Review: “Estrelas Além do Tempo” de Theodore Melfi

“Estrelas Além do Tempo” é a tradução melosa de doer para “Hidden Figures”, título que faz menção à questão matemática central à trama e também à questão humana das personagens. Inspirado na história real de um trio de cientistas da NASA que trabalharam no programa espacial dos anos 60. Mas, diferente dos padrões “Apollo 13” da vida, esse aqui é focado em três cientistas mulheres e negras. Ou seja, algo que foge completamente do padrão esperado para este tipo de narrativa. E, portanto, o real valor por trás desses “dados escondidos” que não recebiam a atenção devida.

Katherine Goble é uma matemática genial que se formou na faculdade com apenas 18 anos e é especialista em trajetórias. Trabalha na NASA como computador, do tipo humano mesmo – lembrando que antes da invenção dos computadores digitais, esse aqui que a gente tá usando agora, eram pessoas que faziam a computação das variadas complexas equações! Ela é acompanhada pela amigas na matemática Dorothy Vaughan e Mary Jackson. Dorothy quer ser supervisora do setor de computadores e Mary precisa virar engenheira, algo que nenhuma mulher negra era nos EUA. As três são chamadas para trabalhar no programa espacial quando um bando de engenheiro homem branco graduado em Harvard não consegue encontrar os cálculos necessários para fazer o homem ir ao espaço.

A história do filme é baseada em fatos reais e as conquistas das mulheres é bastante fiel. Se as duas eram três amigas de churrasco são outros quinhentos, mas em tempos de NASA com setor para negros, é difícil imaginar que as três não tinham boa relação. A narrativa está sempre no ponto de vistas das três (focado mais em Katherine) em alcançar seus objetivos. Katherine é um gênio, mas não recebe a atenção que merece por que um bando de homem branco não acredita que uma mulher negra possa ser melhor que eles – spoiler alert: é sim! Dorothy está na função prática de supervisora, mas quer receber sua promoção merecida já que está de fato trabalhando naquilo, até aparecer uma tal de IBM com seus computadores digitais que podem ameaçar sua profissão. E Mary precisa virar engenheira para continuar no programa da NASA, só que as faculdades de engenharia da Virgina não aceitam mulheres negras. Resta a ela tentar mudar essa regra.

O filme, evidentemente, toca diretamente sob a questão dos direitos civis. Mulheres negras nos anos 60, tem como ignorar isso? Mas não é um filme sobre racismo. Apesar das dificuldades que elas passam, não existe um vilão racista claro. Está tudo muito mais na nuance. Elas não sofrem impedimentos por que alguém não as permite. Elas tem dificuldade por que ninguém as ajuda! Logo a história começa a se mostrar mais sobre oportunidade, algo que tanto falta a elas. Katherine precisa que alguém lhe deixe mostrar seu talento com cálculos, Dorothy precisa que alguém lhe coloque na função que ela já exerce, Mary precisa que alguém lhe deixe estudar numa faculdade. “Estrelas Além do Tempo” tem tom crítico aos absurdos da sociedade de então (e de certas retóricas que insistem em se manter), mas assume uma postura otimista ao mostrar que – se lhe derem as oportunidades – essas mulheres estão ali para revelar sua importância na sociedade. Foco na palavra central do filme: oportunidade!

O filme é dirigido por Theodore Melfi, do medíocre “Um Santo de Vizinho”. Sua direção é discreta, mas bem feita. O filme poderia cair no melodrama, mas não cai. Usa boas cenas e momentos surpreendentemente gentis, como na cena que o chefe dá o giz de cera para a Katherine mostrar seu talento aos chefões do Pentágono. Lembra da questão da palavra oportunidade? Pois é. Existem bons diálogos também e achei interessante a trilha sonora de Hans Zimmer com músicas Pharrel Williams, muitas delas cantadas.

O elenco é liderado por Taraji P. Henson (“O Curioso Caso de Benjamin Button”, o seriado “Empire”), em uma atuação discreta para uma mulher discreta, mas que tem um impressionante momento de explosão que revela o respeito da atriz pela personagem. Ela é acompanhada por Octavia Spencer (“Histórias Cruzadas”), repetindo o seu tradicional papel de mulher que não leva desaforo para casa. No caso de Spencer, ela é tão espontânea e sincera que fica difícil a questionar por estar em seu lugar comum. E por fim temos Janelle Monáe, a cantora, fazendo uma boa atuação como uma mulher segura de si. Kevin Costner é chefão da NASA, Kirsten Dunst a supervisora rígida, Mahershala Ali um interesse romântico e Jim Parsons o engenheiro arrogante com maneirismos de Sheldon Cooper.

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