Review: “Elle” de Paul Verhoeven

Em tempos de acentuadas discussões sociais, abordar um tema sensível como o estupro de uma maneira pouco sensível poderia ser uma receita para um fiasco. Ou, no mínimo, uma completa falta de bom senso. Entretanto, ao apontar para uma narrativa bem focada, “Elle” não corre esse risco. Inspirado no livro “Oh…” de Philippe Djian, a história aqui não gira em torno do estupro, mas sim em torno da personagem titular. Resultando, portanto, em um estudo de personagem, o que promove uma melhor assimilação dos eventos polêmicos e reações pouco convencionais da trama.

Michèle é uma poderosa empresária parisiense com um passado sombrio. Mas nós somos introduzidos a ela já pelo estupro. Sua reação não envolve o que se espera de uma dramatização cinematográfica. Ela começa a varrer o chão, catando os cacos do cenário destruído, e depois pede comida japonesa. A partir daí ela é confrontada com outros dilemas do seu dia a dia. O machismo em seu ambiente de trabalho (apesar de ser dona da empresa, é uma empresa de videogames, então dá para imaginar a vibe Gamergate do local), sua relação com seu filho bobalhão, sua mãe libertária, um amante e seu pai – que faz parte do seu passado sombrio. Ah, e claro, com seu estuprador, que continua a rondá-la.

Elle, como já dito, é uma mulher poderosa. E destemida. Sim, ela foi estuprada, mas não vai deixar o estuprador achar que está em controle de situação nenhuma. Quem manda na vida dela é ela! Sua postura reativa não é vista com floreios, com elogios, mas com sinceridade. Elle é uma mulher sincera, então merece ser tratada com sinceridade. A personagem é bastante complexa e tem reações surpreendentes. A graça do filme está toda aí. Nada contra uma história que crie um drama em cima de questões dramáticas. Mas “Elle” é um thriller com teor de humor. Não é o conto de uma mulher que foi estuprada. É o conto de Elle.

Mérito do roteiro de David Birke, que não segue a linha natural das narrativas convencionais. A maioria dos textos segue baseado em situações, eventos, episódios – e o personagens se encaixam neles, acontecem de acordo com o que acontece com eles. “Elle” é todo sobre Elle. Mostra a personagem aos poucos, mas todos os eventos giram em torno dela e de como ela se posiciona perante essas situações. Se não necessariamente isso produz uma história de fácil assimilação (creio que pessoas que podem ficar sensibilizadas com o tema não irão sair satisfeitas), mas merece muito mérito pelo foco no desenvolvimento da personagem. E Elle é uma mulher interessantíssima de se acompanhar. Mesmo que não necessariamente você gostaria de chamá-la para tomar um café em Paris. Ela é meio maluca, sabe…

A direção é de Paul Verhoeven, diretorzão de clássicos dos anos 80 e 90 como “Vingador do Futuro” e “Instinto Selvagem”. Sua direção aqui é bem visual – o que é de se esperar dele – com alguns enquadramentos bastante interessantes. Mas como o foco narrativo está na personagem, prepare-se para muitos closes e diálogos padrões. De qualquer forma, Verhoeven mantém um ritmo muito forte para uma história tão simples e longa. Ou seja, se “Elle” não é de seus filmes mais marcantes, de qualquer forma mostra que ele ainda tem mão firme.

A protagonista é encarnada por Isabelle Hupert, que carrega o pedregulho que é interpretar uma personagem dessas com louvor. Numa daquelas atuações “o filme é dela” mesmo. Sua atuação é discreta, mas conduz a narrativa no mesmo ritmo que a direção de Verhoeven – uma equação perfeita. E nas cenas que demanda sutileza sentimental, ela está poderosa. Os seus coadjuvantes são Laurent Lafitte, Anne Consigny, Charles Berling, Christian Berkel e Jonas Bloquet.

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