80, manter o personagem sob um prisma mais realista e violento – como Fleming o concebera originalmente – seus dois filmes ainda tinham seus absurdos. Seu James Bond “esquiava” em uma caixa de violoncelo ou caía de paraquedas no meio de um casamento. O que os produtores queriam de Daniel Craig era algo completamente sincero, duro e com tonalidades psicóticas. Afinal, estamos falando de um assassino que tem autorização para matar! As piadas ficariam em segundo plano. Os martinis não seriam mais “batidos ou mexidos”. As mortes teriam sangue.

Apesar de todas as expectativas contrárias, deu certo. Craig automaticamente virou “o melhor James Bond” (fãs do Sean Connery discordam, mas ainda assim é um rótulo que pegou) e todo mundo queria ver mais. “Quantum of Solace” manteve essa linha sóbria e “Operação Skyfall” deu uma certa relaxada. Foi somente com “Spectre” que a série voltou a arriscar no humor – e foi criticada por isso. Portanto os fãs queriam era ver um James Bond realista, contemporâneo. Foi isso que Daniel Craig ofereceu e todos saíram satisfeitos. E o sucesso marcou. Sua atuação é muito mais associada ao papel do que a de Bale como Batman, por exemplo. E, diferente de Robert Downey Jr., que inventou o Tony Stark dos cinemas, Craig pegou para si e deu uma forma inédita a algo já estabelecido. E a influência foi imediata.

Pode-se dizer que “Batman Begins” levou a um “Batman – O Cavaleiro das Trevas” ainda mais sombrio. Mas será que apenas o Homem-Morcego ficou nessa posição? O próprio Tony Stark, apesar de bonachão e cheio das tiradas humorísticas, é um ser humano complexo. Tem problemas com a figura do seu pai. É alcoólatra. Não tem muito dom para respeitar as mulheres de sua vida. Para um personagem de filme de quadrinhos, isso é muito! E até o Capitão América sob o comando do carismático Chris Evans é sério demais, pessimista em relação a política estrangeira do país que carrega em sua roupa. Mesmo nos filmes da Marvel, cheios de humor, há espaço para realismo. E, diferente do Batman (que sempre foi assim), eles mantiveram um ar de “heróis novos para novos tempos” que Daniel Craig soube explorar.

Teve também o Homem-Aranha de Andrew Garfield, praticamente um adolescente rebelde sem causa. E as versões jovens de Charles Xavier e Magneto no reboot de X-Men também demonstravam seu lado sombrio com mais força. Michael Fassbender canalizava raiva em seu discurso com mais ênfase do que Ian McKellen e James McAvoy botou o líder do grupo para chorar de desespero em “Dias de um Futuro Esquecido”. E não preciso nem citar o Superman de Henry Cavill, né? O ator, simpático mesmo, foi jogado em um “O Homem de Aço” em que quase não sorria. Quando caiu em “Batman vs Superman”, seu herói já era depressivo e fugia para uma montanha famosa por suicídios. Eita ferro! Tempos modernos mesmo. E olha que Donald Trump sequer tinha sido eleito ainda…

O mesmo pode ser dito para outros heróis, como Jason Bourne, mas ele sempre foi assim mesmo. E apesar de o retorno de Star Wars injetou uma boa dose de humor nos seus heróis, algo indica que o Luke Skywalker que voltará em “Episódio VIII” será menos sorridente. Difícil amarrar diretamente a influência da atuação de Daniel Craig a todos os heróis de blockbuster da última década. Mas que houve uma avalanche de protagonistas sérios e menos otimistas com o mundo, isso é fato. Reflexo dos tempos que vivemos? Sem dúvida! Mas parece que James Bond foi o primeiro a captar que os próximos dez anos não iriam ter tanto espaço assim para humor. Alguém já contou para ele do Brexit?

Não que apenas a seriedade ou tristeza tenham tido espaço. Como mostra a bela cena em que Bond consola Vesper Lynd no banheiro, ou mesmo a surpreendente declaração romântica que ele solta no ato final (“o que quer que sobre de mim, o que quer que eu seja, eu sou seu”) revelam na verdade um herói sensível. O que se refletiu nos outros protagonistas. Mas o mundo em que eles vivem, um mundo duro e realista, parece focar mais na tristeza. E mesmo que isso tenha uma aura de pessimismo, além de mero reflexo dos tempos atuais, não deixa de ser um progresso. Se até James Bond, o suprassumo da masculinidade do homem pós-Guerra Fria, está podendo chorar… Você também pode.

O cinema, apoiado em um clássico de apenas dez anos atrás e na marcante atuação de um grande ator em um papel icônico, finalmente abriu espaço para um lado novo em seus heróis. Os homens podem ser sensíveis, frágeis e tristes. Independente do que isso revela do período histórico que vivemos, é reflexo de uma arte mais aberta a sentimentos verdadeiros. Esse realismo todo, no final das contas, é o da emoção.

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