Review: “Até o Último Homem” de Mel Gibson

Mais um filme de 2ª Guerra Mundial, o evento histórico que não cansa de inspirar Hollywood, mas dessa vez a narrativa segue uma visão inusitada. “Até o Último Homem” conta a história real de Desmond Doss, soldado pacifista que lutou no conflito. Opa, pera aê, soldado pacifista? Como assim? Doss era um cristão da Igreja Adventista do Sétimo Dia e pregava a não-violência. Afinal, um dos mandamentos de Deus seria “não matarás”, não é verdade? O soldado levava a questão a sério e serviu no exército sem nunca matar ninguém ou mesmo sequer atirar. Fez o contrário: salvou vidas.

Existe um conceito de que o cinema norte-americano faz propaganda da guerra. E talvez isso tenha sido verdade, até boa parte dos anos 90. Produções que tratavam a primeira Guerra do Iraque como algo casual, uma diversão de domingo – apesar de envolver inúmeras pessoas morrendo vítimas de bombas jogadas em suas casas. Mas muita coisa mudou, se você analisar desde filmes como “Guerra ao Terror” ou mesmo “Sniper Americano”, que passaram a focar mais nas casualidades dos conflitos. Ou o recente “Decisão de Risco” e no uso arriscado de drones para “limitar” as mortes. A verdade é que Hollywood parece ter aceitado admitir que sim, guerras são ruins, mesmo que às vezes os americanos achem estar do lado correto da disputa. Pessoas morrem e, apesar do que acredita muito “cidadão de bem” por aí, pessoas morrerem não é algo bom. Nunca.

“Até o Último Homem” é uma boa tentativa de rever esse ideal de que os americanos são sempre heróis e invadir as praias japonesas durante a 2ª Guerra foi válido por que os japoneses são vilões. Oras, mesmo que exista um lado claro errado na história inteira (e ninguém vai negar que matar nazista não é algo a ser criticado) isso não limita as mortes soldados – de ambos os lados! – e o risco que representa um conflito armado. O personagem de Desmond realmente acredita que matar é errado – e não é? – mesmo durante uma guerra. Sua crença religioso reflete uma ideologia que transcende palavras divinas. Ele decide que não irá matar, mais salvar vidas, e foco seu esforço nisso. Difícil não se solidarizar. O filme termina com entrevistas reais do verdadeiro Desmond Doss e sua frase final falando sobre um resgate em particular é realmente uma bela mensagem de valorização da vida.

Se por vezes “Até o Último Homem” assume uma tonalidade um pouco melosa, o resultado final comove com sua mensagem não só de pacifismo, mas também de irmandade de responsabilidade ao próximo. A direção é de Mel Gibson, famoso por “Coração Valente” e “A Paixão de Cristo” (além de seus trabalhos como ator, claro). Gibson tem talento e sabe filmar sequências impressionantes, apesar de às vezes dar uma exagerada no slow motion. Acho que o seu maior mérito é levar a sério o tema da história, sobre um herói pacifista em um conflito ultra-violento. Gibson filma a guerra de uma maneira não vista no cinema desde “O Resgate do Soldado Ryan” de Steven Spielberg. Esse contraponto ao protagonista é essencial. Como acreditar na importância da não-violência sem mostrar os horrores da violência?

O elenco é liderado por Andrew Garfield, o Homem-Aranha dos últimos dois filmes do super-herói. Garfield repete alguns maneirismos, normal, mas nas sequências mais emotivas e dramáticas consegue carregar com força o papel. Sua reação ao fim do resgate dos soldados é forte ao mostrar com sutileza o incrível impacto que a overdose de violência causa em Doss. Ao seu lado temos Teresa Palmer (“Eu Sou o Número Quatro”) como sua esposa bastante fiel, Hugo Weaving como seu pai traumatizado pela horrível experiência na 1ª Guerra Mundial (muito legal do roteiro reforçar a continuidade no horror para diferentes gerações) e Rachel Griffiths como sua mãe que lhe ensina a ser coisas boas apesar da violência dentro da família. Luke Bracey é um soldado que faz amizade com Ross, Vince Vaughn um sargento e Sam Worthington um capitão cético.

O verdadeiro Desmond Doss recebendo sua medalha de honra.

O verdadeiro Desmond Doss recebendo sua medalha de honra.

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