Review: “Doutor Estranho” de Scott Derrickson

Trocentésimo episódio do Universo Cinematográfico Marvel (sério, já parei de contar), “Doutor Estranho” novamente introduz um novo herói com novos poderes e novos vilões para enfrentar uma nova ameaça que promete destruir tudo novamente. Mas tudo isso é só para depois o protagonista poder se juntar aos Vingadores de três em três anos. Spoiler alert? Essa é a linha de produção Marvel. E, se você não gosta, dificilmente chegou até aqui. Mas… Para quem gosta do bolo, a receita é a mesma e continua com um sabor gostosinho.

Stephen Strange é um médico cirurgião profundamente arrogante e sem a menor capacidade de sentir empatia pelo outro (e não, ele não é o vilão psicopata da história) até sofrer um acidente que lhe tira pleno controle dos movimentos das mãos. Incapaz de se gratificar com o apoio daqueles que o ajudaram, resolve ir atrás de um sugestão para a cura em um grupo secreto de monges/ninjas/jedis do Nepal. Lá descobre que o contínuo espaço-tempo é uma coisa que existe – que médico é esse? – e que com o poder da magia você pode transcender dimensões e fazer… Coisas. Ah, e ele tem que impedir um vilão. Afinal, né… Vai fazer o quê com isso?! Passear pelo cosmo?

A jornada de Strange como personagem é moderadamente eficaz. Ele é de fato um personagem arrogante e antipático, difícil torcer por ele. Interessante rumo inicial. E, claro, ele passa por um arco (bastante óbvio) e aprende a respeitar o próximo. “Não é sobre você”, diz a Anciã para ele, mas isso ele poderia dizer para praticamente todo mundo. O problema da jornada de Strange como protagonista é que ela não tem ritmo. Ele é arrogante, mas chega no Nepal fazendo piadinhas sobre Beyoncé (jura?) e após aprender a distorcer o espaço-tempo e transcender para dimensões além de sua compreensão em algo como uma semana, ele lida disso tudo como se fosse só mais uma nova etapa de sua vida. Até o Homem de Ferro demonstrou maior impacto emocional e tudo que ele fez foi vestir uma armadura.

A postura de Strange o compromete como protagonista, mas não atrapalha o enredo. Seus coadjuvantes seguram as pontas mesmo que o vilão seja praticamente ineficaz, não ameaça nem o bibliotecário do convento. Mas a essa altura isso já é uma tradição da Marvel. O problema maior é o desperdício de oportunidade. “Doutor Estranho” é o primeiro filme da cultuada produtora a romper com as barreiras da realidade. Claro que já vimos alienígenas e tecnologias impossíveis, mas agora temos um herói capaz de transcender dimensões! As possibilidades de enredo são infinitas. Mas tudo que o vilão quer é destruir a galáxia. Para variar. O Thanos tá sabendo disso?

O diretor Scott Derrickson (de “O Exorcismo de Emily Rose” e “A Entidade”) tem a possibilidade de arriscar visualmente. Buscando inspirações óbvias de “A Origem” e até de “Interestelar”, ele trás um quê de psicodelismo ao Universo Marvel com arquiteturas que convergem entre si, criando belas imagens e inspirando um pouco de criatividade nas cenas de ação. O problema é que, novamente, faltou arriscar. Em um filme onde nem o contínuo é uma limitação, a Marvel colocou o céu como limite. As cenas pouco impressionam pois, por mais belas que sejam, nada adicionam ao enredo. Diferente de “A Origem”, onde corredores se contorcionam e isso trazia consequências para outros cenários em outras cenas, em “Doutor Estranho” é apenas um poder novo, um efeito especial vazio. O buraco negro de “Interestelar” causa mais encanto do que uma dimensão que transcende o próprio tempo por aqui e isso diz muito do quanto o roteiro estava amarrado.

O Dr. Estranho é vivido por Benedict Cumberbatch (“O Jogo da Imitação”), ator talentoso que tira bom proveito das cenas dramáticas, mas não dá conta quando é obrigado a fazer piadinhas sem graça. Diga-se de passagem, este me pareceu o primeiro filme da Marvel onde o humor estava nitidamente forçado… Seu vilão é vivido por Mads Mikkelsen (“007 – Cassino Royale”) em um tremendo desperdício de um incrível ator. Chiwetel Ejiofor (“12 Anos de Escravidão”) é o companheiro de Strange e ele também se sai melhor quando a dramaticidade exige. Rachel McAdams (“Spotlight”) é a mocinha que não tem razão nenhuma de existir na trama, mas tá lá. Ela se esforça, também, nas cenas dramáticas do do primeiro ato – que, só para deixar claro, são boas! E a sempre incrível Tilda Swinton está eficaz. O que é um absurdo em se tratando de Tilda Swinton, mas não estou cobrando. O elenco é simplesmente um dos melhores que Hollywood poderia acolher, mas o roteiro não oferece nada para eles.

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