Review: “A Chegada” de Denis Villeneuve

Invasões alienígenas geralmente se enquadram no gênero sci-fi, por motivos bastante óbvios, mas tradicionalmente levam a interpretações mais focadas na ação e na destruição. Ignorando o cinema B da primeira metade do século XX, ou o clássico “O Dia Em Que a Terra Parou” (um sci-fi puro), a grande maioria das interpretações modernas levam mais a linhagem “Independence Day”. Eles chegam explodindo, são explodidos, vão embora, acabou a história. “A Chegada” tenta traduzir uma invasão alienígena a uma vertente mais filosófica de cunho fortemente emocional. Ou seja, uma raridade.

A Dra. Louise Banks é uma especialista em linguística chamada pelo exército dos EUA para ajudá-los a se comunicar com alienígenas que acabaram de aterrissar na Terra. Foram 12 naves e ela fica incumbida de tentar se comunicar com uma delas. Mas uma coisa é traduzir dialetos confusos de tribos indígenas perdidas no tempo. Outra é praticamente se alfabetizar em uma forma de comunicação totalmente nova! Será que os alienígenas falam? Escrevem? Entendem a comunicação por linguagem da mesma forma como nós? Ou seja, constroem sentenças que invocam significado?

“A Chegada” apresenta-se como uma interpretação da interpretação. Sim, os alienígenas se comunicam, mas como fazer eles nos entenderem? O impacto desse dilema está presente em praticamente todos os diálogos. A comunicação em si não é um mero reflexo evolutivo. É a essência do que nos constitui civilização racional. É o que define nossa forma de pensar, agir e ver o mundo. Como tentar passar isso para uma outra espécie de ser vivo, por mais inteligente que ela seja? E como ser bem sucedido nisso, se a nossa própria comunicação já é falha entre nós? O filme deixa claro a incrível inabilidade do ser humano em dialogar consigo próprio, como uma única espécie. O que reflete na percepção do público em cima do tema central da narrativa: a importância de falar.

Mas além dessa questão racional da questão, o roteiro (inspirado em um conto de Ted Chiang chamado “Story of Your Life”) levanta questões emocionais também. Sem entrar em spoilers – o filme entrega informações logo na abertura, mas para elaborar mais teria que ir além delas – a Dra. Louise acaba lidando com os efeitos de uma outra experiência de vida enquanto aprende a se comunicar com os alienígenas. O clímax leva ela a uma percepção bastante profunda sobre nossa existência física (pense em algo do nível “Interestelar”) que remete a uma questão básica da existência emocional humana: a importância de falar. A gente fala para transmitir nossas emoções. Mas com o tempo desaprendemos a dar importância a isso.

O filme é dirigido por Denis Villeneuve, de “Os Suspeitos” e “Sicario”, dando conta da dura tarefa de liderar um sci-fi bastante cerebral. Mas é na hora das cenas mais emotivas que ele mostra seu real talento. O visual da história também é bastante interessante, apesar de simples. As cenas mais belas não envolvem naves alienígenas, mas sequências de interiores que focam nas emoções da protagonista.

O elenco é liderado por Amy Adams, que não erra nunca, mas é sempre um tiro certeiro no papel de protagonista. Ela tem o carisma e tem o talento. Sem nunca apelar para maneirismos típicos do gênero (o fato do sci-fi tradicionalmente ser emplacado por homens sem dúvida ajuda ela nisso), sua atuação não é de metida a gênio. Sua doutora é uma mulher com sentimentos guardados, mas que emociona quando precisa. Ou seja, uma pessoa comum, o que – novamente – é um fato raro para esse estilo de filme. Ao seu lado temos Jeremy Renner, Forest Whitaker e Michael Stuhlbarg.

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