Review: “Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar” de Amy Sherman-Palladino e Daniel Palladino

Cultuado seriado dos anos 2000, “Gilmore Girls” fez relativo sucesso no início do século ao contar a história de duas “garotas”, uma mãe jovem e sua filha adolescente. Na sexta temporada, os autores Amy Sherman-Palladino e Daniel Palladino abandonaram o seriado, após divergências com o estúdio Warner. A sétima temporada não manteve a mesma qualidade no texto (o casal Palladino era a alma dos diálogos ágeis) e o seriado teve seu fim em 2007. Apesar de ter dado tempo para encerrar a história – e convenhamos, o episódio final “Bon Voyage” é bastante digno – para os fãs ficou a sensação de final em aberto. Pois “Gilmore Girls” terminou não nas mãos de seus autores. E justo eles, que sempre prometeram entregar “as quatro palavras finais” que já haviam escolhido para encerrar a história.

Passado um tempo e o seriado pulou de nicho para cult. Os anos foram bons para o tipo de humor dos Palladino e uma nova geração foi descobrindo as alegrias de acompanhar as desventuras de Lorelai e Rory na cidade de Stars Hollow e seus inusitados moradores. Quando o seriado chegou no Netflix em 2014, explodiu de vez. Isso inspirou o serviço de streaming em bancar um revival, algo bastante na moda (vide “Arrested Development” e “Arquivo X”) continuando o seriado de onde parou. E aqui estamos: “Um Ano Para Lembrar”.

O primeiro episódio, “Inverno”, começa com mãe e filha se reencontrando em Stars Hollow. Pouca coisa mudou desde a sétima temporada. Lorelai ainda está com Luke, morando na mesma casa, ele trabalhando na famosa lanchonete. Rory está trabalhando onde surgem oportunidades como freenlance, atualmente em Londres, mas tem oportunidades (e dinheiro, né?) para de vez em quando pegar um avião para Connecticut para ficar um dia na cidade. E dormir na casa da mãe. Ou da Lane. Da Lane?! De qualquer forma, uma coisa mudou drasticamente na vida das duas: Richard, o pai de Lorelai, morreu quatro meses atrás. Emily, a matriarca da família, está passando pela dificuldade de se ajustar a uma vida sozinha após dividir 50 anos com outra pessoa. Lorelai passa a questionar algumas de suas decisões e Rory parece ocupada demais esquecendo de terminar com o namorado que ninguém consegue lembrar que existe.

A história já começa muito condensada. Os 90 minutos de fato parecem dois episódios do modelo antigo grudados, com as três personagens centrais passando por ao menos um (talvez dois?) claro arco narrativo. É muito texto para pouco tempo. Inegavelmente que aqueles antigos 45 minutos do seriado antigo pareciam ser o limite ideal para gilmorismos. Não que o texto esteja ruim – longe disso! – mas talvez “Gilmore Girls” não tenha nascido para o modelo longa-metragem. A história é boa, a narrativa é concisa e focada – fora uma ou outra trama paralela desnecessária envolvendo os memoráveis coadjuvantes de Stars Hollow – e “Inverno” já chega mostrando que o texto dos Palladino continua afiado como sempre. Para quem é fã, a sensação de familiaridade é imediata. E isso é algo positivo para um seriado famoso por ser único. Mas sim, existe algo como “Gilmore Girls demais”.

O episódio “Primavera” dá uma certa diminuída no ritmo ao ignorar arcos aos coadjuvantes – uma boa decisão – e focar um pouco na relação de Lorelai com sua mãe enquanto Rory tenta tomar decisões sobre seu futuro. Na verdade todas as garotas Gilmore estão revendo alguma das suas decisões de vida (até Emily, ao desenvolver uma ideia com Luke) e isso trás algumas novidades narrativas para as personagens. Claro, com um certo ar de familiaridade, parece que os dramas delas não mudaram tanto assim depois de 9 anos, mas alguns conceitos são novos e servem para estabelecer os rumos no próximo episódio.

Começa “Verão”, que leva as protagonistas a tomarem decisões que sirvam para mudar esses tais rumos. As três se sentem estagnadas, mas parece que Emily é a primeira a ter atitude de fazer algo. E suas herdeiras vão na sua trilha, por motivos diferentes e inspirados por eventos diferentes. Lorelai, por exemplo, acaba tendo a ajudadinha de um certo “Stars Hollow: O Musical”, inicialmente introduzido em uma hilária – e bizarra! – sequência que não tem correlação nenhuma com nada na trama do episódio. Mas se os Palladino querem montar um musical de Stars Hollow inspirado em “Hamilton” e com músicas do Abba (??), eles irão. É assim que sempre funcionou, não? O último episódio, “Outono”, encerra as questões para as três personagens e, claro, nada mais justo, Lorelai é a que tem a conclusão mais definitiva. Ela teve seu final feliz na sétima temporada, mas não foi bem um final completo. Já Rory te uma conclusão mais em aberto, como foi no seriado anteriormente, mas por motivos diferentes. E continua condizente com sua jornada. Ela tem apenas 30 e poucos anos. Tem muita estrada pela frente.

E, claro, tem as tais “quatro palavras finais”, que irão deixar os fãs inquietos. Há margem para interpretação – o que é uma ótima saída – e possibilidades de uma certa continuidade. Nem todo fã ficará plenamente satisfeito, mas não há nada que possa ser feito a respeito disso. Ainda assim, os Palladinos conseguiram terminar “Gilmore Girls” como quiseram originalmente e com uma conclusão digna para um seriado que fez questão de deixar sua marca. Algo como apenas um “adeus!” aparentaria insincero. Diria, inclusive, que o destino favoreceu ao casal de roteiristas. As palavras finais talvez soassem um pouco abruptas ou tempestivas fossem emitidas no final de uma sétima ou mesmo oitava temporada. Mas assim, como “evento final” após quase dez anos de intervalo? Funciona bem melhor. E serve para amarrar as personagens num ciclo interessante para elas.

Independente de como um fã possa ficar em relação a essas tais palavras, uma conclusão precisa ser feita: “Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar” é feito para eles. É clara a tentativa de seriado em agradar a quem tanto se encantou por essas peculiares garotas. Os coadjuvantes favoritos recebem a atenção devida (em particular o Kirk, de Sean Gunn, e a inesquecível Paris Geller de uma Liza Weil perfeita como sempre no papel de sua vida). Alexis Bledel visivelmente amadureceu como atriz e sua química com Lauren Graham continua excelente. E Graham, que nasceu para o papel de Lorelai, continua mostrando incrível habilidade de fazer rir e chorar na mesma cena com esforço zero. A matriarca Gilmore fica a cargo de Kelly Bishop, que é ótima em dividir cenas com Graham. As duas carregam com tremenda leveza esse ar de “problemas do passado ainda estão presentes”. Scott Patterson é um Luke um pouco mais cansado, menos vital que antes. Melissa McCarthy tem uma única cena como Sookie, só para marcar presença. E Edward Herrmann tem uma certa oportunidade de aparecer como Richard Gilmore. Apesar do ator ter falecido em 2014, os autores deram um jeito de homenageá-lo em uma bela cena no episódio final.

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